O porto do Touro (Cascais) e o sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Sintra) entre a Antiguidade e a Idade Moderna

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Fig. 1 – Porto do Touro e sítio arqueológico do Espigão das Ruivas.

O local[1] conhecido como “porto do Touro”[2] situa-se próximo da Biscaia, no limite costeiro Noroeste do concelho de Cascais, um pouco a Sudeste do cabo da Roca, tendo sido utilizado até muito recentemente como porto de apoio à pesca. É ladeado a poente pelo sítio arqueológico habitualmente denominado “Espigão das Ruivas”, rochedo alto, sobranceiro ao mar, de acesso extremamente difícil e perigoso[3], estando já em território de Sintra, mas que tem vindo a ser referido erroneamente desde a década de 1880 como pertencendo ao concelho de Cascais. A arqueologia mostrou que estes locais tiveram uma utilização/ocupação que remonta à Idade do Ferro, com continuação durante o Período Romano e Idade Média, se bem que ainda não esteja devidamente esclarecido qual o tipo de aproveitamento e funcionalidade dos mesmos em períodos tão recuados. Na verdade, existem diversas dúvidas e diferentes interpretações sobre a presença humana nestes locais.

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Fig. 2  – Pormenor da costa de Cascais entre o cabo Raso e o porto do Touro (circundado).

O sítio arqueológico acima referido foi identificado na década de 1880 por Francisco de Paula e Oliveira[4], capitão de artilharia, antropólogo e funcionário da Direcção dos Trabalhos Geológicos entre 1886 e 1888, ano do seu falecimento[5]. Por esta altura, o investigador desenvolveu um importante trabalho de prospecção sistemática no concelho de Cascais, embora o seu falecimento repentino não tenha permitido o estudo da totalidade dos arqueossítios e materiais por si identificados. O relatório das suas observações acabaria por ser publicado postumamente sem que estivesse terminado[6]. Relativamente ao Espigão das Ruivas, erradamente colocado pelo autor em território de Cascais, Paula e Oliveira descreveu-o como sendo um rochedo muito escarpado e que, ao avançar para o mar, formava uma pequena península de acesso extremamente difícil, se bem que reconhecendo que aquela configuração provavelmente nem sempre teria sido assim. Nesse rochedo, o investigador referiu que havia identificado alicerces de edifícios, fragmentos de telhas e de cerâmicas, indícios que mostravam que o local havia sido habitado. Não tendo tido tempo para estudar aquelas ruínas, ou talvez se tenha furtado a isso pelo pouco interesse despertado, já que o investigador se importou mais com estações arqueológicas de carácter funerário[7], tornou-se difícil a Paula e Oliveira avançar com a sua possível funcionalidade e idade, ainda que o próprio não tenha tido dúvida quanto a uma antiguidade remota que recuava pelo menos até ao Período Romano[8]. Aliás, o investigador chegou a interrogar-se sobre a possibilidade desse arqueossítio ser o local onde havia sido erguido o templo (ou santuário) romano dedicado ao Sol e à Lua que se sabia ter existido no litoral de Sintra. Muito embora pelas indicações de Francisco de Holanda[9] e outros autores posteriores fosse perceptível que o dito templo havia sido construído no Alto da Vigia (Colares)[10], a hipótese de Paula e Oliveira viria a ser retomada e mantida até recentemente.

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Fig. 3 – Indicação do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas, ladeado pela praia do porto do Touro.

Durante muito tempo os investigadores posteriores a Paula e Oliveira não conseguiram localizar o Espigão das Ruivas, até porque o autor não apresentou nenhum mapa com a localização do sítio. Somente em 1991, mais de cem anos depois das averiguações de Paula e Oliveira pelo concelho de Cascais, é que este local veio a ser (re)descoberto, por intermédio de Guilherme Cardoso, vindo a sofrer uma intervenção arqueológica parcial nesse mesmo ano. A partir de então, passou a ser divulgado que o dito rochedo ficava ladeado do porto do Touro[11].

