Uma visita ao bairro dos Pescadores (Cascais): em busca de vestígios de actividade piscatória recente

Fig. 1
Fig. 1 – Pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes (Julho de 2016).
Fig. 2
Fig. 2 – Outro pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Situado a Norte da vila medieval de Cascais, o bairro dos Pescadores, inaugurado na década de 1940, foi um dos sítios aonde se edificaram casas para albergar as famílias dos homens do mar locais. Habituado desde pequeno a ver embarcações, apetrechos e artes de pesca neste bairro, recentemente decidi voltar ao local com o propósito de observar quais os vestígios de actividade piscatória que ainda são visíveis a quem passa por ali. No entanto, a maior curiosidade residia na dúvida se a escassa presença de “chatas” na praia da Ribeira[1] (apenas 3 e de pequenas dimensões) era explicada com a sua presença naquele bairro. Assim, peguei na bicicleta e lá fui para mais uma deslocação pelo território cascalense. O sossego, que parece continuar a reinar neste local, foi apenas interrompido por alguns cães que vieram dar as “boas vindas” ao curioso que se deslocava sobre duas rodas.

Fig. 3
Fig. 3 – Destaque da proa da chata “Santa Luzia”.

Entre “chatas”, “aiolas”, “cocos”, “botes”, etc., foram muitas as embarcações que, ao longo das décadas, sobretudo durante os meses de Inverno, vieram parar a este sítio, ficando estacionadas junto à casa dos respectivos proprietários, retornando à praia da Ribeira apenas com a vinda de bom tempo. Outras deixaram definitivamente de ser deslocadas para a praia, devido à reforma dos seus proprietários, à sua morte ou por estarem bastante degradadas, acabando por ser levadas para fora do bairro. Se antigamente as embarcações estacionadas neste local eram em maior número, as averiguações que fiz revelaram apenas cinco: quatro botes e uma barca. Quanto a “chatas”, embarcações típicas de Cascais, apenas se podem observar os restos da proa e da popa da “Santa Luzia”.

Estamos perante um magro cenário, revelador do desaparecimento acelerado das embarcações tradicionais de outrora, especialmente das “chatas”, se bem que noutros locais do concelho ainda devam existir algumas em propriedades de pescadores.

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Fig. 4 – Popa e proa da “Santa Luzia”.
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Fig. 5 – Bote junto ao que resta da “Santa Luzia”.
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Fig. 6 – O bote “Ricardo”.
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Fig. 7 – O bote “Veiguinhas”.
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Fig. 8 – Aspecto da “Selesa”.

Em todo o caso, a deslocação ao bairro dos Pescadores mostrou duas embarcações que despertaram enorme surpresa. A “Selesa”, bote em que tive oportunidade de fazer algumas pescarias à lula e às redes há muitos anos atrás, permitindo relembrar algumas aventuras. Actualmente, está matriculada em Tavira. A outra embarcação que surpreendeu foi uma barca de Sesimbra (matriculada na Trafaria) que encalhou na praia da Rainha durante o temporal de Outubro do ano passado. Detendo o nome “Seremos Felizes”, trata-se de uma barca com mais de 50 anos, inicialmente usada na pesca ao peixe-espada[2]. Foi adquirida por um pescador de Cascais após o referido temporal, estando ali para que se proceda ao seu reparo.

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Fig. 9 – Interior da “Selesa”.
Fig. 10
Fig. 10 – A barca “Seremos Felizes”.
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Fig. 11 – Outro pormenor da mesma barca.
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Fig. 12 – Um covo.

No que respeita às artes de pesca, são visíveis alguns covos e apetrechos junto a certas habitações, mas apenas em reduzido número. A reforma, o gradual falecimento de antigos pescadores e a parca integração de gente nova da terra na vida marítima, fazem com que estes materiais e embarcações sejam cada vez menos visíveis no bairro dos Pescadores e noutros locais do concelho de Cascais onde outrora marcavam presença.

