O porto de Cascais em finais da Idade Média: caracterização e funcionalidade

Fig. 2
Fig. 1 – Porto e vila de Cascais numa gravura publicada por Georg Braun
e Frans Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572 (ICGC).

“Costeando dali para o interior, na direcção do norte, depara-se com a fortaleza de Cascais, onde os navios de carga, ancorados em porto amplo e abrigado, esperam a maré e a monção”.

Damião de Góis, Descrição da cidade de Lisboa, 1554.

 

Situando-se a uma distância de apenas 5 léguas da cidade de Lisboa, e tendo o último porto marítimo antes da entrada na barra do Tejo, desde sempre que Cascais esteve na rota das navegações com destino àquele centro urbano[1]. Acresce que esta área apresenta condicionantes geográficas muito específicas que dificultavam seriamente a navegação e a entrada naval no Tejo – que não era feita a tempo inteiro –, factores que faziam com que o porto local acolhesse todo o movimento marítimo com destino à capital portuguesa, sendo a última escala de apoio[2], tal como abrigava e abastecia embarcações em trânsito entre o Mediterrâneo e o Norte da Europa. Assim, o espaço portuário cascalense, ganhando forma numa baía voltada a Sul e com uma larga extensão de ancoragem, era como que um anteporto de Lisboa, sendo ainda caracterizado por ter os pilotos conhecedores das particularidades da navegação neste trecho costeiro e cujo auxílio era fundamental para se tentar evitar possíveis naufrágios nos perigosos canais da barra[3].

Fig. 1
Fig. 2 – Enquadramento geográfico da área observada. Fonte: Jorge Freire, À vista da costa: a paisagem cultural marítima de Cascais, Universidade Nova de Lisboa, 2012, p. 22.

“Porto”[4], marítimo ou fluvial, de origem natural ou resultado da acção humana, é um termo que acarreta uma multiplicidade de significados como, por exemplo, ancoradouro, local de abrigo e de escala de navios, de apoio logístico, de carga e descarga de mercadorias, etc.[5]. Neste sentido, existem portos com funções de apoio à navegação, comerciais, pesqueiras e militares, sendo que muitos englobam todas estas características e ainda outras, permitindo variadas possibilidades de análise ao investigador[6]. Face ao exposto, os portos são autênticos locais de novidade e de troca de ideias, entrepostos económicos, pontos estratégicos que importa organizar, proteger e controlar[7]. Para além disso, e como espaços sujeitos a transformações de ordem geomorfológica e antrópica, os portos são locais em constante transformação natural e tecnológica que se impõe compreender.

Seria lícito pensar na existência de um cais de atracagem em Cascais que facilitasse a entrada e a saída de pessoas, bem como a carga e a descarga de mercadorias e de animais dos navios, mas a verdade é que as fontes históricas e a arqueologia nada revelaram sobre isso. De facto, são inúmeras as descrições que aludem a Cascais como ancoradouro ou fundeadouro[8], mas nunca mostram a existência de estruturas de atracagem no seu porto. As próprias plantas desta vila de finais do século XVI[9], que permitem corrigir e superar omissões na célebre gravura de Georg Braun e Franz Hogenberg (1572), cujo arquétipo poderá remontar a finais do século XV ou a inícios do seguinte[10], não indicam qualquer estrutura junto à praia da Ribeira, que era o foco portuário.

A ausência de referências a tais estruturas – em pedra ou até mesmo em madeira – poderia parecer estranha, uma vez que Cascais era, não só, um porto de abrigo, pesqueiro, comercial e militar, mas também porque acolhia todo o movimento marítimo destinado a Lisboa – incluindo a carreira da Índia[11] –, tornando-o bastante activo no apoio aos navios em trânsito, pelo que seria de pensar que necessitasse de estruturas desse tipo tal como surgiram noutros portos reinóis. No entanto, tal como veremos adiante, essa condição não era uma regra, uma obrigatoriedade nem um factor decisivo para se definir um sítio enquanto espaço portuário.

Embora fosse de considerar que nos séculos XV-XVI, face ao crescimento do tráfego comercial e a outras necessidades resultantes do envolvimento de Portugal na empresa expansionista, os monarcas tivessem sido obrigados a adoptar uma política de desenvolvimento portuário que contemplasse a melhoraria dos acessos aos portos – tanto marítimos como fluviais –, a construção ou melhoramento das infra-estruturas de apoio à navegação, a substituição das que se tornavam rudimentares, etc.[12], a verdade é que durante este período, pelo menos no que diz respeito ao Noroeste português entre Caminha e Aveiro, este processo não foi tão rápido como seria de supor[13]. Acresce que a maioria dos trabalhos técnicos efectuados nos portos dessa área geográfica foram financiados e executados pelas autoridades locais.

Para o caso de Cascais, não se conhece qualquer iniciativa régia que indique a construção de estruturas materiais de apoio à navegação, nem mesmo de diligências levadas a cabo pelos senhores locais, por pescadores ou pelas confrarias marítimas. O facto de a vila de Cascais ter sido senhoriada por algumas figuras históricas importantes poderia levar a pensar que, para usufruírem desse espaço e poderem tirar um melhor proveito económico, tivessem mandado melhorar as infra-estruturas locais para facilitar a carga e a descarga de mercadorias vindas do hinterland, do umland[14] e do exterior. Sabe-se que D. Álvaro de Castro, senhor de Cascais entre 1440 e 1471, teve alguns navios com importantes ligações marítimas. São conhecidas pelo menos duas naus (Bretoa e Ingresa) de que era proprietário e que foram fretadas para o comércio com o Norte da Europa entre 1441-1443, tal como uma barca que levava mantimentos e soldados para Ceuta na década de 1450[15], bem como uma caravela que chegou a estar envolvida numa viagem de exploração pela costa ocidental africana em 1445[16]. No passado chegou a ser dado como garantido que Cascais havia lucrado muito através das transacções comerciais de D. Álvaro de Castro com Ceuta, mas a verdade é que essas pretensas ligações diriam apenas respeito ao frete dos navios deste fidalgo, que partiam de Lisboa carregados com mercadorias de diversas origens, não havendo ligações mercantis específicas entre os dois locais. No entanto, é possível que o porto cascalense pudesse ter servido de base aos seus navios e de apoio aos negócios, que poderão ter sido mais diversificados e envolvido mais embarcações[17].

Se algumas medidas foram tomadas pelos senhores de Cascais ou pela Coroa, no que respeita a infra-estruturas portuárias ou a qualquer outro tipo de intervenção no território adjacente que visasse melhorar aquele espaço para apoio à navegação e acostagem de navios, a verdade é que as fontes nada referem quanto a isso[18]. Contudo, é preciso ter em conta que os documentos medievais cascalenses e alguns da Idade Moderna terão desaparecido com as invasões inimigas e incêndios, perdendo-se informações que poderiam ajudar a responder a muitas das questões para as quais não temos respostas[19].

Em todo o caso, é sabido que certos locais com funções portuárias nunca estiveram dotados de estruturas materiais como, por exemplo, cais, docas ou rampas de varadouro[20], o que terá sido o caso de Cascais durante largo tempo[21]. Daí que a existência de estruturas para carga e descarga, bem como de pessoal e de instituições dedicadas à prestação de serviços portuários, não sejam factores essenciais para a definição de um porto[22]. Esta é uma ideia que pode gerar alguma confusão e até levar a observações algo anacrónicas, apoiadas na ideia de que um porto tinha obrigatoriamente de ter tal tipo de estruturas de apoio, mas é preciso sublinhar que alguns espaços portuários podiam funcionar apenas como ancoradouros, desembarcadouros e varadouros naturais, sendo o caso de Cascais[23]. Por isso mesmo, quando se trata de estudar e classificar um porto, importa ter sempre em conta a distinção clássica entre um porto natural e um porto artificial[24]. De qualquer forma, não é de excluir que algures durante a Idade Média, ou até mesmo na Antiguidade, no espaço geográfico em estudo, possa ter existido um passadiço, um cais ou outro tipo de estrutura de atracagem, fosse em pedra ou madeira.

Seguindo a perspectiva de ancoradouro/fundeadouro, e para se gerir com maior eficiência o espaço portuário, é possível que em tempos antigos Cascais contasse com algumas poitas submersas fixas a um cabo e a uma bóia flutuante para amarração das cordas dos navios, ou de pedras furadas com função de poitas de fundear, elementos arcaicos e, por vezes, utilizados com continuidade ao longo dos séculos[25]. Se estamos apenas perante uma hipótese, sabe-se, em concreto, que na praia da Ribeira, em meados do século XX, eram usadas estacas presas na areia e ligadas a um cabo que ia até à borda d’água e que se amarrava à proa ou à popa das embarcações dos pescadores. Ao mesmo tempo, havia ainda um cabo preso numa das extremidades das embarcações, estando ligado a uma poita submersa e que não permitia a mobilidade das mesmas. É possível que este sistema, ou algo semelhante, já fosse usado em Cascais desde tempos recuados.

Não estando dotado de um cais ou de qualquer outro tipo de plataforma para carga/descarga, o porto de Cascais teria de ter necessariamente um sistema de vaivém activo e especializado com o serviço de barcas, batéis[26] ou de outras pequenas embarcações – como sugere a gravura de 1572 – que fizessem a ligação com o areal e vice-versa, carregando e desembarcando mercadorias[27], pessoas e animais, se bem que alguns navios também pudessem ser varados na praia da Ribeira e nas seguintes. Aliás, o próprio Vicenzo Casale, na legenda da sua planta de Cascais (1590), refere a praia da Ribeira como local onde “se varão os Barquos” dos pescadores da vila. Acresce que outrora esta praia tinha maior extensão[28], prolongando-se para Norte, porque não era limitada pela muralha que ganhava forma entre dois baluartes e que foi erguida no reinado de D. João IV[29].

Digitalizada por Luis Pavao Lda em Julho 2003 a partir do interpositivo
Fig. 3 – Espaço portuário de Cascais a funcionar como ancoradouro (início do século XX). Serra de Sintra ao fundo e vento a soprar de Sul [PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00546].
Figs. 3.2
Fig. 4 – Embarcação varada na praia da Ribeira para limpeza do casco (década de 1940). Fotografia cedida por Guilherme Cardoso.

Na verdade, a fisionomia desta parte costeira cascalense, com várias praias a Nascente da praia da Ribeira, proporcionava condições para servirem igualmente de varadouro, como aconteceu até muito recentemente[30], se bem que os navios de menores dimensões estivessem melhor capacitados para isso. Seriam, igualmente, as pessoas locais que recorreriam com maior frequência ao varamento de navios na praia. Por fotografias de finais do século XIX até meados do seguinte vemos que eram usadas juntas de bois para puxarem as redes dos pescadores e as embarcações para terra (fig. 5). É muito provável que já fosse assim em Cascais durante Idade Média ou até mesmo antes, visto que estes são procedimentos comuns nas comunidades piscatórias e com séculos de tradição.

Fig. 5
Fig. 5 – Duas juntas de bois puxam um carro com redes de pesca para terra. Praia da Ribeira, 1900 [PT/CMCSC-AHMCSC/AFTG/CAM/A/00858].

A permanência de embarcações nos areais de Cascais podia prolongar-se, sobretudo quando chegava a altura de invernar. Para o caso da praia da Ribeira, existiam mesmo disposições municipais obrigatórias e coimas para quem não procedesse de acordo com a legislação. Conforme revela o tit. 20.º do livro de posturas da Câmara da vila de Cascais, com disposições que vão de 1587 a 1837, as barcas e os barcos locais acabavam por invernar junto à ponte da vila, por baixo da qual corria o rio de Cascais, curso de água actualmente conhecido por ribeira das Vinhas: “Toda a Barqua ou Barquo, que invernar, por nao der pera ir ao mar, ou por algum outro respeito, estarao da parte da fós pera a ponte athe ao junqual com pena de quinhentos reais pera o concelho, e acusador”[31].

Como se procedia em relação aos navios de maior tonelagem? Em condições normais, caravelas, galeões, naus, galés e outros tipos de navios vindos de fora ficariam ancorados em frente à praia da Ribeira ou mais ao largo, muito embora houvessem excepções que poderiam fazer com que alguns fossem varados nessa praia ou noutra das imediações. Isso poderia ocorrer durante temporais, se bem que colocar a salvo nas praias de Cascais uma embarcação maior do que uma caravela latina e transportá-la um pouco mais para o interior talvez fosse uma tarefa algo difícil. Assim, e embora a baía de Cascais seja bastante famosa por oferecer abrigo aos navios que se protegiam da nortada, o mesmo não acontecia quando havia mau tempo de SE, S e SW, pelo que quando se aproximavam temporais com estas orientações as embarcações de menor tonelagem deveriam ser prontamente varadas na praia e levadas mais para o interior do território, enquanto que as restantes provavelmente rumariam a Lisboa, tal como aconteceu até muito recentemente[32]. Os navios que não conseguissem partir a tempo de evitar um temporal ficavam sujeitos à fúria do mar, a um possível naufrágio ou encalhe perigoso, tal como aconteceu em Setembro de 1606 com a nau Salvação, que vinda da Índia acabou por varar nas imediações[33]. O varamento podia acontecer ainda quando se queria limpar o casco dos navios (fig. 4) ou proceder ao seu reparo, sendo que, nestes casos, embarcações de maior porte do que uma caravela até poderiam ser encalhadas à borda-d’água, esperando-se depois novamente pela preia-mar para que pudessem desencalhar. Há que ter em conta ainda acontecimentos fortuitos, como nos casos em que alguns pilotos chegavam a varar navios nas praias para fugirem a perseguições de corsários e piratas. Por outro lado, sabe-se que as praias de Cascais, na década de 1480, estando na rota estratégica de salteadores estrangeiros[34], chegaram a ser usadas para se encalhar navios comerciais apresados e “filhar” as suas mercadorias[35].