Os trabalhos arqueológicos decorreram entre 29 de Março e 10 de Abril. Naquele rochedo foi escavada uma estrutura pétrea rectangular de pequenas dimensões, com porta a Nordeste e já bastante danificada, situação que não permitiu aos arqueólogos determinar a sua utilidade. Para além disso, e dado o remeximento que toda a superfície do rochedo foi sofrendo ao longo do tempo, não foi possível destrinçar níveis estratigráficos[12]. Ainda que as evidências detectadas não tenham correspondido às expectativas geradas pelas averiguações de Paula e Oliveira e à possibilidade de ali poder ter existido o dito templo, foi dada a conhecer a descoberta de importantes materiais arqueológicos datáveis da Idade do Ferro que consistem em cerâmica de pasta fina de cor cinzenta e castanha, correspondendo a fragmentos de pequenas taças e ânforas[13].

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Fig. 4 – A difícil e perigosa subida ao Espigão das Ruivas (Julho de 2015).

Relativamente ao Período Romano, ficou referida a recolha de dois fragmentos de uma pequena taça em terra sigillata sudgálica (forma Drag. 24/25), da segunda metade do século I d.C., um cossoiro, fragmentos de telhas grossas (ímbrices), um anel (?) em fita de cobre, etc.[14]. Refira-se, igualmente, que ficou em aberto a possibilidade de este sítio arqueológico ainda ter estado em actividade durante a Idade Média.

Embora não se tenha conseguido compreender a utilidade da estrutura pétrea em causa, Guilherme Cardoso, trazendo o topónimo “Touro” à questão e a ligação com o mar, colocou a hipótese de ali ter existido “um antigo templo com imagem de um touro[15], animal que simbolizava o desenvolvimento da violência sem contenção e que se encontrava associado ao culto de Poseidon, deus grego do mar a que os Romanos chamaram Neptuno”. Outra hipótese, segundo o mesmo investigador, era “sugerida pela existência do culto lunar na Serra de Sintra e em toda a região desde a Pré-História”, permitindo assim “ligar o touro à Lua, símbolo da luz que, na noite escura, servia de guia aos navegantes”[16].

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Fig. 5 – Vista do Espigão das Ruivas para o Guincho e mar envolvente.
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Fig. 6 – Vista do Espigão das Ruivas para a praia do porto do Touro.

Inicialmente interpretado como um possível local de culto, posteriormente surgiu uma hipótese divergente e que coloca as ruínas da estrutura detectada naquele rochedo como sendo o que restou de um antigo farol usado já no tempo dos fenícios e com continuação pelo Período Romano[17]. Este tipo de estruturas, edificadas em pontos estratégicos da costa, serviam para indicar pontos de referência para orientação marítima e evitar naufrágios, permitindo que os navios mantivessem a necessária distância e prudência em relação a terra[18]. Foi salientado que a possível estrutura de sinalização não teria as características das torres de Cádis e da Corunha (“Torre de Hércules”) que serviram de farol, ou até mesmo da que poderá ter existido no estuário do Sado (Outão)[19] durante o Período Romano, se bem que estivesse próxima do Cabo da Roca, acidente geográfico merecedor de sinalização[20].

Uma outra hipótese sugere que as ruínas da estrutura existente no Espigão das Ruivas, rochedo na cota dos trinta metros, são o que restou de “uma pequena casa”[21]. Face aos “grandes recipientes de cerâmica ali descobertos, nomeadamente ânforas”, foi referido não haver dúvida de que o acesso ao sítio “se fazia por mar, visto que, por terra, seria difícil”[22]. Uma nova interpretação dos materiais arqueológicos ali exumados permitiu enquadrar alguns fragmentos de telha no Período Islâmico[23], sendo ainda apontada a presença visigótica no local[24].

No entanto, falta que se faça o estudo desenvolvido da estrutura, dos materiais arqueológicos ali detectados e a sua publicação integral. Aliás, sabe-se que os materiais da Antiguidade Tardia ali exumados foram apresentados num congresso no Verão de 2016 e que estão em fase de estudo mais aprofundado para publicação, pelo que em breve teremos novidades sobre o assunto. O mesmo virá a ocorrer, futuramente, com os materiais da Idade do Ferro. Espera-se que se possa vir a compreender de forma mais detalhada a cronologia de ocupação inicial do sítio, a integração dos materiais nos circuitos comerciais antigos e estabelecer possíveis paralelos com outros sítios arqueológicos da região.

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Fig. 7 – Barrotes de madeira no interior da estrutura pétrea.