 

Seria injusto, num texto desta natureza, não aludir igualmente às varinas locais, às que antigamente exerciam actividade em plena praia da Ribeira, esperando os maridos e outros familiares que vinham do mar com o peixe que os sustentava, bem como às que actualmente trabalham no mercado de Cascais. Assim, para além de inúmeros pescadores, este bairro viu nascer e crescer diferentes gerações de varinas, algumas ainda no activo. No entanto, deixarei este assunto para um texto futuro mais desenvolvido.

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Fig. 13 – Atrelado junto a uma das habitações.
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Fig. 14 – Alcatruzes de barro, pintados a verde, servem de decoração.

Não se pode terminar este périplo sem referir outros aspectos que saltam à vista de quem passa pelo bairro do Pescadores. É o caso da decoração exterior de certas habitações com elementos ligados ao mar. Destaque para os azulejos com imagens de navios e algumas figuras religiosas, não esquecendo igualmente a integração de artes de pesca. Para este último caso, é de referir o muro de uma habitação que se encontra decorado com alguns alcatruzes de barro, tal como outro que contém bóias, âncoras e outros apetrechos.

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Fig. 15 – Decoração com diversos apetrechos marítimos.
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Fig. 16 – Painel de azulejos com dois navios.
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Fig. 17 – Nossa Senhora dos Navegantes.
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Fig. 18 – Mais dois navios.
Quim da Lota
Fig. 19 – A venda de peixe ainda é feita por alguns moradores do bairro.
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Fig. 20 – Placa toponímica alusiva à Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Por fim, é de referir uma figura religiosa presente numa pequena casa-abrigo colocada na rua Nossa Senhora dos Navegantes (figs. 21-23), mas que tem levantado larga controvérsia e diferentes perspectivas quanto à invocação a que está ligada. Se há quem diga que se trata da representação de Nossa Senhora dos Navegantes, o que faria mais sentido tendo em conta a tradição local, outros testemunhos orais sugerem que seja Nossa Senhora da Assunção ou até mesmo Iemanjá. A ideia de que se está perante a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é a que mais prevalece entre os relatos recolhidos. Contudo, olhando para outras imagens relativas à mesma invocação, inclusive para uma que se encontra no mesmo bairro (fig. 17), não existem quaisquer afinidades representativas em relação à que se encontra na referida casa-abrigo. Numa das versões orais que recolhi foi dito que, inicialmente, era Nossa Senhora dos Navegantes que estava representada naquele local. Porém, os furtos ali ocorridos implicaram consequentes substituições das figuras levadas, estando agora naquela casa-abrigo (fechada a cadeado) uma figura com outra invocação. Por outro lado, num testemunho diferente, foi referido que, de facto, aquela figura religiosa será mesmo Nossa Senhora dos Navegantes, se bem que fora dos seus moldes habituais, reflectindo a visão de quem a fabricou ou mandou fabricar. Não sendo possível conciliar os diferentes discursos orais recolhidos e garantir com exactidão qual a figura ali representada, o assunto fica por esclarecer.

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Fig. 21 – Figura atribuída a Nossa Senhora dos Navegantes, mas que levanta sérias dúvidas.
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Fig. 22 – Ibidem.
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Fig. 23 – Ibidem.
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Fig. 24 – Entrada de forno de cal antigo, actualmente tapado por terra e pedras.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Também conhecida por praia dos Pescadores ou do Peixe.

[2] Sobre esta barca e o temporal de Outubro de 2015, veja os seguintes links: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1674582416115061/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675015149405121/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675024332737536/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1652234711683165.1073741829.1652023238370979/1675936112646358/?type=3&theater.

Uma noite de pesca ao polvo na embarcação “Horizonte Aberto” (Cascais)

Fig. 2
Fig. 1 – “Horizonte Aberto” na amarração.

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Fig. 2 – “Horizonte Aberto” visto de Sul.