Apesar destas potencialidades baseadas nas condições naturais da baía de Cascais, a verdade é que as características geomorfológicas da praia da Ribeira também terão causado problemas e condicionantes ao longo dos séculos. Embora actualmente não existam, tendo sido dinamitados e removidos, no passado dois agrupamentos rochosos – pelo menos – destacavam-se na paisagem local durante a baixa-mar, representando grande perigo para a navegação, nomeadamente quando se caminhava para a vazante e para quem não conhecesse bem aquele espaço[36]. Numa representação da costa de Cascais, atribuída a finais do século XVI, parece mesmo vir representado um desses agrupamentos de rochas[37].

Marco Oliveira Borges | 2017

 

[1] Este artigo de divulgação histórica foi adaptado de um estudo mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “Caracterização e funcionalidade de um porto atlântico em finais da Idade Média: o exemplo de Cascais”, in Adelaide Millán da Costa, Amélia Aguiar Andrade e Catarina Tente (eds.), O papel das pequenas cidades na construção da Europa medieval, Lisboa, Instituto de Estudos Medievais/Câmara Municipal de Castelo de Vide, 2017, pp. 287-315. Disponível para consulta e descarregamento em goo.gl/RV79dL.

[2] Sobre as condicionantes geográficas do estuário do Tejo e da costa de Cascais que faziam do porto local um sítio fulcral no apoio a toda a navegação com destino a Lisboa, cf. António FIALHO e Jorge FREIRE, Cascais na rota dos naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2006 pp. 3-6; Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 61-81, 102-114 e 117-125; Jorge FREIRE, À vista da costa: a paisagem cultural marítima de Cascais. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Universidade Nova de Lisboa, 2012, passim; Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-129; idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana Cunha, Olímpia Pinto e Raquel de Oliveira Martins (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, p. 425.

[3] Face às dificuldades de entrada na barra do Tejo, é provável que no século XV Cascais já prestasse o serviço de pilotos que, mais tarde, viria a assumir enorme relevância no contexto da carreira da Índia, se bem que na centúria quatrocentista ainda não devesse estar institucionalizado (cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais […], pp. 62-67).

[4] Sobre os diferentes significados deste termo, incluindo os que nada têm a ver com a actividade naval, cf. Sebastian de COBARRUVIAS OROZCO, “Pverto”, in Tesoro de la Lengva Castellana, o Española, Madrid, Por Luiz Sanchez, 1611, p. 599; Fr. Joaquim de Santa Rosa de VITERBO, “Porto e portela”, in Elucidario das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram […]. 2.ª ed., rev., correcta e copiosamente addicionada de novos vocábulos […], t. II, Lisboa, Em Casa do Editor A. J. Fernandes Lopes, 1865, p. 156; José Pedro MACHADO, “Porto”, in Dicionário etimológico da língua portuguesa com a mais antiga documentação escrita e conhecida de muitos dos vocábulos estudados, 3.ª ed., vol. IV, Lisboa, Livros Horizonte, 1977, p. 406.

[5] Cf. Maria Luísa BLOT, Os portos na origem dos centros urbanos. Contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, 2003, pp. 54-58, 88, 107, 130, 132, 137 e passim.

[6] Agustín GUIMERÁ RAVINA, “Puertos y ciudades portuarias (Ss. XVI-XVIII): una aproximación metodológica”, in Inês Amorim, Amélia Polónia e Helena Osswald (coords.), O litoral em perspectiva histórica (sécs. XVI-XVIII). Um ponto da situação historiográfica, Porto, Instituto de História Moderna/Centro Leonardo Coimbra, 2002, pp. 287, 290-291 e 298-299. Sobre os 6 diferentes tipos de ancoradouros naturais, cf. Maria Luísa BLOT, op. cit., pp. 47-49. Para uma definição de termos e captação de hierarquias portuárias, cf. Amélia POLÓNIA, “Les petits ports dans le système portuaire européen a l’âge moderne (XVIe-XVIIIe siècles)”, in Revista da Faculdade de Letras. História, III: 9 (2008), pp. 27-51, com especial relevância para o modelo de construção portuária da p. 32.

[7] Amândio Jorge Morais BARROS, Porto. A construção de um espaço marítimo no início dos tempos modernos, Lisboa, Academia de Marinha, 2016, p. 26.

[8] Em finais do século XVIII, por exemplo, referia-se que em frente à povoação cascalense havia um bom fundeadouro desde as 8 às 20 braças, todo limpo com excepção de algumas âncoras perdidas que podiam roçar nos cabos (cf. Vicente Tofiño de SAN MIGUEL, Derrotero de las costas España en el Océano Atlântico, y de las islas Azores ó terceras, para inteligencia y uso de las cartas esféricas […], Madrid, Por la viuda de Ibarra, Hijos y Compañia, 1789, p. 85).

[9] Cf. Guilherme CARDOSO e João Pedro CABRAL, “Apontamentos sobre os vestígios do antigo castelo de Cascais”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 7 (1988), pp. 77-92; Margarida de Magalhães RAMALHO, “As fortificações marítimas do porto e da nobre vila de Cascais”, in Joaquim Manuel Ferreira Boiça, Maria de Fátima Rombouts de Barros e Margarida de Magalhães Ramalho, As fortificações marítimas da costa de Cascais, Cascais, Quetzal, 2001, pp. 39-44.

[10] João J. Alves DIAS, “Cascais e o seu termo na primeira metade do século XVI – aspectos demográficos”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 6 (1987), p. 67; idem, “Lisboa medieval na iconografia do século XVI”, in Ensaios de História Moderna, Lisboa, Editorial Presença, 1988, p. 120. Contrariamente, Nuno José Varela RUBIM, A defesa costeira dos estuários do Tejo e do Sado desde D. João II até 1640, Lisboa, Prefácio, 2011, p. 49, acredita que a imagem, caso tenha sido desenhada pelo pintor flamengo Hoefnagel, isso terá ocorrido entre 1563 e 1567. Por sua vez, Joaquim M. F. BOIÇA, “Cascais no sistema defensivo do porto de Lisboa”, in Monumentos. Cidades. Património. Reabilitação, 31 (2011), p. 30, atribui a gravura “aos anos trinta do século XVI”, enquanto que Rafael MOREIRA, “Leonardo Turriano en Portugal”, in Alicia Cámara, Rafael Moreira y Marino Viganò, Leonardo Turriano, ingeniero del rey, [Madrid], Fundación Juanelo Turriano, 2010, p. 130, refere c. 1550.

[11] Marco Oliveira BORGES, “Aspetos do quotidiano e vivência feminina nos navios da carreira da Índia durante o século XVI: primeiras mulheres, buscas e sexualidade a bordo”, in Revista Portuguesa de História, 47 (2016), p. 199.

[12] Manuel António Fernandes MOREIRA, O porto de Viana do Castelo na época dos Descobrimentos, Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1984, p. 13.

[13] Amélia POLÓNIA e Sara PINTO, “Harbour construction policies and funding agency in Early Modern Portugal (1400-1800)”, in Amélia Polónia y Ana María Rivera Medina, La gobernanza de los puertos atlânticos, siglos XIV-XX. Políticas y estructuras portuárias, Madrid, Casa de Velázquez, 2016, p. 10.

[14] Sobre a aplicação destes conceitos operatórios, cf. Marco Oliveira BORGES, “Hinterland” e “Umland”, in José Vicente Serrão, Márcia Motta e Susana Münch Miranda (dir.), E-Dicionário da terra e do território no Império Português, Lisboa, CEHC-IUL, 2016 [consultado 07.07.2016]. Disponível em: https://edittip.net/category/hinterland/ e https://edittip.net/category/umland/.

[15] Marco Oliveira BORGES, “D. Álvaro de Castro (1.º conde de Monsanto) perante os desafios da expansão portuguesa do século XV”, in Revista de História da Sociedade e da Cultura, 14 (2014), pp. 112-118; idem, “D. Álvaro de Castro (senhor de Cascais) em Ceuta: serviço militar e abastecimento durante as décadas de 1440 e de 1450”, in Ceuta e a Expansão Portuguesa. Actas do XIV Simpósio de História Marítima. 10 a 12 de Novembro de 2015, Lisboa, Academia de Marinha, 2016, pp. 423-426.

[16] Gomes Eanes de AZURARA, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné. Introd., act. de texto e notas de Reis Brasil, [s.l.], Publicações Europa-América, [s.d.], cap. XXXI, p. 110, cap. LXXI, pp. 192-195.

[17] Marco Oliveira BORGES, “D. Álvaro de Castro (1.º conde de Monsanto)”, pp. 113-115; idem, “D. Álvaro de Castro (senhor de Cascais)”, pp. 425 e 427-430.

[18] Na verdade, D. João II até ordenou a construção de uma torre defensiva em Cascais, que, estando dotada de bombardas que disparavam rente à água, impedia a aproximação de piratas e corsários, proporcionando um ancoradouro seguro aos navios que ali chegavam. Contudo, esse aspecto inclui-se no plano defensivo, algo que já foi tratado noutros estudos.

[19] Em 1758, o P.Manuel Marçal da Silveira dizia que “no seculo passado de 1600 houve hu grande incendio nas cazas do Senado, ardeu todo o Archivo, e todos os seus papeis de major parte” (cf. Ferreira de ANDRADE, Cascais – Vila da Corte. Oito séculos de História, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. XVII, doc. 2).

[20] “Os vestígios materiais de tipo portuário, ou seja, construções especializadas tais como cais, docas, rampas de varadouro […], poderão efectivamente nunca ter existido em locais com funções portuárias, na medida em que essas funções se verificavam muitas vezes na total ausência de estruturas, mesmo em épocas muito recentes” (Maria Luísa BLOT, op. cit., pp. 22, 107 e 137). Sobre este assunto, cf. igualmente Jesús Ángel SOLÓRZANO TELECHEA y Javier AÑÍBARRO RODRÍGUEZ, “Infraestructuras e instalaciones portuarias, fluviales e hídricas en las villas del Norte peninsular a finales de la Edad Media: las obras públicas como instrumentos del poder”, in M.ª Isabel del Val Valdivieso y Olatz Villanueva Zubizarreta (coords.), Musulmanes y cristianos frente al agua en las ciudades medievales, Santander, PUblican, Ediciones de la Universidad de Castilla – La Mancha, 2008, pp. 277-280.

[21] A 6 de Setembro de 1877, por intermédio “de um elogioso abaixo-assinado de vários munícipes acerca da actuação dos edis” locais, nomeadamente de Júlio César Pereira de Melo, presidente da Câmara Municipal, revela-se um certo exagero quanto aos melhoramentos de que foi responsável na vila de Cascais. Nesse documento, é referido que, “como remate e coroa de todas as suas obras” realizadas, o presidente estava a trabalhar para realizar alguns melhoramentos que deixariam o “seu nome gloriosamente vinculado aos anais deste município, sendo um deles a construção de um cais” que facilitasse o embarque e desembarque até então “dificílimo” na praia da Ribeira (cf. João Miguel HENRIQUES, História da freguesia de Cascais: 1870 – 1908 (Uma proposta de estudo), Lisboa, Edições Colibri/Câmara Municipal de Cascais, 2004, pp. 148-149).

[22] Cf. Amélia POLÓNIA, “Portos”, in Francisco Contente Domingues (dir.), Dicionário da Expansão Portuguesa. 1415-1600, vol. II, Lisboa, Círculo de Leitores, 2016, p. 873.

[23] Cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais […], p. 47.

[24] Sebastian de COBARRUVIAS OROZCO, op. cit., p. 599; Amélia POLÓNIA, op. cit., p. 873.

[25] Maria Luísa BLOT, op. cit., p. 137.

[26] Tal como acontecia, por exemplo, em vários portos medievais das Astúrias (cf. Jesús Ángel SOLÓRZANO TELECHEA y Javier AÑÍBARRO RODRÍGUEZ, op. cit., pp. 279-280).

[27] Em 1452, por exemplo, 4 galés venezianas ancoraram em Cascais quando se dirigiam para a Flandres. Ali mesmo, foi ordenado um abastecimento para ser dividido pelos quatro navios: 2.000 pães, 16 vacas, 40 carneiros, 75 balas de fruta (constituídas por 8 gigas grandes), 400 quintais de biscoito e c. 7.200 litros de vinho (cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais […], pp. 106-108).

[28] De acordo com Guilherme Cardoso, toda a baixa de Cascais está assente em areia, sendo que o mar ali chegou até perto do século XIV (Natália VALE, “Guilherme Cardoso fala da sondagem arqueológica no antigo edifício das Finanças”, in Jornal da Costa do Sol, 1015 (1987), p. 9).

[29] Após a edificação desta muralha, já existente em 1645, a circulação de pessoas, mercadorias e de embarcações entre o porto e o interior do território fazia-se através de dois arcos abertos nessa estrutura (cf. João da Cruz VIEGAS, O comércio quinhentista na vila e no porto de Cascais, Cascais, Museu Biblioteca do Conde Castro de Guimarães, 1940, p. 13; D. Manuel de CASTELLO BRANCO, Embarcações e artes de pesca, Lisboa, Lisnave, 1981, pp. 17-21).

[30] Esta foi, na verdade, uma característica de marca na vida piscatória de Cascais até muito recentemente. Por fotografias de finais do século XIX até meados do século XX vemos que os barcos dos pescadores continuavam a ser varados na praia, bem como que eram levados vila adentro para reparo ou para aí se manterem durante o período de invernada (cf., por exemplo, D. Manuel de CASTELLO BRANCO, op. cit., pp. 13 e 16).

[31] AHMC/AADL/CMC/B-A/005/001-cx.1. O tit. 205.º volta a aludir a esta questão. Segundo indicação do P.e António de Beja, a ponte de Cascais havia ruído com as cheias de 23 de Janeiro de 1518 (cf. Visconde de JUROMENHA, Sintra pinturesca, ou memória descritiva da vila de Sintra, Colares e seus arredores, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 1989-1990, p. 123). Assim, a ponte que o livro de posturas refere teria sido a que lhe substituiu, ainda que o terramoto de 1531 e o consequente tsunami devam ter causado estragos. João da Cruz Viegas supõe que o juncal que o dito documento refere “seria aquém da ponte, visto que os três arcos da ponte e as pedras altas do «passadouro» deviam dificultar ou impedir a passagem de barcos grandes” (João da Cruz VIEGAS, op. cit., p. 46). Esta já era uma referência à ponte de pedra seiscentista.