Não havendo um consenso sobre a funcionalidade da estrutura detectada no Espigão das Ruivas, existem outros aspectos que precisam de ser aduzidos à discussão: será que a dita estrutura teve a mesma funcionalidade entre a Idade do Ferro e o Período Islâmico? Será que não sofreu modificações ao longo do tempo? Já vimos que as sucessivas fases de ocupação do sítio foram afectando os níveis arqueológicos anteriores, sendo que a isso podemos acrescentar uma presença humana em tempos mais recentes. Nas ocasiões que visitámos o Espigão das Ruivas constatámos que existem barrotes de madeira no interior das ruínas da estrutura pétrea visível à superfície e que a mesma apresenta, hoje em dia, um formato circular (fig. 8), situações que mostram que o local foi frequentado até muito recentemente e que sofreu novas alterações de ordem antrópica após as escavações de 1991.

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Fig. 8 – Ruínas de estrutura pétrea, hoje em dia de formato circular.

Contudo, as telhas do Período Romano e Islâmico ali detectadas sugerem que se estava perante um pequeno edifício que deverá ter funcionado como casa-abrigo, decerto ligado à navegação. Quanto aos fragmentos de ânforas e de terra sigillata exumados, poderiam estar associados a acções de desvio e descaminho de mercadorias vindas de Olisipo. Note-se que o porto do Touro e toda aquela costa também estavam na rota de uma linha comercial à escala regional que unia as villae do Ocidente do Municipium Olisiponense e Olisipo, sendo que alguns esteiros de mar outrora navegáveis serviam de ligação entre os dois pólos. É o caso do rio Lizandro (Mafra) e do rio de Colares (Sintra) – que no passado beneficiavam da entrada de um braço de mar para o interior dos seus territórios –, por onde teriam fluido navios e mercadorias envolvidas numa rede de ligações comerciais com Olisipo que teria estado activa sobretudo entre os séculos I-II e V d.C., havendo ainda elementos arqueológicos que permitem pensar numa maior antiguidade desses contactos navais[25]. É possível, inclusive, que a área do rio de Colares já tivesse alguma importância quanto à entrada e saída de mercadorias no âmbito do comércio regional do Bronze Final[26].

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Fig. 9 – Pormenor da área costeira entre Sintra e Lisboa com alguns arqueossítios da Idade do Ferro.

Um dos aspectos que desperta a atenção quando se visita o porto do Touro reside no facto de haver uma porção territorial útil mais alargada para o interior imediato e mais abrigada do que o exíguo sítio arqueológico escavado, sendo que entre a praia daquele porto e esse interior existem ruínas de edifícios e outros diversos vestígios de presença humana. Não teria havido já na Idade do Ferro, durante o Período Romano e Idade Média uma relação com esse interior imediato ao porto? Não teriam sido construídas habitações ou outro tipo de estruturas? Ademais, e apesar de apenas terem sido detectados vestígios arqueológicos da Antiguidade e Idade Média naquela área, não teria o local sido ocupado posteriormente, durante a Idade Moderna? É muito provável que tenha havido uma ocupação humana espacialmente mais alargada daquela área durante a Antiguidade e a Idade Média, sobretudo onde actualmente ainda se encontram ruínas de barracas e de algumas habitações geralmente referidas como tendo sido construídas por pescadores em tempos mais recentes, marcando a paisagem cultural marítima local. Talvez tenham existido ali grupos de pessoas que prestavam apoio à navegação, fazendo a ligação entre terra e o mar através de pequenas embarcações quando fosse necessário, e que já se dedicavam a usar o local como porto de apoio à pesca, algo que se deverá ter mantido ao longo de vários séculos. Essas pessoas, se seguirmos estas hipóteses, estariam igualmente associadas à funcionalidade da estrutura detectada no Espigão das Ruivas, que também poderá ter funcionado como vigia e local de sinalização do porto do Touro aos navegantes.

Tendo a área confinante ao dito porto um elevado potencial do ponto de vista arqueológico, era importante desenvolver trabalhos de prospecção nas imediações e possíveis escavações que pudessem trazer novidades e compreender melhor qual o tipo de ocupação humana desde tempos antigos. Do mesmo modo, e havendo a possibilidade de que outras enseadas das proximidades também tenham tido algum tipo de actividade, é essencial que se proceda à prospecção geofísica daquela área costeira. De uma forma geral, futuros trabalhos arqueológicos (em terra e mar) poderão levar a descobertas que permitam perceber melhor a ligação de todo aquele espaço com a actividade naval em épocas recuadas.