Já passa da meia-noite. A companha do “Horizonte Aberto”, embarcação do estilo traineira construída em 1998 (Figueira da Foz), reúne-se no pontão mais recente de apoio aos pescadores de Cascais para a sua jornada de trabalho. O mestre, Miguel Diogo, também está a chegar. Finalmente embarcados no bote que faz o transporte do pessoal e do material até à embarcação de pesca, presa à amarração, um dos elementos da companha expressa a sua surpresa por nessa noite serem acompanhados por um historiador. Ausente das lides da pesca embarcada já há alguns anos, tive a oportunidade de voltar ao mar durante essa noite, desta vez apenas enquanto observador, pronto a recolher os elementos que permitissem fazer um resumo escrito da apanha do polvo-comum (Octopus vulgaris).

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Fig. 3 – Elemento da companha, oriundo da Ericeira, a tirar um polvo do alcatruz.

O mar estava relativamente calmo. O local em que decorreram as actividades foi a área costeira de Cascais e ao largo da barra do Tejo, entre 4 a 6 milhas de distância de terra, onde as teias de alcatruzes e de covos presentes no fundo do mar (20 a 50 braças de profundidade) vão permitindo a entrada e abrigo aos polvos. Se os alcatruzes não necessitam de isca para atrair aquela espécie carnívora de cefalópodes, os covos, pelo contrário, estavam a ser iscados com caranguejo proveniente de Setúbal, se bem que esta seja uma arte de pesca em que, frequentemente, também se usa a sardinha ou a cavala.

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Fig. 4 – Alcatruzes prontos para largar ao mar depois de terem fornecido dois polvos.
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Fig. 5 – Vira-se uma teia de covos.
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Fig. 6 – Retira-se um polvo do covo.
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Fig. 7 – Caranguejo de Setúbal usado como isca nos covos.

Investigações recentes mostraram que o polvo-comum capturado na costa de Cascais e ali desembarcado é de grande frescura e de elevada qualidade[1], sendo este mais um atractivo para quem quiser visitar esta vila e saboreá-lo nos diversos restaurantes e tascas. No caso do “Horizonte Aberto”, e para se conseguir uma elevada frescura dos exemplares capturados, uma mangueira ligada a uma bomba que puxa água do mar vai mantendo o polvo-comum fresco até se chegar a terra. De uma forma geral, esta é uma espécie que assume enorme importância no que respeita às capturas locais, representando uma grande fatia do pescado descarregado em Cascais[2].

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Fig. 8 – Mestre Miguel Diogo no comando das operações.

No entanto, a experiência a bordo do “Horizonte Aberto” não foi marcada apenas pelos aspectos especificamente ligados à pesca do polvo. A embarcação está dotada de um sistema tecnológico avançado, com radares que permitem compreender toda a movimentação marítima na área envolvente, o enquadramento geográfico em relação a terra, etc., fornecendo assim enorme segurança a quem exerce a actividade. Durante os trabalhos o mestre teve oportunidade de explicar diversos pormenores das movimentações marítimas e particularidades oceânicas desta área geográfica, como foi o caso dos enfiamentos da barra do Tejo por onde entram e saem os navios, algo bastante familiar face aos estudos histórico-arqueológicos para épocas mais recuadas que têm vindo a ser desenvolvidos.

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Fig. 9 – Pormenor da costa de Cascais e barra do Tejo.
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Fig. 10 – Pormenor da costa de Cascais.
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Fig. 11 – Radar Koden em funcionamento.

Por fim, depois de uma jornada produtiva, retornámos ao porto de Cascais já pelas 10:00 da manhã sob denso nevoeiro. Pouco depois procedeu-se à passagem das caixas de polvo para o bote de apoio e à consequente descarga no pontão antigo, contando-se com o auxílio de uma grua. Deste sítio o polvo foi levado de carrinha para ser vendido em Sesimbra.

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Fig. 12 – Limpeza de covos a bordo.
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Fig. 13 – Ao regressarmos a terra passámos perto do navio Elka Eleftheria (Monrovia). 
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Fig. 14 – Pormenor da entrada da Marina de Cascais.
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Fig. 15 – Registo recente do diário de bordo.
Mestre e companha
Fig. 16 – Mestre e companha do “Horizonte Aberto” (Agosto de 2016).
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Fig. 17 – Resultado final.
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Fig. 18 – Descarga do polvo.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Ana LEONARDO, Estudo da qualidade do polvo-comum (O. vulgaris) capturado na baía de Cascais. Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, 2010, pp. III e 42.