[32] D. Manuel de CASTELLO BRANCO, op. cit., pp. 14-16.

[33] Relação das náos e armadas da India com os successos dellas que se puderam saber, para noticia e instrucção dos curiozos, e amantes da história da India. Leit. e anot. de Maria Hermínia Maldonado, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1985, pp. 111 e 113.

[34] Marco Oliveira BORGES, “Corsários no litoral português”, in Visão História, 37 (2016), pp. 74-75.

[35] Idem, O porto de Cascais […], pp. 171-174 e 203-204.

[36] O agrupamento rochoso existente mais a Sul, conhecido entre os locais por “Laje” e que chegou a provocar acidentes e o afundamento de embarcações, viria a ser dinamitado e removido para garantir a segurança no acesso ao Clube Naval de Cascais durante os preparativos para o Campeonato do Mundo de Vela de 2007.

[37] Pub. por Margarida Magalhães RAMALHO, Fortificações marítimas, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2010, p. 15.

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Uma visita a Sines: o colóquio, a terra, o museu e o mar

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Entre os dias 7 e 9 de Setembro de 2017 teve lugar, no centro de Artes de Sines, o colóquio “Sines, o Porto e o Mar. História e Património” (http://sines.pt/pages/1094). O evento contou com a presença de vários investigadores portugueses e estrangeiros, tendo sido debatido o papel do porto de Sines na história, mas também temas relacionados com as rotas marítimas, com o comércio intercontinental, com a escravatura e o património portuário português. No final do segundo dia de trabalhos foram apresentadas duas obras sobre a história siniense:   Sines na Idade Média. Da fundação do concelho ao foral manuelino, da autoria de Maria Alegria Fernandes Marques, e Sines, a terra e o mar, elaborada em co-autoria por Paula Pereira e Sandra Patrício.

No dia 9, depois de um almoço em São Torpes, teve lugar uma visita guiada ao Museu de Sines. Situado dentro das muralhas do castelo local, ali alguns dos participantes do colóquio puderam observar variadas preciosidades do património cultural siniense. Antes da visita ao museu já tínhamos observado as obras que estão a ser realizadas para musealização de algumas das cetárias romanas que se encontram junto ao castelo de Sines, sendo este um exemplo que deveria ser seguido em outras áreas geográficas. Para quem queira visitar Sines ou que tenha interesse nas comunicações proferidas no colóquio, aqui ficam algumas imagens do evento, da terra e do espólio arqueológico que poderão encontrar no museu.

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Praia Vasco da Gama.
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Castelo de Sines. À esquerda, a estátua de Vasco da Gama, natural de Sines e descobridor do caminho marítimo para a Índia.
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Pormenor do castelo.
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Vasco da Gama (1469-1524).
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Comunicação de Paula Alves Pereira e Sónia Ferro, “A Necrópole S. Salvador, Sines: dados bioarqueológicos”.
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Comunicação de Sónia Bombico, “O porto de Sines em Época Romana: um enclave costeiro na fachada atlântica da Lusitânia”.
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Comunicação de Augusto Salgado, “A guerra submarina na costa alentejana e algarvia durante a Grande Guerra”.
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Obras em andamento para musealização de algumas das cetárias romanas que se encontram junto ao castelo de Sines.
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Ânforas romanas (Museu de Sines).
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Púcaro, jarrinha e urna funerária de incineração.
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Lucerna romana com representação de Hélio ou Mitra. Baixo Império.
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Capitel e base de coluna romana.
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Cepos de âncora romanos.
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Figura em terracota de cronologia e origem incerta.  Poderá ser proveniente do Egipto Fatimida (séculos XI-XII) ou do Próximo Oriente Seljucida.
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Ilha do Pessegueiro.
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Ruínas da fortificação da ilha do Pessegueiro.
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São Torpes.

Marco Oliveira Borges | 2017

 

A Vigia do Facho: posto de vigilância marítima e de alerta

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Pormenor da Vigia do Facho.

Em séculos passados existiram inúmeros postos de vigilância e de alerta dispersos ao longo da costa portuguesa, tendo sido edificados em locais conspícuos e estratégicos[1]. Revelados pelo estudo da microtoponímia, pelas fontes históricas ou pelos trabalhos arqueológicos, eram conhecidos por atalaias[2], almenaras, fachos, visos ou velas, comunicando entre si através de sinos, fogos, fumos e de outros sinais. Integrando sistemas de defesa costeira que visavam identificar a aproximação de eventuais navios de corsários e de piratas, entravam em actividade sobretudo durante o Verão. Contudo, em tempo de guerra ou de constante assédio marítimo exercido por corsários, chegava a ser ordenado pelos monarcas que a vigilância fosse feita durante o ano inteiro, algo que chegou a acontecer, por exemplo, a partir de 1615. Outros espaços territoriais fora das áreas marítimas também estiveram dotados destas estruturas, sendo que o seu estudo, de uma forma geral, é fundamental para compreender as redes de povoamento em séculos passados.

Edificada num cabeço situado acima da Boca do Inferno, dominando largamente a vista oceânica, sobretudo para Sul, permitindo vislumbrar a serra da Arrábida, o cabo Espichel, a entrada da barra do Tejo mas também os navios que vinham das bandas do cabo Raso, a Vigia do Facho é o único posto antigo de observação marítima que subsistiu na costa ocidental de Cascais. Sabe-se que mais duas edificações deste género existiram no espaço costeiro que se estende daí até ao cabo da Roca[3], havendo ainda a possibilidade de ter existido um posto de vigia ou de apoio à navegação no Espigão das Ruivas (Sintra), sítio arqueológico ladeado pelo porto do Touro (Cascais), se bem que este seja um assunto ainda por compreender[4]. Em todo o caso, à semelhança da Vigia do Facho, é muito provável que outros postos de vigilância devam ter existido em tempos recuados, marcando a paisagem cultural marítima de Cascais, inclusive durante o Período Islâmico, podendo os vestígios das ruínas de antigas estruturas estar tapados pelas areias e pela vegetação[5]. Aliás, para o caso da costa oriental de Cascais é conhecida a vigia da Parede, tendo funcionado pelo menos em séculos mais recentes. De qualquer forma, é possível que um dia a arqueologia venha a revelar novos dados sobre estas edificações de vigilância, tal como aconteceu recentemente no caso de Sintra, tendo sido identificada uma vigia no sítio conhecido por Alto da Vigia[6].

Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa -1842, 1843, 1845
Sinalização da Vigia do Facho. Plano hydrographico desde
Cabo da Roca até Cezimbra […], 1882 (BNP).

De planta quadrangular, com um único compartimento, abobadado, que serviria para alojamento e armazém, a Vigia do Facho é uma torre que se encontra bem preservada, situação para a qual contribuíram reconstruções que se deram ao longo do tempo[7]. O facto de estar dentro de uma propriedade privada, estando assim protegida de acções antrópicas e de actos de vandalismo, também ajudou a preservar a edificação. Refira-se, ainda, que a mesma está dotada de uma escada exterior, em pedra, que permite o acesso a um pequeno terraço lajeado de onde o vigia de serviço observava o horizonte[8]. Na parede do lado poente foi colocado um suporte para o sino de alarme, permitindo alertar as proximidades assim que se avistassem navios inimigos ou suspeitos.

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Outro pormenor da Vigia do Facho.
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Vigia do Facho vista das imediações da Boca do Inferno.

Não é possível determinar a época de fundação da Vigia do Facho, sendo que o primeiro registo documental que atesta a sua existência data de 1805, ano em que tinha ao seu serviço um cabo e um soldado[9]. No entanto, não é de excluir a hipótese de ter existido nesse mesmo local, ou nas imediações, uma outra construção mais antiga e da qual não subsistiram vestígios[10]. Pela posição estratégica do sítio, não é nada de admirar que a estrutura primitiva remontasse a épocas muito mais recuadas, tendo sofrido recuperações ao longo do tempo, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, em diversos casos da costa algarvia em que se ocuparam locais estratégicos e em que edificações foram sendo reutilizadas e readaptadas em larga diacronia[11]. À falta de documentos, somente futuros trabalhos arqueológicos em redor da Vigia do Facho poderiam ajudar a determinar a possível época da sua construção.

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Vigia do Facho vista de Poente.

Marco Oliveira Borges | 2017

[1] Este pequeno artigo de divulgação histórica, embora com ligeiras modificações e acrescentos, foi adaptado de um estudo mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “Aspectos de militarização e defesa costeira no Garb al-Ândalus: o caso de Cascais”, in Revista Universitaria de Historia Militar, 6: 11 (2017), pp. 172-196. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/33551518/Aspectos_de_militariza%C3%A7%C3%A3o_e_defesa_costeira_no_Garb_al-%C3%82ndalus_o_caso_de_Cascais_2017_.

[2] As atalaias podiam ser estruturas arquitectónicas (normalmente turriformes) em pedra ou madeira, ou simples locais destacados na paisagem de onde se exercia a vigilância e alertava para a chegada de inimigos (cf. Mário BARROCA, “Atalaia”, in Jorge de ALARCÃO e Mário BARROCA (coord.), Dicionário de Arqueologia Portuguesa, Porto, Figueirinhas, 2012, pp. 48-49).

[3] As outras duas estavam, uma junto ao cabo da Roca, a outra na elevação dos Oitavos (cf. Joaquim Manuel Ferreira BOIÇA e Maria de Fátima Rombouts de BARROS, “As fortificações marítimas a Ocidente de Cascais”, in Joaquim Manuel Ferreira BOIÇA, Maria de Fátima Rombouts de BARROS e Margarida de Magalhães RAMALHO, As fortificações marítimas da costa de Cascais, Lisboa, Quetzal, 2001, p. 162).

[4] Para uma problematização deste assunto e indicação de bibliografia, cf. Marco Oliveira BORGES, “A importância do porto do Touro e do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Cascais) entre a Idade do Ferro e a Idade Moderna”, in História. Revista da FLUP, IV: 6 (2016), pp. 161-182; idem, “O porto do Touro (Cascais) e o sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Sintra) entre a Antiguidade e a Idade Moderna”, in Sintra e Cascais. Mar, Terra, História, 2017, https://sintraecascais.wordpress.com/2017/01/13/o-porto-do-touro-cascais-e-o-sitio-arqueologico-do-espigao-das-ruivas-sintra-entre-a-antiguidade-e-a-idade-moderna/, consultada em 18/06/2017; idem, “Aspectos de militarização e defesa costeira no Garb al-Ândalus […]”, pp. 181-182; idem, “A importância estratégica do conhecimento do território na formação de um sistema defensivo: o caso de Sintra (Portugal) durante o Período Islâmico”, in Anuario de Historia Regional y de las Fronteras, 22: 2 (2017), p. 38; idem, “Paisagem cultural marítima de Sintra: uma abordagem histórico-arqueológica”, in Actas do I Colóquio Ibérico de Paisagem. O estudo e a construção da Paisagem como problema metodológico (no prelo).

[5] Idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, in História. Revista da FLUP, IV: 2 (2012), pp. 114 (n. 27) e 127; idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, p. 415.

[6] Até recentemente foi interpretada pelos arqueólogos como sendo a torre de um facho. No entanto, actualmente é vista apenas como um antigo posto de vigia e de abrigo permanente, sendo uma edificação mais simples (cf. Patrícia JORDÃO, Pedro MENDES e Alexandre GONÇALVES, Alto da Vigia (Colares, Sintra). Relatório dos Trabalhos Arqueológicos [de 2008], 2009, p. 3; Alexandre Marques GONÇALVES, Alto da Vigia (Colares, Sintra). Relatório dos trabalhos arqueológicos de 2013, 2014, pp. 11-12; idem, Escavação arqueológica do Alto da Vigia (Colares-Sintra): relatório da intervenção realizada em 2015, 2016, p. 10; José Cardim RIBEIRO, “Ad Antiquitates Vestigandas. Destinos e itinerários antiquaristas nos campos olisiponenses ocidentais desde inícios a meados do século XVI”, in Gerard González Germain (coord.), Peregrinationes ad inscriptiones colligendas. Estudios sobre epigrafía de tradición manuscrita, Bellaterra, Universitat Autònoma de Barcelona, 2016, p. 140, n. 4 e 5; Marco Oliveira BORGES, “A importância estratégica do conhecimento do território na formação de um sistema defensivo […]”, p. 27).

[7] Carlos CALLIXTO, Fortificações da praça de Cascais a Ocidente da vila, Lisboa, 1980, p. 154.

[8] Idem, ibidem, p. 154; Joaquim Manuel Ferreira BOIÇA e Maria de Fátima Rombouts de BARROS, op. cit., p. 162.

[9] Carlos CALLIXTO, op. cit., p. 154; Joaquim Manuel Ferreira BOIÇA e Maria de Fátima Rombouts de BARROS, op. cit., p. 162.

[10] Idem, ibidem, p. 162.

[11] Cf. Helena CATARINO, “Fortificações do Período Islâmico e a defesa marítima e fluvial no Algarve Oriental”, in Maria Graça A. Mateus VENTURA (coord.), O Mediterrâneo Ocidental. Identidades e fronteira, Lisboa, Edições Colibri, 2002, pp. 119-141.

Dois naufrágios à saída da barra do Tejo durante a partida para Ceuta (1415)

1756
Pormenor da entrada da barra do Tejo (M. Bellin, Plan du
port de Lisbonne et des costes voisines, 1756).

A 25 e 26 de Julho de 1415 partiram do Restelo os contingentes militares portugueses (e alguns estrangeiros) que viriam a conquistar Ceuta. No segundo dia referido, durante a largada da barra do Tejo, duas naus chocaram, sendo que uma delas acabou por naufragar e conduzir à morte por afogamento perto de 25 homens. Por essa altura, ao que parece estando envolvida no mesmo incidente, outra embarcação começou a meter água, acabando por morrer 9 homens de armas. Foi Rui Dias de Vega, servidor e espião do rei Fernando I de Aragão, quem deu a conhecer os pormenores da partida e dos acidentes:

       “[…] por la mañana, que fue dia de Santiago, desfaldraron las velas et salieron mas de la meytad dellas fuera, a la mar, en la costa cabe Cascales, que son cinco leguas de la çibdat. Et otro dia seguiente, viernes, XXVJ dias del dicho mes, salieron las otras que aujan quedado […] una nao después que desfaldro no fizo por el governario et dio por otra nao Et, del golpe que djo, abriose toda et perdiose et afogaronse vnos XXV omes […] Et eso mesmo vn batel que se anego et se perdieron en el nueve omes de armas”[1].