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Fig. 10 – Ruínas de habitações no território adjacente ao porto do Touro.
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Fig. 11 – Praia do porto do Touro.

Contrariamente ao que se possa pensar, quando falamos do porto do Touro estamos a indicar um local exíguo, com uma praia pequena, de seixos, sem areia e bastante rochosa, que não é acessível a navios de médias e grandes dimensões. Os navios que quisessem largar ferro naquela área tinham de ficar um pouco adiante da pequena praia para evitar o contacto com os rochedos, sendo aquelas imediações extremamente perigosas. A ligação com terra era feita através de pequenas embarcações que podiam varar, mas com maior segurança em períodos de preia-mar. O acesso à praia é bastante estreito, feito entre rochedos, sendo que ao mínimo desvio as embarcações a remos podiam chocar. Do mesmo modo, as embarcações que estivessem em terra – tal como aconteceu até recentemente – podiam ir para o mar, fosse para pescar ou para estabelecer contacto com navios, mas mais seguramente em períodos de preia-mar, mantendo-se os perigos.

Outro dos aspectos que também não pode ser posto de lado quando analisamos a importância do porto do Touro diz respeito ao seu enquadramento perante a presença humana desta região. O povoado das imediações que salta mais à vista, embora não esquecendo a villa romana de Miroiços (Malveira da Serra), é Casais Velhos (Areia), sítio que abrange uma área sobranceira às dunas do Guincho e que, segundo Guilherme Sarmento, poderá ter sido ocupado pelos romanos ainda no século I d.C.

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Fig. 12 – Vista do povoado romano/visigótico de Casais Velhos para a área do porto do Touro.

Durante a Idade Média o sítio arqueológico do Espigão das Ruivas ainda esteve em actividade, sendo que, de momento, é possível remontar a presença humana naquele local ao Período Visigótico e ao Período Islâmico[27]. É muito provável que, à semelhança de outros locais da costa de Sintra-Cascais que têm vindo a ser estudados, o porto do Touro tenha sido algo importante para a navegação muçulmana. Posteriormente, o local terá mantido ocupação ou, pelo menos, servido de apoio marítimo. Datam de 1253 (“portu Tauri”[28]) e 1370 documentos que aludem ao porto do Touro, indiciando assim a sua contínua utilização, ainda que os mesmos estejam inseridos no âmbito de delimitações territoriais, não referindo qualquer actividade portuária no local. Note-se, porém, que anteriormente a 1370 este sítio estava integrado no território de Sintra, sendo bastante curioso que o termo de Cascais, uma vez traçado, tivesse início precisamente nesse local.

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Fig. 13 – Pormenor da carta régia de 1370 que criou o senhorio de Cascais e concedeu-lhe um termo geográfico, começando pelo “porto do Touro” (ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. I, fól. 56, 1.ª col.).

Para uma cronologia compreendida entre os séculos XVI-XVII o porto do Touro terá mantido alguma importância. Nos tempos iniciais da Monarquia Hispânica, um tal de Rodrigo dos Santos, mestre de uma caravela oriundo de Cascais, havia sido contratado por Dom P.º Negro (embaixador do Congo) para transportá-lo secretamente a França. Com ele iriam outros companheiros partidários de D. António, prior do Crato, tendo o embarque sido acordado para aquele porto. Depois de reunidos no mosteiro de Colares, local indicado pelo mestre, que ali tinha um sobrinho como frade, descer-se-ia a serra de Sintra até ao dito porto para se embarcar pela noite. Porém, o súbito aparecimento de um homem chamado Diogo Cardoso, que não estava incluído no grupo inicial que faria a viagem secreta e que pedia que o levassem consigo, levantou forte desconfiança. Ao que parece, tendo sido rejeitada a sua inclusão no grupo, o intruso quis retornar a Lisboa já durante a noite, pelo que alguns “sospejtaram mal dele, e o qujzeram matar”, enquanto que outros se opuseram a tal desfecho[29]. Não se sentido à vontade com tal situação, e estando descoberto o segredo e a embarcação que os levaria até à caravela, a qual estaria frente ao porto do Touro, o grupo inicial acabou por abandonar o empreendimento e fugir.