[2] Idem, ibidem, pp. 3-4.

Um amolador em Cascais, profissão rara nos nossos dias

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Fig. 1 – Joaquim Castro, amolador de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Quase ao final da manhã, misturado com o ruído das obras públicas que decorrem no centro de Cascais, um som característico acaba por se distinguir e chamar a atenção dos moradores mais atentos. É o raro som de uma gaita, usada apenas pelos amoladores que, cada vez em menor número, percorrem as ruas a pé empurrando a sua bicicleta ou mota, com o objectivo de assinalarem a sua presença e de colocarem os seus serviços à disposição do freguês que necessitar. Habituado a este som desde criança, há muito tempo que não o oiço com tanta frequência, sendo cada vez mais uma raridade.

Mas o que é um amolador? O amolador é um comerciante ambulante especializado em amolar (afiar) facas, tesouras e outros utensílios cortantes, mas também em reparar chapéus-de-chuva. Joaquim Castro é o amolador que, todas as quintas-feiras, vem ao centro de Cascais na sua bicicleta, uma pasteleira que diz ser de 1915. Devidamente equipada com diversos utensílios fundamentais ao seu trabalho, é de destacar a pedra de amolar, tendo esta uma forma circular. Estando nesta profissão por tradição familiar, Joaquim Castro diz que percorre as ruas do concelho de Cascais há 50 anos, tendo chegado a prestar os seus serviços igualmente em Oeiras e Lisboa.

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Fig. 2 – Amolador antigo.
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Fig. 3 – Amolador representado nos azulejos decorativos do exterior do Mercado da Vila de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Tendo eu um chapéu-de-chuva a precisar de ser arranjado, decidi ir ao encontro do amolador. Contudo, face ao barulho provocado pelas máquinas que procedem às ditas obras, conjugado ainda com o ruído dos veículos que circulam pelas ruas, apenas ao fim de cerca de 300 m percorridos foi possível encontrar o amolador que, espaçadamente, ia assinalando a sua presença ao som da gaita. Assim, caminhei por um trajecto que me levou da Igreja dos Navegantes, pela rua com o mesmo nome, passando pela Rua Marques Leal Pancada, até à Rua Manoel Vieira de Araújo Viana, a qual integra um espaço outrora no interior da muralha medieval de Cascais.

Ao solicitar o arranjo do chapéu-de-chuva, e vendo o moleiro que, com a pressa que sai de casa à sua procura, esqueci-me de o trazer, disponibilizou-se gentilmente para voltar atrás no seu trajecto e tratar do reparo, o seu segundo do dia. Já de novo junto à Igreja dos Navegantes, Joaquim Castro diz: “É um chapéu automático. Tem aqui um bom chapéu. Tem apenas uma vareta partida”. Feito o reparo, o amolador seguiu o seu caminho de rua em rua, não sem antes aceder ao pedido que lhe fiz para tirar mais umas fotografias, colocando prontamente a gaita na boca e soltando aquela sonoridade típica, imagem de marca desta profissão.

Em pequeno, lembro-me de um outro amolador que morava aqui no centro de Cascais e que, em vez de bicicleta ou mota, empurrava apenas uma roda. Penso que o seu nome, ou alcunha, era “Ferrer”. Cada vez mais rara nos dias que correm, eis uma profissão em vias de extinção.

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Fig. 4 – O amolador serve-se do martelo. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 5 – Colocação de nova vareta no chapéu-de-chuva. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O amolador pronto para voltar ao seu percurso de rua em rua. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Marco Oliveira Borges | 2016

Cascais elevada a vila (7 de Junho de 1364)

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Fig. 1 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 97v.