Gomes Eanes de Zurara, cronista incumbido de relatar os primeiros feitos da Expansão Marítima Portuguesa, não refere a saída separada da frota nem se atreve a avançar com o possível número de navios que faziam parte da mesma[2]. O cronista apenas passa a mensagem de uma partida gloriosa, sob olhar atento dos habitantes de Lisboa, que, por todos os lugares da cidade, assistiam a “coisa tão formosa de ver que aqueles que a viam não podiam imaginar que houvesse prazer maior”[3]. Contudo, sabemos que a partida do Restelo ocorreu em dois momentos distintos e que tiveram lugar pelo menos dois naufrágios. Pretendendo narrar os feitos gloriosos alcançados naquela expedição, seria de prever que os naufrágios pudessem ser omitidos nas descrições de Zurara[4].  O Espião aragonês refere mesmo que, depois da ocorrência dos acidentes, “mando luego pregonar elrrey que neguno non le dexiese en la çibdat, so pena de la su merçed et de los cuerpos”[5].

Ao que tudo indica, estes dois naufrágios são dos mais antigos que se conhecem para a barra do Tejo, área que apresenta diversos problemas à navegação e que tem sido apelidada de cemitério de naufrágios[6].

Marco Oliveira Borges | 2017

[1] Monumenta Henricina, vol. II – (1411-1421), pp. 166-167, doc. 71. O relatório da preparação da frota de Ceuta pode ser lido nas pp. 132-146.

[2] “Outros queriam esforçar-se por saber o número (de barcos) da frota, embora os seus esforços valessem pouco” (Gomes Eanes de ZURARA, Crónica da tomada de Ceuta. Pref. e actual. de textos de Carlos Miranda, Lisboa, Editorial Escol, [s.d.], cap. LI, pp. 110-111).

[3] Idem, ibidem, cap. LI, pp. 110-111.

[4] Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 129-130.

[5] Monumenta Henricina, vol. II, pp. 166-167, doc. 71.

[6] Sobre os naufrágios nesta área geográfica e costa de Cascais, cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na Rota dos Naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal, 2006; Jorge FREIRE, À vista da costa: a paisagem cultural marítima de Cascais. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Universidade de Lisboa, 2012.

Controvérsias e falsos factos históricos sobre a torre que D. João II mandou construir em Cascais (c. 1494)

Fig. 1
Fig. 1 – Pormenor da torre de Cascais presente na gravura publicada por Georg Braun e Franz Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572 (ICGC).

“A Torre de Cascais existiu, e existe ainda, integrada no Revelim”

M. A. Pereira Lourenço, 1965[1].

Por mais que os trabalhos de investigação que se vão publicando tragam novidades e permitam dissipar certos mitos e erros historiográficos, o nosso património cultural, por vezes, continua envolto em falsos factos históricos. No que diz respeito à história de Cascais, um dos casos mais controversos envolve a torre que D. João II mandou construir nesta vila[2]. Por outras palavras, a polémica está relacionada com o que se tem vindo a escrever sobre esta fortificação e a omitir nas últimas décadas. Decidimos elaborar este artigo de esclarecimento, de reflexão e divulgação depois de constatarmos, mais uma vez, desta feita na placa informativa recentemente colocada junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz (fig. 10), que se continuam a ignorar os recentes avanços da investigação e a divulgar falsos factos históricos perante um destinatário muito específico: o grande público.

Com possível invocação a Santo António[3], a referida torre foi edificada num esporão rochoso no extremo Sul da vila de Cascais, o qual tem vindo a ser erroneamente identificado como sendo a Ponta do Salmodo. No entanto, este último ponto geográfico, conforme comprova diversa cartografia dos séculos XIX-XX (fig. 2), corresponde a outro lugar, ao sítio onde se encontra edificado o farol de Santa Marta[4].

Fig. 2
Fig. 2 – Pormenor da costa de Cascais. Plano hydrographico desde
Cabo da Roca até Cezimbra […], 1882 (BNP).

Em 1873, na sua obra pioneira sobre Cascais, Borges Barruncho referia a existência, “no antigo revelim da fortaleza”, de “umas armas do reino”. Tendo sido picadas pela acção das forças francesas, aquando da invasão de Portugal, nessas armas podia-se ler, ainda que com alguma dificuldade, D. João II[5]. Neste sentido, o autor deduziu que ali teria existido uma antiga fortificação joanina. Contudo, por essa altura, desconhecia exactamente do que se tratava, parecendo não conhecer qualquer alusão documental à torre de Cascais, algo que não escaparia à historiografia posterior[6]. Em todo o caso, teria Borges Barruncho visto as armas do tempo de D. João II ou as da época de D. João IIII (IV) que se encontram presentes no espaço da Cidadela junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz e que também se encontram picadas? Poderá ter havido uma imprecisão do autor, mas também poderá ser que, de facto, a inscrição fosse mesmo alusiva a D. João II. Neste cenário, teria desaparecido algures posteriormente a 1873, tendo sido deslocada juntamente com a pedra onde estavam gravadas as armas do Reino, destruída ou tapada durante algum tipo de obra.

Apesar das dúvidas que se tinham quanto à torre de Cascais, se tinha ou não sido destruída com a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Luz, na década de 1960 Manuel A. P. Lourenço deu a conhecer ao público que esta estrutura estava integrada no interior da dita fortaleza, a qual o investigador designava por “revelim”. Não obstante as importantes indagações de Borges Barruncho, Manuel A. P. Lourenço foi o primeiro investigador que se dedicou ao estudo pormenorizado destas estruturas, chegando mesmo a explorar o interior da fortaleza de forma detalhada[7], se bem que não na sua totalidade. Na verdade, desde 1940 que Manuel A. P. Lourenço frequentava com relativa assiduidade a velha fortaleza[8], ainda que só mais tardiamente é que tenha percebido que a torre estava envolvida por essa fortificação, chegando a afirmar, em 1955, que a sua localização era desconhecida, pensando ter sido construída mais para Norte. Embora desde 1965 – pelo menos – que se tivesse conhecimento público da subsistência da torre de Cascais no interior da fortaleza de Nossa Senhora da Luz, apenas em 1987 foram iniciadas escavações no seu interior[9].

Fig. 3
Fig. 3 – Planta da fortaleza de Nossa Senhora da Luz. Note-se
a presença da torre de Cascais (Manuel A. P. Lourenço, 1965).

Ainda no que diz respeito às investigações de Manuel A. P. Lourenço, o autor chegou mesmo a elaborar plantas envolvendo as duas fortificações, explicando igualmente em texto corrido os pormenores que conseguiu observar. Assim, identificou a torre joanina como estando dentro da fortaleza, compartimentos da fortaleza devolutos e de acesso emparedado, uma área não visitável e cuja compartimentação, na altura, era desconhecida, compartimentos com grandes quantidades de entulho, a cisterna da fortaleza (debaixo do pavimento do pátio interior)[10], tendo ainda identificado duas mós, um forno e outros elementos e aspectos (figs. 3 e 4). Outro dado importante que deve ser salientado deve-se ao facto de, já em 1966, Manuel A. P. Lourenço ter pensado que, em vez de espaços mortos e fechados ao público, aqueles compartimentos poderiam “ser adaptados como atracção turística”. Neste sentido, Manuel A. P. Lourenço foi o primeiro autor a sugerir publicamente a ideia de futura musealização daquele espaço[11].

Fig. 4
Fig. 4 – Planta da fortaleza de Nossa Senhora da Luz envolvendo
a torre de Cascais (Manuel A. P. Lourenço, 1966).
Fig. 5
Fig. 5 – Vista aérea da fortaleza de Nossa Senhora da Luz.
A vermelho assinala-se uma parte da estrutura da antiga torre.

A partir de finais da década de 1980 e até aos nossos dias, com o desenrolar das investigações de Margarida de Magalhães Ramalho e das equipas que trabalharam nas escavações arqueológicas[12], avançou-se bastante no conhecimento sobre a dita torre e fortaleza. Para além disso, a partir de 1990 começaram a ganhar forma ideias no que diz respeito à preparação da musealização da fortaleza[13]. Muito recentemente, no âmbito das comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila, deu-se mesmo a abertura oficial da fortaleza e da torre ao público. Anteriormente, em Dezembro de 2012, havia passado na RTP2 um documentário sobre estas duas fortificações[14].

Em relação à ideia de musealização daquele espaço, já tínhamos visto que, na década de 1960, Manuel A. P. Lourenço havia sugerido isso mesmo, embora os contributos e o nome do investigador tenham sido incompreensivelmente “esquecidos” com o decorrer do tempo. Quantas vezes foram citados os seus estudos de 1965-1966 entre a década de 1980 e 2017? É verdade que, no passado, autores como Raquel Henriques da Silva, Joaquim Boiça e Pedro de Aboim Inglez Cid assinalaram que Manuel A. P. Lourenço havia descoberto que a torre ainda estava de pé, mas esse facto não teve o devido impacto no âmbito do estudo das fortificações em análise. Muito pelo contrário. Basta ler os estudos de Margarida de Magalhães Ramalho para se chegar a tal conclusão, ainda que a autora tenha chegado a referir, de forma muito sumária, que Manuel A. P. Lourenço havia entrado nos baluartes Norte e Sul da fortaleza de Nossa Senhora da Luz (1991) e identificado o alçado Norte e parte do alçado Sul da torre (1989).

Nem mesmo no referido documentário existe qualquer menção aos trabalhos de Manuel A. P. Lourenço, isto quando o mesmo havia explorado compartimentos interiores da fortaleza de Nossa Senhora da Luz e compreendido – duas décadas antes do início das investigações de Margarida de Magalhães Ramalho – que a torre de Cascais estava no seu interior. Sendo um documentário onde são omitidas as investigações de Manuel A. P. Lourenço e os pormenores que teve oportunidade de observar e indicar[15], as atenções acabam por girar em torno de Margarida de Magalhães Ramalho, passando a ideia de que descobriu o sítio e de que foi pioneira no seu estudo. Apesar do desconhecimento geral sobre a verdadeira profundidade deste assunto e, por outro lado, de alguma resistência a nível local, é evidente que não se pode continuar a atribuir a descoberta da torre e o pioneirismo do estudo destas fortificações a Margarida de Magalhães Ramalho.

Pouco tempo depois do documentário ter sido exibido na RTP2, o qual rapidamente começou a ser comentado em diferentes grupos da rede social Facebook relacionados com Cascais, Guilherme Cardoso publicou um post no grupo O Pessoal da Linha Vem à Rede a alertar para o facto de que o interior daquela fortaleza já era conhecido antes da década de 1980 e que haviam sido publicados estudos por Manuel A. P. Lourenço. Aliás, nesse post estavam incluídas as plantas da fortaleza de Nossa Senhora da Luz presentes nos artigos daquele investigador local. Grande conhecedor do património histórico-arqueológico cascalense, Guilherme Cardoso, em 1965, teve mesmo a oportunidade de visitar o interior daquela fortaleza juntamente com seu pai, este último enquanto repórter fotográfico do Jornal da Costa do Sol. M. A. Pereira Lourenço foi o investigador local que guiou a visita[16].

Por tudo isto, e por outros aspectos que veremos mais adiante, urgia uma revisão de conhecimento sobre muito do que tinha vindo a ser dito nas últimas décadas acerca das referidas fortificações. Assim, sobretudo num artigo publicado em 2015, sujeito a avaliação científica por pares, tivemos a oportunidade de alertar para as diversas questões controversas relacionadas com a torre de Cascais e o seu estudo. Depois da nossa chamada de atenção nesse artigo, de termos começado a divulgar os estudos de Manuel A. P. Lourenço através da página Cascais durante a Idade Média[17], bem como de uma conversa com Margarida de Magalhães Ramalho, a autora teve a oportunidade de dar um primeiro passo no sentido de rectificar este assunto perante o público. A ocorrência teve lugar durante uma comunicação apresentada no Centro Cultural de Cascais, no âmbito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, especialmente dedicado à fortaleza de Nossa Senhora da Luz (23 de Abril de 2016).

No final das comunicações da parte da manhã, já durante a sessão de perguntas e respostas, tivemos a oportunidade de intervir fazendo algumas observações. Uma delas dizia respeito ao facto de que no painel cronológico presente na fortaleza de Nossa Senhora da Luz, e em que estão escritos vários momentos da história das duas fortificações e da sua investigação, não havia uma única alusão a Manuel A. P. Lourenço (fig. 7). Sendo esta uma grave lacuna, que omite ao público visitante a verdadeira cronologia inicial da história da investigação dessas estruturas, era de prever que esse aspecto – para não falar de outros – fosse rectificado nos tempos seguintes. Porém, em Julho de 2016, com uma nova abertura da fortaleza ao público, constatámos que o painel se mantinha na mesma, não havendo qualquer rectificação produzida por parte do núcleo de Património Cultural da Câmara Municipal de Cascais.

Fig. 6
Fig. 6 – Painel cronológico presente na fortaleza de Nossa Senhora da Luz.
Fig. 7
Fig. 7 – Idem.