Deste caso podemos reter alguns dados importantes. Em primeiro lugar, confirma-se que neste sítio havia uma ligação entre terra e o mar que era feita através de uma pequena embarcação e um navio de maiores dimensões, sendo esta uma actividade conhecida em Cascais, pelo menos no caso de Rodrigo dos Santos, mas que deveria estender-se a outros mareantes locais e ter alguma tradição. Neste sentido, não era por acaso que o porto do Touro estava a ser usado por esta altura, sendo muito provável que ocorressem outros tipos de ligações para além deste género de embarques. É muito provável que, nesta altura, já existissem estruturas naquele local e que pudessem, inclusive, ser reaproveitamentos de épocas mais antigas, servindo para apoio a quem usava o porto e a pequenos desembarques.

Para além do caso da tentativa de embarque na dita caravela, e que comprova a importância daquele local durante a Idade Moderna, existem referências cartográficas (séculos XVII-XIX) a um porto situado na fronteira entre a costa de Sintra e Cascais e que correspondem ao porto do Touro. O primeiro exemplar cartográfico conhecido, da autoria de Pedro Teixeira (1634), alude claramente ao “Porto do Guincho” (fig. 14), naquilo que será uma alusão ao porto do Touro, até porque o local, ainda hoje, é igualmente conhecido por Guincho Velho. Posteriormente, temos mapas dos arredores de Lisboa com alusões ao “porto do Guinel”, evidente corruptela de Guincho, e ainda outros, mais tardios, grafados com o topónimo “porto do Sinchel”, correspondendo todos ao porto do Touro.

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Fig. 14 – Faixa costeira entre o cabo da Roca e S. Pedro do Estoril. Destaque para o porto do Guincho e os dois navios ao seu largo (Pedro Teixeira, 1634). Note-se que a representação da costa de Cascais, nomeadamente a parte ocidental, surge algo fantasiada.

Tudo isto permite pensar, de facto, que este local teve certa importância durante a Idade Moderna, inclusive em séculos posteriores, e que ainda haveria uma ocupação humana do local. Pela sua posição abrigada e até estratégica, é muito provável que a costa de mar onde se encontra este local tenha servido de apoio a corsários e a piratas que esperavam nas imediações pela passagem de navios. Sabemos de diversos casos de corso e pirataria ocorridos no litoral de Sintra e Cascais entre finais da Idade Média e a Idade Moderna, pelo que o porto do Touro e arredores poderão ter sido usados nesse contexto. Na verdade, sabe-se que o cabo da Roca e a enseada de Assentiz, sítios muito próximos do referido local, foram estratégicos para este tipo de actividades[30].

Marco Oliveira Borges | 2017

[1] Este artigo de divulgação histórica, ainda que tendo sido sujeito a pequenas revisões e acrescentos, foi adaptado de um trabalho mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “A importância do porto do Touro e do sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Cascais) entre a Idade do Ferro e a Idade Moderna”, in História. Revista da FLUP, IV: 6 (2016), pp. 161-182. Disponível para consulta e descarregamento gratuito através do seguintes links: https://www.academia.edu/30738649/A_import%C3%A2ncia_do_porto_do_Touro_e_do_s%C3%ADtio_arqueol%C3%B3gico_do_Espig%C3%A3o_das_Ruivas_Cascais_entre_a_Idade_do_Ferro_e_a_Idade_Moderna_2016_http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/14581.pdf.

[2] Tal como vem referido na documentação medieval e moderna em português. Actualmente, também é conhecido por Porto Touro, Guincho Velho, Porto de Pescadores ou Secret.

[3] Na subida final requer mesmo escalada, existindo, actualmente, uma corda que pode ajudar a esse efeito. Em 1991, aquando das escavações arqueológicas no Espigão das Ruivas, essa corda ainda não estava no local. Agradecemos esta e outras diversas indicações fornecidas por Guilherme Cardoso.

[4] Francisco de Paula e OLIVEIRA, “Antiquités Préhistoriques et Romaines des Environs de Cascaes”, extrait des Communicações da Commissão dos Trabalhos Geológicos, II: I (1888-1892), pp. 10-11.

[5] João Luís CARDOSO e José Manuel ROLÃO, “Prospecções e escavações nos concheiros mesolíticos de Muge e de Magos (Salvaterra de Magos): contribuição para a história dos trabalhos arqueológicos efectuados”, in Estudos Arqueológicos de Oeiras, 8 (1999-2000), pp. 84 e 91.

[6] Francisco de Paula e OLIVEIRA, op. cit., pp. 1-27.

[7] Carlos FABIÃO, “100 anos de investigação arqueológica no concelho de Cascais”, in Arquivo de Cascais, 6 (1987), p. 45.