Corria o longínquo ano de 1364 quando, solicitando ao rei D. Pedro I que os libertasse da sujeição a Sintra, os homens-bons de Cascais viram este lugar ser elevado à categoria de vila. Outorgada a 7 de Junho desse ano, em Santarém, a carta de vila de Cascais veio a estabelecer os primórdios da organização municipal cascalense, onde a capacidade de eleger juízes, oficiais e o direito de jurisdição cível e crime se tornavam comuns ao que acontecia nos outros concelhos do Reino[1]. Tal mercê não foi concedida sem as habituais obrigações para com a Coroa, sendo que, neste caso concreto, acarretavam o pagamento de um elevado imposto anual de 200 libras, suportado pelos seus habitantes, para além dos direitos de que a população lhe era tributária.

A carta original não chegou até aos nossos dias, restando apenas uma cópia documental de meados do século XV presente no único dos dez livros de chancelaria de D. Pedro I que perdurou. Eis os pontos fundamentais que o documento determina e que foram destacados pelo historiador cascalense A. H. de Oliveira Marques:

1 – Que daí em diante Cascais ficasse isenta de qualquer sujeição a Sintra e fosse considerada vila.

2 – Que tivesse jurisdição cível e crime própria, tal como acontecia nas outras vilas do Reino.

3 – Que elegesse juízes e oficiais segundo as normas dos outros municípios.

4 – Que pagasse 200 libras anuais ao rei, além de todos os demais direitos reais a cobrar no território do novo concelho.

No entanto, como observou Oliveira Marques, este documento não definia nenhum território que ficasse como termo da nova vila, pelo que, aparentemente, apenas o povoado próximo do porto se considerava doravante autónomo em relação a Sintra[2]. Foi por carta régia de 8 de Abril de 1370[3], outorgada por D. Fernando I, que se veio a corrigir essa lacuna territorial. Nesse dia foi fundado o senhorio de Cascais e entregue, juntamente com o castelo da vila, a Gomes Lourenço do Avelar, heróico defensor de Ciudad Rodrigo que havia suportado um intenso cerco de dois meses feito pelas tropas de Henrique II, rei de Castela.

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Fig. 2 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 98.
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Fig. 3 – Transcrição da carta de vila de Cascais. Fonte: A. H. de Oliveira Marques.
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Fig. 4 – Cascais de meados do século XV numa gravura do século XVIII.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Carta de Vila de Cascais de 1364. Estudo e transcrição de A. H. de Oliveira MARQUES, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1989, p. 5. O documento outorgado tem a data de 1402, mas é necessário subtrair 38 anos, ficando assim em 1364, pois Portugal só adoptou a Era de Cristo em 1422. Até aí utilizava-se a Era Hispânica (ou Era de César), tendo esta um adiantamento de 38 anos em relação à Era de Cristo.

[2] Ibidem, pp. 11-12.

[3] ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. I, fl. 56, 1.ª col.

Diogo Cão em Cascais com o prisioneiro Eustache de La Fosse (1480)

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Fig. 1 – Capa da obra Crónica de uma viagem à costa da Mina no ano de 1480.

Decorria o ano de 1480 quando aportou em Cascais uma armada portuguesa possivelmente liderada por Diogo Cão[1], navegador que mais tarde viria a realizar 2 ou 3 viagens de exploração pela costa ocidental africana em busca do extremo Sul do continente[2]. A armada vinha da Costa da Mina, trazendo como prisioneiro Eustache de La Fosse, mercador flamengo que integrava uma expedição castelhana de 3 caravelas que haviam sido capturadas nessa área do Golfo da Guiné e que, anos mais tarde, viria a escrever um relato detalhado da sua viagem (fig. 1).

Chegado às águas da Mina a 17 de Dezembro de 1479, e estando numa área interdita a estrangeiros, Eustache de La Fosse já havia andado a comerciar escravos, preparando-se agora para atingir a aldeia portuária das Duas Partes. Este local estava situado na região de maior afluxo de ouro do Golfo da Guiné, próximo do sítio onde viria a ser erguida a feitoria-fortaleza da Mina. No entanto, antes de chegar àquela aldeia, a caravela de Eustache de La Fosse acabaria por ser atacada e interceptada por 4 caravelas sob comando aparente de Diogo Cão (7 de Janeiro de 1480). No dia anterior já as outras 2 caravelas castelhanas que integravam a expedição haviam sido capturadas pelos portugueses e levadas para a Mina[3].