Esclarecido este primeiro aspecto relacionado com a primazia do estudo da torre de Cascais e da fortaleza, passemos a outros igualmente controversos. Muito embora se saiba que esta torre foi construída algures no reinado de D. João II, não existe qualquer documento que revele que a edificação teve início em 1488[18], data que teimosamente tem figurado em livros, exposições, etc., quando se alude a esta estrutura tardo-medieval. Esta imprecisão resulta de uma confusão e leitura abusiva das informações fornecidas por Rui de Pina e Garcia de Resende. Para elucidar os leitores, eis os trechos que têm sido mal interpretados:

         “Estando el Rey [D. João II] em muyta paz, e amizade com os Reys de Castella, como muyto prudente Principe fazia sempre, e ordenaua suas cousas antes de auer necessidade dellas. E no começo do anno de mil e quatrocentos e oitenta e oito, com muyto cuidado, e diligencia mandou prouer, fortalecer, e repartir todalas Cidades, Villas, e Castellos dos estremos de seus Reynos, assi no repairo, e defensam dos baluartes, cauas, muros, e torres, como em artilharias, poluora, salitre, armas, almazens, e todallas outras cousas necessarias”[19].

Como se pode ver, não existe qualquer referência para a construção da torre de Cascais ocorrer em 1488, apesar da ideia do monarca poder ter sido coeva. É num trecho de Garcia de Resende (Crónica de D. João II e Miscelânea), que corresponderá a eventos ocorridos em 1494, ainda que se saiba que alguns tenham ocorrido antes, que surge a menção à dita torre:

           “E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua caua, com tanta e tam grossa artelharia, que defendia o porto; e assi outra torre, e baluarte de Caparica defronte de Belém, em que estaua muyta e grande artilharia, e tinha ordenado de fazer hua forte fortaleza, onde ora está a fermosa torre de Belem, que el Rey dom Manoel, que santa gloria haja, mandou fazer, pera que a fortaleza de hua parte, e a torre da outra tolhessem a entrada do rio”[20].

De facto, 1494 é a data mais apontada pelos investigadores para o início da construção da torre de Cascais[21]. Depois de ter estudado o assunto, Pedro de Aboim Inglez Cid, embora salientando que o trecho de Garcia de Resende sobre as fortificações é o que se segue à descrição da experiência de artilharia feita em caravelas (Setúbal) e que “o critério de agrupar assuntos conexos num único capítulo não implica que o exposto tenha ocorrido estritamente na mesma época”, é levado a admitir que das fortificações referidas por Garcia de Resende apenas a construção da torre de Cascais terá sido coeva dos testes balísticos ordenados por D. João II, ou seja, 1494[22]. Recentemente, Joaquim Boiça referiu mesmo que, pese embora se tenha mandado erguer a torre em 1488, o que, como vimos, não se consegue comprovar documentalmente, as obras só teriam avançado em 1494[23].

É claro que se pode colocar a hipótese de se ter mandado construir a torre em 1488, no âmbito geral daquilo que se pretendia para a fortificação do Reino[24], mas isso terá de ser feito sob a forma de hipótese explicativa e não como sendo um dado garantido. Uma coisa é uma hipótese explicativa, outra é um facto histórico. Ainda assim, e conforme foi indicado, a data mais consensual para o início da construção da torre de Cascais é 1494[25].

Mais recentemente, em 2011 e 2013, Margarida de Magalhães Ramalho, investigadora que mais tempo tem dedicado ao estudo desta torre, partindo da ideia de que a sua construção terá arrancado em 1488, acrescentou que terá ocorrido até 1498. Para fundamentar a última data apontada a investigadora refere duas moedas deste período[26] encontradas na última escavação arqueológica realizada no interior da fortaleza de Nossa Senhora da Luz (2005). No entanto, esta referência a supostas moedas de 1498 trata-se de uma imprecisão[27], e que tem induzido em erro, até porque a primeira moeda portuguesa com data expressa de emissão no Reino surge apenas no reinado de D. Sebastião, sendo o “engenhoso” (1562)[28].

Em todo o caso, se fizermos um paralelo com o tempo de construção da torre de S. Sebastião de Caparica, que terá começado a ser construída em 1481 ou 1482 e que, por volta de 1485, poderia já ter a fase principal de obras finalizada[29], bem como com a torre de Belém, cuja construção terá decorrido entre 1514 e 1519[30], poderemos pensar numa cronologia de construção da torre de Cascais que ande à volta dos quatro anos (ou pouco mais). Tendo as obras muito provavelmente arrancado em 1494, por volta de 1498 ou 1499 a torre poderia já ter alguma ocupação, ainda que pudesse não estar totalmente finalizada. De maior importância para o estudo da torre de Cascais, e para fundamentar e reforçar a nossa argumentação, um documento de 1500 que tivemos oportunidade de dar a conhecer inicialmente na nossa tese de mestrado (2012) alude a um bombardeiro fixo naquela fortificação desde 1500[31], se bem que remeta para um mestre bombardeiro que já estaria de serviço na torre pelo menos desde 1499, podendo essa presença até remontar a 1498. São hipóteses bastante plausíveis[32].

Outro mito relacionado com a torre de Cascais diz respeito à ideia de que a construção desta estrutura esteve directamente relacionada com os ataques do corsário/pirata João Bretão na baía de Cascais (Setembro de 1484). Mais uma vez, não existe qualquer documento histórico que suporte tal ideia. A documentação conhecida alude apenas aos ataques de João Bretão, que até chegou a estar ao serviço de D. João II, e às medidas que a rainha D. Leonor tomou para que o salteador parasse com as suas actividades (fig. 8). É mais coerente pensar que o motivo da construção da torre tenha estado ligado a todo um conjunto de ataques ocorridos naquela área ao longo da década de 1480, e que revelaram a vulnerabilidade da navegação e evidentes fragilidades defensivas locais, parecendo mesmo haver uma estratégia bem definida por parte dos corsários franceses que actuavam nas imediações e em ligação com Lisboa[33].

Fig. 8
Fig. 8 – Uma das cartas que revela a presença do corsário João Bretão em Cascais. 23
de Setembro de 1484 (AML, Chancelaria Régia, Livro 2º de D. João II, fls. 37-38v).

Sabe-se que a construção deste tipo de fortificações, junto ao mar, “destinava-se a evitar desembarques nos locais mais favoráveis e, segundo a capacidade de cada local, a servir de protecção aos ancoradouros das frotas que se oporiam aos navios atacantes. Podiam, dentro dos alcances da sua artilharia, evitar que o inimigo manobrasse nas suas proximidades, função que se foi tornando cada vez mais importante à medida que os alcances aumentavam e o recurso a munições especialmente destinadas ao combate naval ia sendo possível”[34].

No caso específico de Cascais, e não esquecendo também a sua importância enquanto atalaia do Tejo, o papel defensivo da torre cascalense seria o de impedir a aproximação e possível desembarque inimigo no centro portuário local, bem como de proteger os navios que seguiam para Lisboa (ou para outros lados) e que em Cascais irremediavelmente faziam escala, lançando ferro em frente à praia da Ribeira e imediações da fortificação joanina. É que, devido aos condicionalismos geográficos próprios desta área, a viagem para Lisboa e a necessária entrada na barra do Tejo nem sempre era feita de forma directa, sendo necessário aguardar por maré e ventos favoráveis ao largo de Cascais a fim de evitar os perigos da barra (nomeadamente os cachopos) e um possível naufrágio[35].

Importa, agora, aduzir um caso documentado que exemplifica parte das utilidades defensivas da torre de Cascais. Em finais de Julho de 1524 esteve iminente a utilização desta fortificação para o bombardeamento de uma frota do imperador Carlos V, sendo esta formada por 86 urcas e soldados de várias origens do Norte da Europa. A frota, tendo como destino a Andaluzia, havia feito escala no porto de Cascais para abastecimento. Como a “contrariedade dos tempos” não permitia navegar para Sul, os navios tiveram de ficar naquele porto durante mais de 15 dias, vindo a sua gente a causar vários problemas, situação que levou a clamores entre o povo da vila e arredores. Para resolver a situação, D. Nuno da Cunha, governador da Relação e vedor da Fazenda, foi enviado a Cascais com intérpretes flamengos e alemães que residiam em Lisboa, bem como com um português que sabia falar as suas línguas. Na verdade, os estrangeiros, enviados para falar com o almirante (holandês) e com os mestres das urcas, não eram propriamente intérpretes, mas sim os maiores representantes das casas comerciais flamengas e alemãs de Lisboa e cujas afinidades linguísticas eram requeridas para ajudar a desbloquear a situação. Acabariam por ser recebidos nos Paços de D. Pedro de Castro (senhor de Cascais e 3.º conde de Monsanto), onde D. Nuno, depois de relembrar aos estrangeiros ali chamados a sua condição de vassalos do Imperador, o qual tinha boas relações com o rei de Portugal, ameaçou-os dizendo “que lhes faria todo o mall que podesse asy com a artilheria da torre” e que traria gente por terra caso os visados não parassem as suas acções[36].

Por esta informação não há dúvida de que o poder de fogo da artilharia da torre, nessa altura sob comando do mestre bombardeiro Simão de Paris[37], estava ao alcance das urcas, pelo menos das que estavam mais próximas das imediações da praia da Ribeira. É que, sendo uma frota constituída por 86 navios, naturalmente que a disposição dos mesmos se faria para o sentido nascente da vila, dadas as dimensões da praia e a necessidade de manter o centro portuário desbloqueado.

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Fig. 9 – Conhecimento em que se declara que mestre Simão de Paris,
bombardeiro da torre de “Quasquaes”, recebeu 15.000 reais
por servir na dita vila em 1524 (ANTT, CC, pt. II, mç. 123, n.º 92).

Voltemos aos aspectos controversos sobre a torre. Na referida placa informativa colocada recentemente junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz, onde também é referido que D. João II mandou construir a dita torre em 1488, está escrito que Pêro Anes foi o autor dessa fortificação. Resultando tais informações – mais uma vez – de uma imprecisão, e não havendo qualquer tipo de comprovação documental, o que se sabe sobre este homem é que, em 1505, seria o responsável por certas obras de fortificação que estavam a ser realizadas na vila de Cascais. A informação foi dada a conhecer por Jaime D’Oliveira Lobo e Silva, ao sintetizar um documento que aludia ao lançamento de um imposto a algumas povoações situadas a Norte de Cascais para que contribuíssem nas despesas das referidas obras:

          “[A] 12 de Agosto, … Pero Annes, homem das obras que El Rei tem em Cascais, apresenta à Câmara um regimento pelo qual o Rei ordena que os moradores das Vilas de Colares, Cheleiros, Mafra, Ericeira e reguengo da Carvoeira, concorram para as ditas obras, que, segundo parece, constavam de uma torre, muralhas e outras construções de fortificação”[38].

É muito provável que, por essa altura, a torre que D. João II havia mandado construir e a muralha medieval da vila estivessem em reparação. Sabendo-se que já estava em funcionamento desde 1499-1500, a torre de Cascais voltava a entrar em obras muito provavelmente devido a violentos tremores de terra que terão ocorrido entre 1504 e 1505[39] e que terão danificado as suas estruturas[40].

Em suma, que conclusões se podem tirar deste artigo? Face a todos os aspectos que foram sendo referidos, a divulgação histórica não se pode limitar a um processo de reprodução de ideias antigas e erradas, recorrendo à fórmula: “historiografia de historiografia”. Há que tentar ir directamente às fontes históricas/arqueológicas e confirmar o que está a ser dito. Questões incertas, que devem ser exploradas sob a forma de hipótese explicativa, não podem ser transmitidas como se fossem factos históricos. Todos nós erramos e estamos sujeitos a ser corrigidos. Ora, o grande problema surge quando se verifica a falta de rigor científico, quando não se faz uma actualização de conhecimentos, quando não há abertura para a discussão, para a novidade e para superar certos erros, o que, desse modo, impede o avanço do saber e a sua necessária renovação. Se assim for, o comum cascalense e o grande público serão erradamente informados sobre o nosso passado histórico!

Fig. 10
Fig. 10 – Alguns turistas lêem as informações recentemente colocadas
sobre a torre de Cascais e a fortaleza de Nossa Senhora da Luz.

 Marco Oliveira Borges | 2017

[1] M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da cidadela e a torre de Cascais II”, in Jornal da Costa do Sol, 55 (1965), p. 10. “Revelim” era o nome pelo qual o investigador designava a fortaleza de Nossa Senhora da Luz.

[2] Sobre o estudo mais actualizado acerca desta fortificação, cf. Marco Oliveira BORGES, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, in História. Revista da FLUP, IV: 5 (2015), pp. 93-117. Disponível para leitura e descarregamento gratuito através dos seguintes links: https://www.academia.edu/20335814/A_torre_defensiva_que_D._Jo%C3%A3o_II_mandou_construir_em_Cascais_novos_elementos_para_o_seu_estudo_2015_; http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/13789.pdf. Em breve, na nossa dissertação de Doutoramento, iremos apresentar novos dados sobre a torre de Cascais.

[3] Embora, por vezes, seja dado como garantido que a torre de Cascais teve esta invocação, a verdade é que esta questão ainda não está devidamente esclarecida (cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “Cascais em finais do século XVI: duas plantas inéditas”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 9 (1990), pp. 82-83; idem, “As fortificações marítimas do porto e da nobre vila de Cascais”, in Joaquim Boiça et al., As fortificações marítimas da costa de Cascais, Cascais, Quetzal, 2001, p. 28; idem, Fortificações marítimas, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2010, p. 25; idem, “A defesa de Cascais”, in Monumentos. Cidades. Património. Reabilitação, 31 (2011), p. 36; idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, in Isabel Cristina F. Fernandes (coord.), Fortificações e território na Península Ibérica e no Magreb (séculos VI a XVI), vol. II, Lisboa, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola, 2013, p. 640).

[4] Marco Oliveira BORGES, op. cit., p. 94, n. 7.

[5] “Ha no antigo revelim da fortaleza umas armas do reino, todas picadas pelos francezes da invasão de 1807, nas quaes apenas se póde ler, e com difficuldade – D. João II” (Pedro Lourenço de Seixas Borges BARRUNCHO, Apontamentos para a história da villa e concelho de Cascaes, Lisboa, Typographia Universal, 1873, pp. 81 e 109).

[6] Cf., por exemplo, Afonso do PAÇO e Fausto J. A. de FIGUEIREDO, “Esboço Arqueológico do Concelho de Cascais”, in Boletim do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, 1 (1943), p. 19.