[8] Francisco de Paula e OLIVEIRA, op. cit., p. 11.

[9] Francisco da HOLANDA, Da fábrica que falece à cidade de Lisboa. Introd., notas e coment. de José da Felicidade Alves, [Lisboa], Livros Horizonte, 1984, pp. 90-92 e fl. 24v e 25.

[10] José Cardim RIBEIRO, “Estudos histórico-epigráficos em torno da figura de L. Iulius Maelo Caudicus”, in Sintria, III: I (1982-1983), p. 166; idem, “Felicitas Ivlia Olisipo. Algumas considerações em torno do catálogo Lisboa Subterrânea”, sep. de Al-Madan, II: 3 (1994), pp. 86-87; idem, “Soli aeterno Lvnae. Cultos astrais em época pré-romana e romana na área de influência da serra de Sintra: ¿um caso complexo de sincretismo?”, in Sintria, III-IV (1995-2007), pp. 596, 599-608 e 614-616; idem, “Soli aeterno Lvnae: o santuário”, in Religiões da Lvsitânia. Loquuntur Saxã, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 2000, pp. 235-239.

[11] Guilherme CARDOSO, Carta arqueológica do concelho de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991, p. 20.

[12] Idem e José D’ENCARNAÇÃO, “Sondagem no Espigão das Ruivas (Alcabideche, Cascais)”, in Al-Madan, II: 2 (1993), p. 150.

[13] Cf. Guilherme CARDOSO, op. cit., p. 31.

[14] Idem, ibidem, p. 31; idem e José D’ENCARNAÇÃO, op. cit., p. 150.

[15] Embora sendo apenas uma hipótese, uma imprecisão levou a que fosse dito que na estrutura pétrea havia sido detectada “uma gravura representando um touro” (cf. Ricardo SOARES, “Tartessos, um povo do mar. Génese da navegação, técnicas de construção e embarcações mediterrâneas e pré-romanas” (2008), (disponível em http://light-cyclops.blogspot.pt/2010/10/farol-de-pharos.html – consultada em 1/05/2015).

[16] Guilherme CARDOSO, op. cit., p. 20.

[17] Ana Margarida ARRUDA, Fenícios e Mundo Indígena no Centro e Sul de Portugal (séculos VIII-VI a.C.). Dissertação de Doutoramento em Arqueologia, Universidade de Lisboa, 2000, 3-17 e 3-18; idem, Los Fenicios en Portugal. Fenicios y mundo indígena en el centro y sur de Portugal (siglos VIII-VI a.C.), Barcelona, Universidad Pompeu Fabra de Barcelona, 2002, p. 29; idem e Raquel VILAÇA, “O Mar Grego-Romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente Peninsular”, in Francisco de Oliveira, Pascal Thiercy e Raquel Vilaça (coords.), Mar Greco-Latino, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006, p. 44; Carlos FABIÃO, “A Dimensão Atlântica da Lusitânia: Periferia ou Charneira no Império Romano?”, in Lusitânia Romana. Entre o Mito e a Realidade. Actas da VI Mesa Redonda Internacional sobre a Lusitânia Romana, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2009, p. 66.

[18] Ana Margarida ARRUDA, Fenícios e Mundo Indígena, 3-17 e 3-18; idem, Los Fenicios en Portugal, p. 29; idem e Raquel VILAÇA, op. cit., p. 44.

[19] Ou, inversamente, no cabo Espichel (cf. Maria Luísa BLOT, Os Portos na Origem dos Centros Urbanos. Contributo para a Arqueologia das Cidades Marítimas e Flúvio-marítimas em Portugal, Lisboa, Instituto Português de Arqueologia, 2003, p. 60; Jorge de ALARCÃO, “Notas de Arqueologia, epigrafia e toponímia – I”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, 7: 1 (2004), pp. 317-319 e 324).

[20] Carlos FABIÃO, op. cit., p. 66.

[21] Guilherme CARDOSO, Jorge MIRANDA e Carlos A. TEIXEIRA, Registo fotográfico de Alcabideche e alguns apontamentos historicoadministrativos, Alcabideche, Junta de Freguesia de Alcabideche, 2009, p. 393.

[22] Idem, ibidem, p. 30.

[23] Idem, ibidem, p. 35.

[24] Idem, ibidem, p. 38.