Golfo da Guiné
Fig. 2 – Golfo da Guiné.
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Fig. 3 – Feitoria-fortaleza da Mina. Fonte: Georg Braun, Civitates orbis terrarum, 1572.

Pelo tratado de Alcáçovas, firmado a 4 de Setembro de 1479 por Portugal e Castela, celebrava-se a paz entre os dois reinos, pondo-se fim a uma guerra que vinha desde 1475. Nesse tratado Castela comprometia-se a reconhecer o direito português aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, bem como a todas as terras e ilhas já descobertas ou que viessem a ser descobertas a Sul das Canárias, reservando-se a navegação e o exclusivo comercial para Portugal. Portanto, ficava acordado que doravante apenas os portugueses poderiam navegar para Sul daquele arquipélago.

Neste seguimento, a presença de Eustache de La Fosse no Golfo da Guiné era uma clara violação do tratado recentemente firmado, pelo que os portugueses fizeram legítimo uso da força contra as 3 caravelas que se aventuraram por aquelas paragens. A rainha castelhana D. Isabel continuava a enviar outros navios secretamente para a Costa da Mina, facto que levou D. Afonso V, no dia 6 de Abril de 1480 (um mês após a ratificação do tratado de Alcáçovas), a conceder certos poderes aos capitães que o príncipe D. João enviava àquelas partes. Com efeito, ordenava-se que fosse apresado qualquer navio que violasse a linha de demarcação estabelecida no tratado, tanto de Castela como de outro Reino, e que as suas tripulações fossem lançadas ao mar “pera que mouram logo naturallmemte”[4].

Eustache de La Fosse, os seus homens e os das outras caravelas não foram lançados ao mar, uma vez que foram capturados três meses antes de o rei português ter dado aquelas ordens, as quais ainda não tinham chegado a Diogo Cão e aos restantes portugueses envolvidos na captura. Devido ao facto de terem feito muitos prisioneiros, os portugueses acabariam por libertar os marinheiros intrusos e o seus ajudantes. Devolveram-lhes uma das caravelas castelhanas e deixaram que partissem rumo a Castela com alguma água, biscoito, uma vela e uma âncora. No entanto, os restantes não tiveram tanta sorte. Na indecisão sobre o castigo que deveria ser aplicado aos homens mais importantes, ficou determinado que o mercador flamengo e outros seriam levados para Portugal. Já de regresso ao Reino, a última escala que a armada portuguesa fez foi nas ilhas de Cabo Verde. Sem haver mais informações de terra firme ou ilhas, nem sequer a passagem pelos Açores, que habitualmente era feita com recurso à volta pelo largo, os navios chegaram à costa portuguesa e ancoraram em Cascais:

         “E após várias jornadas mais [eis que] chegámos a Portugal na véspera do Pentecostes, cerca da meia-noite e deitámos âncora [frente] a Cascalaix [Cascais], vila que se situa na embocadura do rio de Lisboa. Logo na manha seguinte foi-se um cavaleiro até ao Rei para lhe anunciar a chegada das caravelas [vindas] da Mina de Ouro. Fomo-nos para Setomire [Setúbal], pois a peste reinava em Lisboa, e ali compareceram os comissários do Rei para se inteirarem sobre as novas anunciadas: o que trazíamos da Mina, o que era a semente do paraíso – e também para decidir o que seria feito de nós, [uma vez que] portugueses não éramos […]”[5].

Conforme atesta o trecho, quando as caravelas da Mina chegaram a Cascais deparam-se com dois factores que não permitiram a continuação da viagem para Lisboa. O primeiro tem a ver com o facto de a chegada àquele porto ter acontecido perto da meia-noite, sendo que não se arriscava uma entrada nocturna na sempre perigosa barra do Tejo, situação que obrigou os navios a permanecerem em Cascais até ao dia seguinte. O segundo factor está ligado ao surto de peste que grassava em Lisboa e que condicionava fortemente a viagem para a capital. Aliás, como aconteceu em muitos outros casos em que estava afectada a saúde pública devido a surtos de peste mais persistentes, chegava-se a proibir a entrada no rio Tejo e a continuação da viagem para Lisboa[6].