[7] Cf. M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 53 (1965), p. 16; idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais II”, p. 10; idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 97 (1966), p. 5; idem, “História de Cascais e do seu Concelho”, in Jornal da Costa do Sol, 262 (1969), p. 19.

[8] Idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 53, p. 16.

[9] Manuel A. P. Lourenço, “História de Cascais e do seu concelho”, in A Nossa Terra, n.º 99, 1955, p. 2. Posteriormente, numa obra publicada em 1964, no âmbito das comemorações do VI centenário da vila de Cascais, o autor não fazia qualquer alusão à identificação da torre de Cascais, pelo que ainda não teria percebido que essa fortificação havia sido envolvida pela fortaleza de Nossa Senhora da Luz (cf. Manuel Acácio Pereira Lourenço, As fortalezas da costa marítima de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 11). Sobre o início das escavações, cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “A fortaleza de Nossa Senhora da Luz”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 10 (1991), p. 35.

[10] Já conhecida por Pedro Lourenço de Seixas Borges BARRUNCHO, op. cit., p. 79.

[11] M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, p. 5.

[12] Sobre as escavações de 2005, cf. Nuno NETO et al., “Intervenção arqueológica na fortaleza de Nossa Senhora da Luz (Cascais). Contribuições para a sua análise evolutiva e estrutural”, in Património. Estudos, vol. 10, Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico, 2007, pp. 185-197.

[13] Margarida de Magalhães RAMALHO, “As fortificações marítimas do porto […]”, p. 50.

[14] https://www.youtube.com/watch?v=9MGO9ojkhyk, consultado em 29/12/2012.

[15] Apesar de alguns aspectos controversos e críticas que se possam apontar a Manuel A. P. Lourenço, que muito raramente usava notas de rodapé para fundamentar as suas informações, até porque escrevia, sobretudo, nos jornais locais, é óbvio que não se pode tirar este e outros méritos de investigação ao autor.

[16] “Passou recentemente um documentário sobre a primitiva “Torre de Cascais” mandada erigir por D. João II, o “Príncipe Perfeito”, que herdando apenas as estradas de um pobre reino, localizado na periferia da Europa, com apenas 1.700.000 habitantes, soube transformá-lo num império. Da autoria da Dr.ª Margarida Ramalho, o documentário intitulado “Stº. António de Cascais e a Torre Perdida”, de excelente qualidade, mostra-nos as investigações que aquela historiadora tem ali realizado desde 1982, bem como o trabalho mais recentes de outros investigadores. Conhecemos o interior daquela fortaleza desde 1965, numa noite, em que acompanhei uma equipa do Jornal da Costa do Sol, em que o meu pai era o repórter fotográfico e o guia o historiador Manuel Lourenço, que desde os anos 40 estudava aquela fortificação. Lembro-me como se fosse hoje todos os passos que demos no seu interior. Numa sala, localizada no canto do pátio, estava uma grande imagem de St.º António, de gesso, por detrás uma parede onde, recentemente, fora aberto um buraco. No seu interior um recanto húmido, onde escorria água das paredes e as estalactites caíam de um alto tecto. Uma grade de ferro, de uma antiga porta de prisão deixada encostada, recordava os últimos presos Liberais ali encarcerados durante o reinado de D. Miguel. Para quem queira saber mais sobre a história da fortaleza e dos estudos que Manuel Lourenço fez basta consultar o Jornal a Costa do Sol: Manuel Acácio Pereira Lourenço: “O Revelim da Cidadela e a Torre de Cascais I, II e III”, Jornal da Costa do Sol, Cascais, nº 53, 24/4/1965; nº 55, 8/5/1965; nº 97, 26/2/1966. “Aspectos de Cascais Antes e Depois do Ano de 1580 a Posição Estratégica e as Fortificações”, Jornal da Costa do Sol, Cascais, nº 262, 26/5/1969” (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=527139110637043&set=o.468302963181739&type=1&permPage=1, consultado em 30/12/2012).

[17] https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/764361770335344/?type=3&theater; https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/764683550303166/?type=3&theater. O primeiro post, aliás, até é de 1 de Junho de 2013: https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/372742759497249/?type=3&theater, consultado em 25/05/2017).

[18] Data que tem sido avançada, sobretudo, por Margarida Magalhães RAMALHO, “A torre de Cascais. Uma perspectiva arqueológica”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 7 (1988), p. 69; idem, “A barra do Tejo e a defesa de Lisboa”, in Oceanos, 11 (1992), p. 71; idem, Fortificações marítimas, p. 25; idem, “A defesa de Cascais”, p. 36; idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, p. 640. Todavia, numa obra publicada em 2001, a autora também chegou a admitir que a torre havia sido mandada levantar em 1488, sendo que apenas seis anos mais tarde teriam começado as obras, terminando já no reinado de D. Manuel I. Contudo, Margarida Magalhães Ramalho confundiu o ano de 1488 como sendo alusivo ao trecho de Garcia de Resende que refere a construção da torre (cf. idem, “As fortificações marítimas do porto […]”, p. 28).

[19] Garcia de RESENDE, Crónica de D. João II e Miscelânea. Pref. de Joaquim Veríssimo Serrão, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1973, cap. LXX, pp. 102-103.

[20] Idem, ibidem, cap. CLXXXI, p. 256.

[21] Entre os investigadores mais antigos, cf. Afonso do PAÇO e Fausto J. A. de FIGUEIREDO, op. cit., p. 19; Manuel Acácio Pereira LOURENÇO, As fortalezas da costa marítima de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 11; idem, “História de Cascais e do seu concelho”, p. 19; Ferreira de ANDRADE (dir.), Monografia de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1969, p. 258; Carlos Pereira CALLIXTO, “A Praça de Cascais e as Fortificações suas dependentes”, in Revista Militar, 5 (1978), p. 329.

[22] Cf. Pedro de Aboim Inglez CID, A torre de S. Sebastião de Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II, Lisboa, Edições Colibri, 2007, pp. 160 e 167 (n. 77). Como datas alternativas para os testes balísticos de Setúbal, o investigador aponta o Verão de 1484 ou o Outono de 1488 (cf. idem, ibidem, p. 149 e n. 16).

[23] Joaquim M. F. BOIÇA, “Cascais no sistema defensivo do porto de Lisboa”, in Monumentos. Cidades. Património. Reabilitação, 31, p. 30.

[24] Margarida de Magalhães RAMALHO, “As fortificações marítimas do porto […]”, 50.

[25] Vide supra, n. 21.

[26] “Como o comprovam duas moedas deste período encontradas na última escavação realizada, em 2005 […]” Cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “A defesa de Cascais”, pp. 36 e 45 (n. 11); idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, pp. 640 e 644 (n. 7). No documentário sobre a torre de Cascais a cronologia de construção apontada é a mesma (1488-1498).

[27] Estranha-se, ainda, que Margarida de Magalhães Ramalho, nos seus dois últimos estudos referidos, não cite o estudo de 2007 resultante dos trabalhos arqueológicos levados a cabo na fortaleza de Nossa Senhora da Luz entre Outubro de 2004 e Abril de 2005, o qual não apresenta qualquer referência a supostas moedas de 1498 ou a outras do reinado de D. Manuel I, sendo este um estudo em que a própria investigadora participou como co-autora (vide supra, n. 12).

[28] No entanto, o conhecido “bazaruco” de 1532, moeda indo-portuguesa, parece ser o exemplar mais antigo da numismática portuguesa que ostenta data (cf. J. FRONTEIRA, “Um «soldo» de D. João III?”, in NVMMVS. Boletim da Sociedade Portuguesa de Numismática, IV: 13-14 (1956-1957), pp. 130-131.

[29] Pedro de Aboim Inglez CID, op. cit., pp. 160-161 e 281-283.

[30] Reynaldo dos SANTOS, A torre de Belém 15141520. Estudo histórico e arqueológico, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1922, pp. 9, 32, 34-35, 40-41, 44-46 e 58.

[31] ANTT, Chancelaria de D. Manuel I, liv. 13, fl. 49v.

[32] Cf. Marco Oliveira BORGES, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais […]”, pp. 106 e 114.

[33] Para um apanhado documentado e problematização dos ataques corsários em Cascais no reinado de D. João II, cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 170-174 e 201-205.

[34] António José Pereira da COSTA, Cidadela de Cascais (pedras, homens e armas). Pref. de Rui Carita, Lisboa, Estado-Maior do Exército/Direcção de Documentação e História Militar, 2003, p. 23.

[35] Joaquim M. F. BOIÇA, op. cit., p. 24; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 61-62.

[36] O documento é de 25 de Julho de 1524 (ANTT, CC, pt. I, mç. 31, doc. 40; Pedro de AZEVEDO, “Uma esquadra de Carlos V no porto de Cascaes em 1542”, in Revista de História, 4 (1912), pp. 246-248).

[37] ANTT, CC, pt. II, mç. 123, n.º 92.

[38] Jaime D’Oliveira Lobo e SILVA, Anais da vila da Ericeira. Registo cronológico de acontecimentos referentes à mesma vila, desde 1229 até 1943. 3.ª ed., Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 2002, p. 24.

[39] Outro sismo terá ocorrido em 1500 (cf. Marisa COSTA e João F. B. D. FONSECA, “Sismicidade histórica em Portugal no período medieval”, in Sísmica 2007 – 7.º Congresso de Sismologia e Engenharia Sísmica, Porto, 2007, p. 6). Sobre os sismos de 1504-1505, cf. M. de LA CLEDE, Histoire Generale de Portugal, t. I, Paris, Chez Guillaume Cavelier, 1735, p. 578; Victor João de Sousa MOREIRA, Sismicidade Histórica de Portugal Continental. Sep. da Revista do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (1984), p. 15; Luís Mendes VICTOR, “A sismologia e a dinâmica planetária”, in Prevenção e protecção das construções contra riscos sísmicos, Lisboa, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2005, pp. 27 e 29-30; Marisa COSTA e João F. B. D. FONSECA, op. cit., p. 6.

[40] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 193-194. Esta hipótese surgiu do seguimento da pista deixada por Manuel A. P. Lourenço de que os sismos deverão ter atingido duramente Cascais (cf. Manuel A. P. LOURENÇO, “História de Cascais e do seu concelho”, in A Nossa Terra, 128 (1956) pp. 2 e 7).

O porto do Touro (Cascais) e o sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Sintra) entre a Antiguidade e a Idade Moderna

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Fig. 1 – Porto do Touro e sítio arqueológico do Espigão das Ruivas.

O local[1] conhecido como “porto do Touro”[2] situa-se próximo da Biscaia, no limite costeiro Noroeste do concelho de Cascais, um pouco a Sudeste do cabo da Roca, tendo sido utilizado até muito recentemente como porto de apoio à pesca. É ladeado a poente pelo sítio arqueológico habitualmente denominado “Espigão das Ruivas”, rochedo alto, sobranceiro ao mar, de acesso extremamente difícil e perigoso[3], estando já em território de Sintra, mas que tem vindo a ser referido erroneamente desde a década de 1880 como pertencendo ao concelho de Cascais. A arqueologia mostrou que estes locais tiveram uma utilização/ocupação que remonta à Idade do Ferro, com continuação durante o Período Romano e Idade Média, se bem que ainda não esteja devidamente esclarecido qual o tipo de aproveitamento e funcionalidade dos mesmos em períodos tão recuados. Na verdade, existem diversas dúvidas e diferentes interpretações sobre a presença humana nestes locais.

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Fig. 2  – Pormenor da costa de Cascais entre o cabo Raso e o porto do Touro (circundado).

O sítio arqueológico acima referido foi identificado na década de 1880 por Francisco de Paula e Oliveira[4], capitão de artilharia, antropólogo e funcionário da Direcção dos Trabalhos Geológicos entre 1886 e 1888, ano do seu falecimento[5]. Por esta altura, o investigador desenvolveu um importante trabalho de prospecção sistemática no concelho de Cascais, embora o seu falecimento repentino não tenha permitido o estudo da totalidade dos arqueossítios e materiais por si identificados. O relatório das suas observações acabaria por ser publicado postumamente sem que estivesse terminado[6]. Relativamente ao Espigão das Ruivas, erradamente colocado pelo autor em território de Cascais, Paula e Oliveira descreveu-o como sendo um rochedo muito escarpado e que, ao avançar para o mar, formava uma pequena península de acesso extremamente difícil, se bem que reconhecendo que aquela configuração provavelmente nem sempre teria sido assim. Nesse rochedo, o investigador referiu que havia identificado alicerces de edifícios, fragmentos de telhas e de cerâmicas, indícios que mostravam que o local havia sido habitado. Não tendo tido tempo para estudar aquelas ruínas, ou talvez se tenha furtado a isso pelo pouco interesse despertado, já que o investigador se importou mais com estações arqueológicas de carácter funerário[7], tornou-se difícil a Paula e Oliveira avançar com a sua possível funcionalidade e idade, ainda que o próprio não tenha tido dúvida quanto a uma antiguidade remota que recuava pelo menos até ao Período Romano[8]. Aliás, o investigador chegou a interrogar-se sobre a possibilidade desse arqueossítio ser o local onde havia sido erguido o templo (ou santuário) romano dedicado ao Sol e à Lua que se sabia ter existido no litoral de Sintra. Muito embora pelas indicações de Francisco de Holanda[9] e outros autores posteriores fosse perceptível que o dito templo havia sido construído no Alto da Vigia (Colares)[10], a hipótese de Paula e Oliveira viria a ser retomada e mantida até recentemente.

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Fig. 3 – Indicação do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas, ladeado pela praia do porto do Touro.

Durante muito tempo os investigadores posteriores a Paula e Oliveira não conseguiram localizar o Espigão das Ruivas, até porque o autor não apresentou nenhum mapa com a localização do sítio. Somente em 1991, mais de cem anos depois das averiguações de Paula e Oliveira pelo concelho de Cascais, é que este local veio a ser (re)descoberto, por intermédio de Guilherme Cardoso, vindo a sofrer uma intervenção arqueológica parcial nesse mesmo ano. A partir de então, passou a ser divulgado que o dito rochedo ficava ladeado do porto do Touro[11].