[25] Marco Oliveira BORGES, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Actas das Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma onda de Progresso, Almada, Escola Naval, 2015, pp. 152, 157 e 164.

[26] João Luís CARDOSO e Maria João SOUSA, “O Bronze Final na Serra de Sintra”, in Estudos Arqueológicos de Oeiras, 21 (2014), p. 366.

[27] Guilherme CARDOSO, Jorge MIRANDA e Carlos A. TEIXEIRA, op. cit., pp. 35 e 38.

[28] Pub. por Francisco COSTA, Estudos Sintrenses, I, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000, p. 97.

[29] Pedro de FRIAS, Crónica Del-Rei D. António. Estudo e leitura de Mário Alberto Nunes Costa, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1955, pp. 345-346.

[30] Marco Oliveira BORGES, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais”, pp. 162-164.

Está disponível a 2.ª edição da monografia de Colares

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No passado dia 26 de Novembro de 2016, no âmbito das actividades de evocação dos 500 anos do foral concedido por D. Manuel I a Colares, foi apresentada a 2.ª edição da monografia de Colares [1.ª ed., Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000]. A apresentação teve lugar na Escola Profissional Alda Brandão de Vasconcelos (EPAV), em Colares, tendo estado a cargo da professora Isabel Carvalho Homem, investigadora do Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Investigação em Ciências Históricas da Universidade Autónoma de Lisboa.

Da autoria de Maria Teresa Caetano, Doutorada em História da Arte e Investigadora Integrada no ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, esta obra, tendo sido revista e actualizada, conta com diversas novidades e um novo capítulo: “Idiossincrassias do extremo Ocidente” (fig. 2). De uma forma geral, nesta nova edição percorre-se um espaço cronológico que vai desde a Antiguidade romana até meados do século XX, com uma ampla diversidade de temas em análise, ainda que no capítulo intitulado “Tentativa de reconstituição da morfologia antiga da região” se tenha recuado até ao Holocénico. Se bem que esteja centrada em temas do actual território correspondente à freguesia de Colares, a obra é enriquecida com importantes paralelos estabelecidos com a vila de Sintra.

De consulta imprescindível para todos os interessados na História de Colares, e prevendo-se que venha a esgotar rapidamente, esta edição pode ser adquirida na Livraria Municipal de Sintra, cujo catálogo pode ser consultado on-line[1].

Outros estudos de Maria Teresa Caetano, que desde a sua adolescência se interessou pela história, património e etnografia de Sintra, podem ser consultados e descarregados na sua página da Academia.edu[2]. São diversos os temas que a investigadora tem abordado ao longo dos anos e que em muito têm contribuído para um melhor conhecimento da história de Sintra em épocas recuadas, destacando-se os que se prendem com a Antiguidade Tardia.

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Marco Oliveira Borges | 2017

[1] http://www.cm-sintra.pt/livraria-municipal-no-musa-%E2%80%93-museu-das-artes-de-sintra#títulos-disponíveis-em-pdf

[2] https://lisboa.academia.edu/MariaTeresaCaetano

Inauguração do novo Arquivo Histórico Municipal de Cascais

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Casa Sommer – Arquivo Histórico Municipal de Cascais.

Inaugurado no passado dia 7 de Dezembro de 2016, o novo Arquivo Histórico Municipal de Cascais encontra-se sedeado na Casa Sommer, junto à igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção. A cerimónia de inauguração foi dirigida pelo presidente da autarquia local, Carlos Carreiras, e pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

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Público que assistiu à inauguração.

Após vários anos em obras de requalificação, estão finalmente prontos os dois edifícios que compõem a famosa Casa Sommer. No edifício principal, voltado a Sul, encontra-se a livraria municipal, várias salas de exposição, uma sala de atendimento e outra de leitura. No outro, que funcionou como antiga cocheira e que se encontra a Norte, estão situadas as salas de gabinete técnico, de expediente e de recepção de documentação. Os dois edifícios são ligados por um corredor subterrâneo onde se situa o depósito do novo arquivo, guardando actas municipais cuja antiguidade remonta a meados do século XVII.

Assumindo-se igualmente como Centro de História Local, acessível a todos os cidadãos e a investigadores interessados em consultar as fontes disponíveis para a reconstituição histórica do passado local, o novo arquivo está aberto de 2.ª a 6.ª-feira, das 9 às 17 horas, e aos Sábados, Domingos e feriados, das 10 às 18 horas. Para informações mais detalhadas, consulte a seguinte ligação: http://www.cm-cascais.pt/noticia/casa-sommer-ja-pode-ser-visitada.