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Fig. 4 – O porto de Cascais em finais do século XV. Fonte: Georg Braun, Civitates orbis terrarum, 1572.

No dia seguinte à chegada a Cascais as caravelas rumaram a Setúbal. Quanto a Eustache de La Fosse, esse acabaria por ser condenado à forca por viajar até à Costa da Mina sem autorização do rei português. Porém, antes da execução da sentença e mediante a promessa de 200 cruzados a serem pagos em Sevilha, o flamengo conseguiu fazer razoado concerto com o carcereiro da prisão (Alcácer do Sal) acabando por fugir com alguns dos seus homens[7]. Muitos anos depois veio a legar-nos uma magnífica descrição onde abordou as peripécias da sua viagem à Costa da Mina e o consequente transporte como prisioneiro para Portugal, feito na sua própria caravela (La Mondadine), mas sob comando de Diogo Cão.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 71-72.

[2] António Manuel GONÇALVES, “Diogo Cão”, in Francisco Contente DOMINGUES (dir.), Dicionário da Expansão Portuguesa, 1415-1600, vol. I, Lisboa, Círculo de Leitores, 2016, pp. 209-211.

[3] Eustache de LA FOSSE, Crónica de uma Viagem à Costa da Mina no ano de 1480. Pról. de Joaquim Montezuma de CARVALHO. Trad. e adaptação do texto por Pedro ALVIM, Lisboa, Vega, 1992, pp. 62-63.

[4] Cf. Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas portuguesas […], Lisboa, Imprensa Nacional, 1892, pp. 45-46; Damião PERES, História dos descobrimentos portugueses, 4.ª ed., Porto, Vertente, 1992, p. 195; Ana Maria Pereira FERREIRA, Problemas marítimos entre Portugal e a França na primeira metade do século XVI, Cascais, Patrimónia Histórica, 1995, p. 218, n. 292.

[5] Eustache de LA FOSSE, op. cit., pp. 69-71.

[6] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 66 e 72.

[7] Eustache de LA FOSSE, op. cit., pp. 71-81.

Naufrágios no litoral de Sintra-Cascais em 1147

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Fig. 1 – Vista aérea do cabo da Roca. Fonte: http://www.e-cultura.sapo.pt/patrimonio_item/2513.

A referência documental mais antiga que se conhece de um naufrágio (ou naufrágios) ocorrido na costa de Sintra-Cascais remete-nos para 1147[1]. A 28 de Junho deste ano, vindo auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros, alguns navios da frota cruzada proveniente do Norte da Europa apanharam um temporal ao largo do litoral de Sintra-Cascais, situação que pôs em perigo a navegação e levou a naufrágios. Conforme descreve Raul de Glanville[2], um dos cruzados ingleses que participou na tomada de Lisboa e que escreveu sobre os acontecimentos, “o vento que soprava dos montes de Sintra açoutou os navios com tão grande tempestade, que se afundou uma parte dos batéis com a sua tripulação”[3].

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Fig. 2 – Invocação contra os diabos provocadores de naufrágios (segunda metade do século XV). Fonte: Paulo Lopes, O medo do mar nos Descobrimentos, Lisboa, Tribuna, 2009.

Tendo em conta que navios de diferentes origens geográficas e tipologias faziam parte desta frota de guerra, a qual era constituída por perto de 164 embarcações ou até mais[4], decerto que não foram propriamente batéis que vieram ao fundo com as suas tripulações. Perante tal tempestade, e embora o cruzado omita certos pormenores, a frota acabou por aportar e abrigar-se em Cascais, não seguindo directamente para Lisboa[5].

Muito embora os dados sejam bastante lacónicos, estamos perante um caso que vem enriquecer o conhecimento sobre os naufrágios ocorridos ao largo de Sintra e Cascais ao longo dos séculos, constituindo mais um exemplo do potencial arqueológico sub-aquático desta costa.