Os trabalhos arqueológicos decorreram entre 29 de Março e 10 de Abril. Naquele rochedo foi escavada uma estrutura pétrea rectangular de pequenas dimensões, com porta a Nordeste e já bastante danificada, situação que não permitiu aos arqueólogos determinar a sua utilidade. Para além disso, e dado o remeximento que toda a superfície do rochedo foi sofrendo ao longo do tempo, não foi possível destrinçar níveis estratigráficos[12]. Ainda que as evidências detectadas não tenham correspondido às expectativas geradas pelas averiguações de Paula e Oliveira e à possibilidade de ali poder ter existido o dito templo, foi dada a conhecer a descoberta de importantes materiais arqueológicos datáveis da Idade do Ferro que consistem em cerâmica de pasta fina de cor cinzenta e castanha, correspondendo a fragmentos de pequenas taças e ânforas[13].

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Fig. 4 – A difícil e perigosa subida ao Espigão das Ruivas (Julho de 2015).

Relativamente ao Período Romano, ficou referida a recolha de dois fragmentos de uma pequena taça em terra sigillata sudgálica (forma Drag. 24/25), da segunda metade do século I d.C., um cossoiro, fragmentos de telhas grossas (ímbrices), um anel (?) em fita de cobre, etc.[14]. Refira-se, igualmente, que ficou em aberto a possibilidade de este sítio arqueológico ainda ter estado em actividade durante a Idade Média.

Embora não se tenha conseguido compreender a utilidade da estrutura pétrea em causa, Guilherme Cardoso, trazendo o topónimo “Touro” à questão e a ligação com o mar, colocou a hipótese de ali ter existido “um antigo templo com imagem de um touro[15], animal que simbolizava o desenvolvimento da violência sem contenção e que se encontrava associado ao culto de Poseidon, deus grego do mar a que os Romanos chamaram Neptuno”. Outra hipótese, segundo o mesmo investigador, era “sugerida pela existência do culto lunar na Serra de Sintra e em toda a região desde a Pré-História”, permitindo assim “ligar o touro à Lua, símbolo da luz que, na noite escura, servia de guia aos navegantes”[16].

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Fig. 5 – Vista do Espigão das Ruivas para o Guincho e mar envolvente.
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Fig. 6 – Vista do Espigão das Ruivas para a praia do porto do Touro.

Inicialmente interpretado como um possível local de culto, posteriormente surgiu uma hipótese divergente e que coloca as ruínas da estrutura detectada naquele rochedo como sendo o que restou de um antigo farol usado já no tempo dos fenícios e com continuação pelo Período Romano[17]. Este tipo de estruturas, edificadas em pontos estratégicos da costa, serviam para indicar pontos de referência para orientação marítima e evitar naufrágios, permitindo que os navios mantivessem a necessária distância e prudência em relação a terra[18]. Foi salientado que a possível estrutura de sinalização não teria as características das torres de Cádis e da Corunha (“Torre de Hércules”) que serviram de farol, ou até mesmo da que poderá ter existido no estuário do Sado (Outão)[19] durante o Período Romano, se bem que estivesse próxima do Cabo da Roca, acidente geográfico merecedor de sinalização[20].

Uma outra hipótese sugere que as ruínas da estrutura existente no Espigão das Ruivas, rochedo na cota dos trinta metros, são o que restou de “uma pequena casa”[21]. Face aos “grandes recipientes de cerâmica ali descobertos, nomeadamente ânforas”, foi referido não haver dúvida de que o acesso ao sítio “se fazia por mar, visto que, por terra, seria difícil”[22]. Uma nova interpretação dos materiais arqueológicos ali exumados permitiu enquadrar alguns fragmentos de telha no Período Islâmico[23], sendo ainda apontada a presença visigótica no local[24].

No entanto, falta que se faça o estudo desenvolvido da estrutura, dos materiais arqueológicos ali detectados e a sua publicação integral. Aliás, sabe-se que os materiais da Antiguidade Tardia ali exumados foram apresentados num congresso no Verão de 2016 e que estão em fase de estudo mais aprofundado para publicação, pelo que em breve teremos novidades sobre o assunto. O mesmo virá a ocorrer, futuramente, com os materiais da Idade do Ferro. Espera-se que se possa vir a compreender de forma mais detalhada a cronologia de ocupação inicial do sítio, a integração dos materiais nos circuitos comerciais antigos e estabelecer possíveis paralelos com outros sítios arqueológicos da região.

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Fig. 7 – Barrotes de madeira no interior da estrutura pétrea.

Não havendo um consenso sobre a funcionalidade da estrutura detectada no Espigão das Ruivas, existem outros aspectos que precisam de ser aduzidos à discussão: será que a dita estrutura teve a mesma funcionalidade entre a Idade do Ferro e o Período Islâmico? Será que não sofreu modificações ao longo do tempo? Já vimos que as sucessivas fases de ocupação do sítio foram afectando os níveis arqueológicos anteriores, sendo que a isso podemos acrescentar uma presença humana em tempos mais recentes. Nas ocasiões que visitámos o Espigão das Ruivas constatámos que existem barrotes de madeira no interior das ruínas da estrutura pétrea visível à superfície e que a mesma apresenta, hoje em dia, um formato circular (fig. 8), situações que mostram que o local foi frequentado até muito recentemente e que sofreu novas alterações de ordem antrópica após as escavações de 1991.

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Fig. 8 – Ruínas de estrutura pétrea, hoje em dia de formato circular.

Contudo, as telhas do Período Romano e Islâmico ali detectadas sugerem que se estava perante um pequeno edifício que deverá ter funcionado como casa-abrigo, decerto ligado à navegação. Quanto aos fragmentos de ânforas e de terra sigillata exumados, poderiam estar associados a acções de desvio e descaminho de mercadorias vindas de Olisipo. Note-se que o porto do Touro e toda aquela costa também estavam na rota de uma linha comercial à escala regional que unia as villae do Ocidente do Municipium Olisiponense e Olisipo, sendo que alguns esteiros de mar outrora navegáveis serviam de ligação entre os dois pólos. É o caso do rio Lizandro (Mafra) e do rio de Colares (Sintra) – que no passado beneficiavam da entrada de um braço de mar para o interior dos seus territórios –, por onde teriam fluido navios e mercadorias envolvidas numa rede de ligações comerciais com Olisipo que teria estado activa sobretudo entre os séculos I-II e V d.C., havendo ainda elementos arqueológicos que permitem pensar numa maior antiguidade desses contactos navais[25]. É possível, inclusive, que a área do rio de Colares já tivesse alguma importância quanto à entrada e saída de mercadorias no âmbito do comércio regional do Bronze Final[26].

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Fig. 9 – Pormenor da área costeira entre Sintra e Lisboa com alguns arqueossítios da Idade do Ferro.

Um dos aspectos que desperta a atenção quando se visita o porto do Touro reside no facto de haver uma porção territorial útil mais alargada para o interior imediato e mais abrigada do que o exíguo sítio arqueológico escavado, sendo que entre a praia daquele porto e esse interior existem ruínas de edifícios e outros diversos vestígios de presença humana. Não teria havido já na Idade do Ferro, durante o Período Romano e Idade Média uma relação com esse interior imediato ao porto? Não teriam sido construídas habitações ou outro tipo de estruturas? Ademais, e apesar de apenas terem sido detectados vestígios arqueológicos da Antiguidade e Idade Média naquela área, não teria o local sido ocupado posteriormente, durante a Idade Moderna? É muito provável que tenha havido uma ocupação humana espacialmente mais alargada daquela área durante a Antiguidade e a Idade Média, sobretudo onde actualmente ainda se encontram ruínas de barracas e de algumas habitações geralmente referidas como tendo sido construídas por pescadores em tempos mais recentes, marcando a paisagem cultural marítima local. Talvez tenham existido ali grupos de pessoas que prestavam apoio à navegação, fazendo a ligação entre terra e o mar através de pequenas embarcações quando fosse necessário, e que já se dedicavam a usar o local como porto de apoio à pesca, algo que se deverá ter mantido ao longo de vários séculos. Essas pessoas, se seguirmos estas hipóteses, estariam igualmente associadas à funcionalidade da estrutura detectada no Espigão das Ruivas, que também poderá ter funcionado como vigia e local de sinalização do porto do Touro aos navegantes.

Tendo a área confinante ao dito porto um elevado potencial do ponto de vista arqueológico, era importante desenvolver trabalhos de prospecção nas imediações e possíveis escavações que pudessem trazer novidades e compreender melhor qual o tipo de ocupação humana desde tempos antigos. Do mesmo modo, e havendo a possibilidade de que outras enseadas das proximidades também tenham tido algum tipo de actividade, é essencial que se proceda à prospecção geofísica daquela área costeira. De uma forma geral, futuros trabalhos arqueológicos (em terra e mar) poderão levar a descobertas que permitam perceber melhor a ligação de todo aquele espaço com a actividade naval em épocas recuadas.

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Fig. 10 – Ruínas de habitações no território adjacente ao porto do Touro.
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Fig. 11 – Praia do porto do Touro.

Contrariamente ao que se possa pensar, quando falamos do porto do Touro estamos a indicar um local exíguo, com uma praia pequena, de seixos, sem areia e bastante rochosa, que não é acessível a navios de médias e grandes dimensões. Os navios que quisessem largar ferro naquela área tinham de ficar um pouco adiante da pequena praia para evitar o contacto com os rochedos, sendo aquelas imediações extremamente perigosas. A ligação com terra era feita através de pequenas embarcações que podiam varar, mas com maior segurança em períodos de preia-mar. O acesso à praia é bastante estreito, feito entre rochedos, sendo que ao mínimo desvio as embarcações a remos podiam chocar. Do mesmo modo, as embarcações que estivessem em terra – tal como aconteceu até recentemente – podiam ir para o mar, fosse para pescar ou para estabelecer contacto com navios, mas mais seguramente em períodos de preia-mar, mantendo-se os perigos.

Outro dos aspectos que também não pode ser posto de lado quando analisamos a importância do porto do Touro diz respeito ao seu enquadramento perante a presença humana desta região. O povoado das imediações que salta mais à vista, embora não esquecendo a villa romana de Miroiços (Malveira da Serra), é Casais Velhos (Areia), sítio que abrange uma área sobranceira às dunas do Guincho e que, segundo Guilherme Sarmento, poderá ter sido ocupado pelos romanos ainda no século I d.C.

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Fig. 12 – Vista do povoado romano/visigótico de Casais Velhos para a área do porto do Touro.

Durante a Idade Média o sítio arqueológico do Espigão das Ruivas ainda esteve em actividade, sendo que, de momento, é possível remontar a presença humana naquele local ao Período Visigótico e ao Período Islâmico[27]. É muito provável que, à semelhança de outros locais da costa de Sintra-Cascais que têm vindo a ser estudados, o porto do Touro tenha sido algo importante para a navegação muçulmana. Posteriormente, o local terá mantido ocupação ou, pelo menos, servido de apoio marítimo. Datam de 1253 (“portu Tauri”[28]) e 1370 documentos que aludem ao porto do Touro, indiciando assim a sua contínua utilização, ainda que os mesmos estejam inseridos no âmbito de delimitações territoriais, não referindo qualquer actividade portuária no local. Note-se, porém, que anteriormente a 1370 este sítio estava integrado no território de Sintra, sendo bastante curioso que o termo de Cascais, uma vez traçado, tivesse início precisamente nesse local.

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Fig. 13 – Pormenor da carta régia de 1370 que criou o senhorio de Cascais e concedeu-lhe um termo geográfico, começando pelo “porto do Touro” (ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. I, fól. 56, 1.ª col.).

Para uma cronologia compreendida entre os séculos XVI-XVII o porto do Touro terá mantido alguma importância. Nos tempos iniciais da Monarquia Hispânica, um tal de Rodrigo dos Santos, mestre de uma caravela oriundo de Cascais, havia sido contratado por Dom P.º Negro (embaixador do Congo) para transportá-lo secretamente a França. Com ele iriam outros companheiros partidários de D. António, prior do Crato, tendo o embarque sido acordado para aquele porto. Depois de reunidos no mosteiro de Colares, local indicado pelo mestre, que ali tinha um sobrinho como frade, descer-se-ia a serra de Sintra até ao dito porto para se embarcar pela noite. Porém, o súbito aparecimento de um homem chamado Diogo Cardoso, que não estava incluído no grupo inicial que faria a viagem secreta e que pedia que o levassem consigo, levantou forte desconfiança. Ao que parece, tendo sido rejeitada a sua inclusão no grupo, o intruso quis retornar a Lisboa já durante a noite, pelo que alguns “sospejtaram mal dele, e o qujzeram matar”, enquanto que outros se opuseram a tal desfecho[29]. Não se sentido à vontade com tal situação, e estando descoberto o segredo e a embarcação que os levaria até à caravela, a qual estaria frente ao porto do Touro, o grupo inicial acabou por abandonar o empreendimento e fugir.

Deste caso podemos reter alguns dados importantes. Em primeiro lugar, confirma-se que neste sítio havia uma ligação entre terra e o mar que era feita através de uma pequena embarcação e um navio de maiores dimensões, sendo esta uma actividade conhecida em Cascais, pelo menos no caso de Rodrigo dos Santos, mas que deveria estender-se a outros mareantes locais e ter alguma tradição. Neste sentido, não era por acaso que o porto do Touro estava a ser usado por esta altura, sendo muito provável que ocorressem outros tipos de ligações para além deste género de embarques. É muito provável que, nesta altura, já existissem estruturas naquele local e que pudessem, inclusive, ser reaproveitamentos de épocas mais antigas, servindo para apoio a quem usava o porto e a pequenos desembarques.