Figura 1
Fig. 3 – Sistema defensivo no Baixo Vale do Tejo durante o Período Islâmico (em construção).

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Sobre este assunto, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf.

[2] Seguimos o nome do cruzado com base no que a crítica historiográfica mais recente propõe (cf. Maria João V. BRANCO, “Introdução”, in A Conquista de Lisboa aos Mouros. Relato de um Cruzado. Ed., trad. e notas de Aires A. NASCIMENTO, 2.ª ed., Lisboa, Vega, 2007, pp. 28-30).

[3] Cf. Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um cruzado inglês que participou nos acontecimentos, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, p. 31.

[4] As fontes não são concordantes, chegando a ser referidos c. 164 navios, 170, 180, 190 ou até mesmo 200 (cf. Pedro Gomes BARBOSA, Conquista de Lisboa, 1147. A Cidade Reconquistada aos Mouros, Lisboa, Tribuna, 2004, p. 27; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 126-128 e 141).

[5] Crónica dos Cinco Reis de Portugal, vol. I, [Porto], Civilização, 1945, cap. XXI, pp. 92-93; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 127-129.

Está de volta o Arquivo de Cascais

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Fig. 1 – Capa do n.º 14 do Arquivo de Cascais. Passeio D. Maria Pia (1890).

Foi apresentado, no passado dia 7 de Maio perante uma plateia bem composta (FNAC do CascaiShopping), o n.º 14 do Arquivo de Cascais. História, Memória, Património (2015). As actividades de apresentação da obra e dos autores que contribuíram com artigos inéditos ficaram a cargo de Marco Espinheira, director municipal da Câmara de Cascais, Ana Paula Avelar, professora da Universidade Aberta, e Cristina Carvalho, professora da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

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Fig. 2 – Apresentadores da obra. Marco Espinheira, Ana Paula Avelar e Cristina Carvalho. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Depois de um longo interregno de dez anos, o n.º 14 deste Arquivo, iniciado em 1980, traz onze artigos de diferentes investigadores (três deles escritos em co-autoria), contando igualmente com um prefácio de Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais. O espaço cronológico em foco tem início no século IX e termina em 1974, tendo sido abordadas novas reflexões sobre a origem do topónimo Cascais e a possível ligação com o navegador Khashkhash, a passagem de Cristóvão Colon pelo porto desta vila quando voltou da primeira viagem ao serviço dos Reis Católicos (1493), o Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Cascais (1587-1941), a Estrada Nacional 9 – Cascais e Alenquer, o “brasão” da capela da Cidadela, o fundo Marqueses de Cascais no Arquivo da Casa de Louriçal, a figura de Gaston Landeck, a obra de António de Oliveira Bernardes na Casa de Santa Maria, bem como aspectos de informação e promoção turística oficial nas décadas de 1920-1930, o Rádio Clube Português e a guerra civil de Espanha e, por fim, um roteiro fílmico de Cascais e Estoril.

Este novo n.º do Arquivo de Cascais já está à venda na FNAC do CascaiShopping, local onde recentemente foram disponibilizadas outras obras de investigação editadas pela Câmara Municipal de Cascais, sendo que em breve estará igualmente disponível para consulta no site da Câmara. Para quem quiser consultar os 13 volumes anteriores poderá fazê-lo na Biblioteca Municipal de Cascais – Casa da Horta da Quinta de Santa Clara.

De vital importância para o conhecimento do passado cascalense, renovação histórica e divulgação perante o público, espera-se que doravante o Arquivo de Cascais possa retomar a periodicidade de outros tempos, continuando a trazer um contributo inter-geracional e inovador entre os vários investigadores que se dedicam ao estudo do passado deste concelho.

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Fig. 3 – Assistência durante a apresentação. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 4 – Índice do Arquivo de Cascais, n.º 14.
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Fig. 5 – Cronologia de publicação do Arquivo de Cascais.

Marco Oliveira Borges | 2016