Para além do caso da tentativa de embarque na dita caravela, e que comprova a importância daquele local durante a Idade Moderna, existem referências cartográficas (séculos XVII-XIX) a um porto situado na fronteira entre a costa de Sintra e Cascais e que correspondem ao porto do Touro. O primeiro exemplar cartográfico conhecido, da autoria de Pedro Teixeira (1634), alude claramente ao “Porto do Guincho” (fig. 14), naquilo que será uma alusão ao porto do Touro, até porque o local, ainda hoje, é igualmente conhecido por Guincho Velho. Posteriormente, temos mapas dos arredores de Lisboa com alusões ao “porto do Guinel”, evidente corruptela de Guincho, e ainda outros, mais tardios, grafados com o topónimo “porto do Sinchel”, correspondendo todos ao porto do Touro.

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Fig. 14 – Faixa costeira entre o cabo da Roca e S. Pedro do Estoril. Destaque para o porto do Guincho e os dois navios ao seu largo (Pedro Teixeira, 1634). Note-se que a representação da costa de Cascais, nomeadamente a parte ocidental, surge algo fantasiada.

Tudo isto permite pensar, de facto, que este local teve certa importância durante a Idade Moderna, inclusive em séculos posteriores, e que ainda haveria uma ocupação humana do local. Pela sua posição abrigada e até estratégica, é muito provável que a costa de mar onde se encontra este local tenha servido de apoio a corsários e a piratas que esperavam nas imediações pela passagem de navios. Sabemos de diversos casos de corso e pirataria ocorridos no litoral de Sintra e Cascais entre finais da Idade Média e a Idade Moderna, pelo que o porto do Touro e arredores poderão ter sido usados nesse contexto. Na verdade, sabe-se que o cabo da Roca e a enseada de Assentiz, sítios muito próximos do referido local, foram estratégicos para este tipo de actividades[30].

Marco Oliveira Borges | 2017

[1] Este artigo de divulgação histórica, ainda que tendo sido sujeito a pequenas revisões e acrescentos, foi adaptado de um trabalho mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “A importância do porto do Touro e do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Cascais) entre a Idade do Ferro e a Idade Moderna”, in História. Revista da FLUP, IV: 6 (2016), pp. 161-182. Disponível para consulta e descarregamento gratuito através do seguintes links: https://www.academia.edu/30738649/A_import%C3%A2ncia_do_porto_do_Touro_e_do_s%C3%ADtio_arqueol%C3%B3gico_do_Espig%C3%A3o_das_Ruivas_Cascais_entre_a_Idade_do_Ferro_e_a_Idade_Moderna_2016_http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14581.pdf.

[2] Tal como vem referido na documentação medieval e moderna em português. Actualmente, também é conhecido por Porto Touro, Guincho Velho, Porto de Pescadores ou Secret.

[3] Na subida final requer mesmo escalada, existindo, actualmente, uma corda que pode ajudar a esse efeito. Em 1991, aquando das escavações arqueológicas no Espigão das Ruivas, essa corda ainda não estava no local. Agradecemos esta e outras diversas indicações fornecidas por Guilherme Cardoso.

[4] Francisco de Paula e OLIVEIRA, “Antiquités Préhistoriques et Romaines des Environs de Cascaes”, extrait des Communicações da Commissão dos Trabalhos Geológicos, II: I (1888-1892), pp. 10-11.

[5] João Luís CARDOSO e José Manuel ROLÃO, “Prospecções e escavações nos concheiros mesolíticos de Muge e de Magos (Salvaterra de Magos): contribuição para a história dos trabalhos arqueológicos efectuados”, in Estudos Arqueológicos de Oeiras, 8 (1999-2000), pp. 84 e 91.

[6] Francisco de Paula e OLIVEIRA, op. cit., pp. 1-27.

[7] Carlos FABIÃO, “100 anos de investigação arqueológica no concelho de Cascais”, in Arquivo de Cascais, 6 (1987), p. 45.

[8] Francisco de Paula e OLIVEIRA, op. cit., p. 11.

[9] Francisco da HOLANDA, Da fábrica que falece à cidade de Lisboa. Introd., notas e coment. de José da Felicidade Alves, [Lisboa], Livros Horizonte, 1984, pp. 90-92 e fl. 24v e 25.

[10] José Cardim RIBEIRO, “Estudos histórico-epigráficos em torno da figura de L. Iulius Maelo Caudicus”, in Sintria, III: I (1982-1983), p. 166; idem, “Felicitas Ivlia Olisipo. Algumas considerações em torno do catálogo Lisboa Subterrânea”, sep. de Al-Madan, II: 3 (1994), pp. 86-87; idem, “Soli aeterno Lvnae. Cultos astrais em época pré-romana e romana na área de influência da serra de Sintra: ¿um caso complexo de sincretismo?”, in Sintria, III-IV (1995-2007), pp. 596, 599-608 e 614-616; idem, “Soli aeterno Lvnae: o santuário”, in Religiões da Lvsitânia. Loquuntur Saxã, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 2000, pp. 235-239.

[11] Guilherme CARDOSO, Carta arqueológica do concelho de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991, p. 20.

[12] Idem e José D’ENCARNAÇÃO, “Sondagem no Espigão das Ruivas (Alcabideche, Cascais)”, in Al-Madan, II: 2 (1993), p. 150.

[13] Cf. Guilherme CARDOSO, op. cit., p. 31.

[14] Idem, ibidem, p. 31; idem e José D’ENCARNAÇÃO, op. cit., p. 150.

[15] Embora sendo apenas uma hipótese, uma imprecisão levou a que fosse dito que na estrutura pétrea havia sido detectada “uma gravura representando um touro” (cf. Ricardo SOARES, “Tartessos, um povo do mar. Génese da navegação, técnicas de construção e embarcações mediterrâneas e pré-romanas” (2008), (disponível em http://light-cyclops.blogspot.pt/2010/10/farol-de-pharos.html – consultada em 1/05/2015).

[16] Guilherme CARDOSO, op. cit., p. 20.

[17] Ana Margarida ARRUDA, Fenícios e Mundo Indígena no Centro e Sul de Portugal (séculos VIII-VI a.C.). Dissertação de Doutoramento em Arqueologia, Universidade de Lisboa, 2000, 3-17 e 3-18; idem, Los Fenicios en Portugal. Fenicios y mundo indígena en el centro y sur de Portugal (siglos VIII-VI a.C.), Barcelona, Universidad Pompeu Fabra de Barcelona, 2002, p. 29; idem e Raquel VILAÇA, “O Mar Grego-Romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente Peninsular”, in Francisco de Oliveira, Pascal Thiercy e Raquel Vilaça (coords.), Mar Greco-Latino, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006, p. 44; Carlos FABIÃO, “A Dimensão Atlântica da Lusitânia: Periferia ou Charneira no Império Romano?”, in Lusitânia Romana. Entre o Mito e a Realidade. Actas da VI Mesa Redonda Internacional sobre a Lusitânia Romana, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2009, p. 66.

[18] Ana Margarida ARRUDA, Fenícios e Mundo Indígena, 3-17 e 3-18; idem, Los Fenicios en Portugal, p. 29; idem e Raquel VILAÇA, op. cit., p. 44.

[19] Ou, inversamente, no cabo Espichel (cf. Maria Luísa BLOT, Os Portos na Origem dos Centros Urbanos. Contributo para a Arqueologia das Cidades Marítimas e Flúvio-marítimas em Portugal, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, 2003, p. 60; Jorge de ALARCÃO, “Notas de Arqueologia, epigrafia e toponímia – I”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, 7: 1 (2004), pp. 317-319 e 324).

[20] Carlos FABIÃO, op. cit., p. 66.

[21] Guilherme CARDOSO, Jorge MIRANDA e Carlos A. TEIXEIRA, Registo fotográfico de Alcabideche e alguns apontamentos historicoadministrativos, Alcabideche, Junta de Freguesia de Alcabideche, 2009, p. 393.

[22] Idem, ibidem, p. 30.

[23] Idem, ibidem, p. 35.

[24] Idem, ibidem, p. 38.

[25] Marco Oliveira BORGES, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Actas das Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma onda de Progresso, Almada, Escola Naval, 2015, pp. 152, 157 e 164.

[26] João Luís CARDOSO e Maria João SOUSA, “O Bronze Final na Serra de Sintra”, in Estudos Arqueológicos de Oeiras, 21 (2014), p. 366.

[27] Guilherme CARDOSO, Jorge MIRANDA e Carlos A. TEIXEIRA, op. cit., pp. 35 e 38.

[28] Pub. por Francisco COSTA, Estudos Sintrenses, I, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000, p. 97.

[29] Pedro de FRIAS, Crónica Del-Rei D. António. Estudo e leitura de Mário Alberto Nunes Costa, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1955, pp. 345-346.

[30] Marco Oliveira BORGES, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais”, pp. 162-164.

O petroleiro “Tokyo Spirit” encalhado em Cascais (2015)

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Fig. 1 – Momentos iniciais do encalhe em Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No final da manhã de 17 de Outubro de 2015, durante um forte temporal, o petroleiro Tokyo Spirit encalhou na costa de Cascais. As informações que circularam sobre a presença deste navio no litoral cascalense são contraditórias. Por um lado, foi avançado que o Tokyo Spirit estava fundeado nesta costa alegadamente à espera de entrar na barra do Tejo, onde iria ser alvo de reparações. Por outro, também foi referido que o seu destino era o estaleiro da Lisnave, em Setúbal, o que veio a acontecer posteriormente. Mais contradições surgiram, desta vez relacionadas com o real motivo que levou à perda de controlo do navio, à consequente aproximação da costa de Cascais e encalhe, sendo este um assunto que não ficou bem esclarecido. Numa das versões é referido que, enquanto aguardava ordens do armador para rumar a um estaleiro, este petroleiro com a bandeira das Bahamas acabou por perder a amarra de estibordo e ser empurrado para terra pela força do mar, encalhando assim em frente ao farol da praia de Santa Marta.

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Fig. 2 – “Tokyo Spirit” encalhado em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 3 – Vista a partir da marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

4O Tokyo Spirit é um navio de 78 mil toneladas e 274 metros de comprimento, tendo sido construído no Japão em 2006. Face à presença ameaçadora deste gigante transportador de petróleo na sua costa, os habitantes locais temeram prontamente um desastre ambiental. Se as autoridades cascalenses, que acompanharam o acontecimento desde o pedido de socorro (12:01), sabiam que o navio tinha os tanques vazios, por outro lado, essa informação ainda não era conhecida das pessoas que inicialmente assistiam surpreendidas ou daquelas que iam visualizando algumas imagens e vídeos que rapidamente começaram a circular nas redes sociais[1]. Só um pouco depois é que começou a ser divulgado que este navio de casco duplo vinha sem carga, tendo descarregado os materiais dias antes em Gotemburgo, ainda sob o nome Princimar Loyalty (registado na Libéria). No entanto, o perigo de possível derrame de hidrocarbonetos não esteve totalmente afastado, sendo de referir os resíduos de crude existentes a bordo e uma certa quantidade de combustível que o Tokyo Spirit tinha para seu próprio funcionamento.

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Fig. 5 – Perspectiva ampliada do “Tokyo Spirit”. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O navio encalho inicialmente em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 7 – Vista a partir da Marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 8 – Perspectiva a partir da praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

A notícia deste encalhe espalhou-se rapidamente pela Internet e teve, durante algum tempo, cobertura em directo por várias estações de televisão, facto que atraiu milhares de pessoas que ao longo da tarde de Sábado e já no dia seguinte se deslocaram a Cascais. Durante a tarde de Sábado, com a força do mar, o Tokyo Spirit desencalhou do local onde inicialmente havia encalhado, vindo a encalhar mais a nascente, junto à entrada da marina de Cascais.

9As operações iniciais para desencalhar este petroleiro foram efectuadas durante a preia-mar (18:30), contando-se com o auxílio de quatro rebocadores vindos de Lisboa. A bordo do Tokyo Spirit permaneceram as 22 pessoas que compunham a tripulação, visto que o comandante do navio recusou que fossem resgatadas pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa destacado para o local, alegando que não corriam perigo e que estas iriam auxiliar durante os trabalhos. Gorada a primeira operação de tentativa de desencalhe, tiveram de ser deslocados meios mais potentes e sofisticados para auxiliarem nos trabalhos: dois rebocadores vindos de Sines e um de Setúbal.

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Fig. 10 – Perspectiva durante a tarde de Sábado. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 11 – Os quatro rebocadores na operação de Sábado à tarde. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Por fim, durante a tarde do dia seguinte e já depois da deslastragem do navio, sete rebocadores a trabalhar em conjunto conseguiram desencalhar o petroleiro, sendo de enaltecer o empenho e eficiência das entidades envolvidas na operação. De seguida, o Tokyo Spirit foi rebocado para uma zona de fundeadouro da costa de Cascais e, posteriormente, levado para Setúbal.

A população local respirou de alívio! No entanto, não foi a primeira vez que tal tipo de acontecimento teve lugar na costa de Cascais e certamente que não será o último. Aliás, a história de Cascais é rica neste tipo de acidentes e naufrágios[1], sendo que os testemunhos históricos mais antigos remetem-nos para 1147, altura em que alguns navios das forças cruzadas que vieram auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros naufragaram entre Sintra e Cascais[2].

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Fig. 12 – Graças ao molhe de protecção da marina o petroleiro não se deslocou mais para terra. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 13 – “Tokyo Spirit” já ao largo depois do desencalhe. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No fundo do mar de Cascais ficou uma amarra e um ferro que o Tokyo Spirit havia perdido durante o temporal. Somente em Maio de 2016 é que se procedeu à remoção destes materiais, sendo recolhidos mais de 300 metros de amarra, num total de cerca de 70 toneladas, enquanto que o ferro tinha perto de 11 toneladas[3].

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Fig. 14 – Amarra recuperada. Fotografia: Autoridade Marítima Nacional.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Algumas filmagens deste encalhe podem ser visualizadas na seguinte página: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/.

[1] Cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na rota dos naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2006.

[2] Sobre estes naufrágios pouco falados, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf. Sobre este assunto, cf. igualmente https://sintraecascais.wordpress.com/2016/05/14/naufragios-no-litoral-de-sintra-cascais-em-1147/. 

[3] http://www.amn.pt/Media/Paginas/DetalheNoticia.aspx?nid=578 (consultada em 24/05/2016).