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Parte do público que assistiu à inauguração do Arquivo Histórico Municipal.

Marco Oliveira Borges | 2016

O petroleiro “Tokyo Spirit” encalhado em Cascais (2015)

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Fig. 1 – Momentos iniciais do encalhe em Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No final da manhã de 17 de Outubro de 2015, durante um forte temporal, o petroleiro Tokyo Spirit encalhou na costa de Cascais. As informações que circularam sobre a presença deste navio no litoral cascalense são contraditórias. Por um lado, foi avançado que o Tokyo Spirit estava fundeado nesta costa alegadamente à espera de entrar na barra do Tejo, onde iria ser alvo de reparações. Por outro, também foi referido que o seu destino era o estaleiro da Lisnave, em Setúbal, o que veio a acontecer posteriormente. Mais contradições surgiram, desta vez relacionadas com o real motivo que levou à perda de controlo do navio, à consequente aproximação da costa de Cascais e encalhe, sendo este um assunto que não ficou bem esclarecido. Numa das versões é referido que, enquanto aguardava ordens do armador para rumar a um estaleiro, este petroleiro com a bandeira das Bahamas acabou por perder a amarra de estibordo e ser empurrado para terra pela força do mar, encalhando assim em frente ao farol da praia de Santa Marta.

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Fig. 2 – “Tokyo Spirit” encalhado em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 3 – Vista a partir da marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

4O Tokyo Spirit é um navio de 78 mil toneladas e 274 metros de comprimento, tendo sido construído no Japão em 2006. Face à presença ameaçadora deste gigante transportador de petróleo na sua costa, os habitantes locais temeram prontamente um desastre ambiental. Se as autoridades cascalenses, que acompanharam o acontecimento desde o pedido de socorro (12:01), sabiam que o navio tinha os tanques vazios, por outro lado, essa informação ainda não era conhecida das pessoas que inicialmente assistiam surpreendidas ou daquelas que iam visualizando algumas imagens e vídeos que rapidamente começaram a circular nas redes sociais[1]. Só um pouco depois é que começou a ser divulgado que este navio de casco duplo vinha sem carga, tendo descarregado os materiais dias antes em Gotemburgo, ainda sob o nome Princimar Loyalty (registado na Libéria). No entanto, o perigo de possível derrame de hidrocarbonetos não esteve totalmente afastado, sendo de referir os resíduos de crude existentes a bordo e uma certa quantidade de combustível que o Tokyo Spirit tinha para seu próprio funcionamento.

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Fig. 5 – Perspectiva ampliada do “Tokyo Spirit”. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O navio encalho inicialmente em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 7 – Vista a partir da Marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 8 – Perspectiva a partir da praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

A notícia deste encalhe espalhou-se rapidamente pela Internet e teve, durante algum tempo, cobertura em directo por várias estações de televisão, facto que atraiu milhares de pessoas que ao longo da tarde de Sábado e já no dia seguinte se deslocaram a Cascais. Durante a tarde de Sábado, com a força do mar, o Tokyo Spirit desencalhou do local onde inicialmente havia encalhado, vindo a encalhar mais a nascente, junto à entrada da marina de Cascais.

9As operações iniciais para desencalhar este petroleiro foram efectuadas durante a preia-mar (18:30), contando-se com o auxílio de quatro rebocadores vindos de Lisboa. A bordo do Tokyo Spirit permaneceram as 22 pessoas que compunham a tripulação, visto que o comandante do navio recusou que fossem resgatadas pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa destacado para o local, alegando que não corriam perigo e que estas iriam auxiliar durante os trabalhos. Gorada a primeira operação de tentativa de desencalhe, tiveram de ser deslocados meios mais potentes e sofisticados para auxiliarem nos trabalhos: dois rebocadores vindos de Sines e um de Setúbal.

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Fig. 10 – Perspectiva durante a tarde de Sábado. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 11 – Os quatro rebocadores na operação de Sábado à tarde. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Por fim, durante a tarde do dia seguinte e já depois da deslastragem do navio, sete rebocadores a trabalhar em conjunto conseguiram desencalhar o petroleiro, sendo de enaltecer o empenho e eficiência das entidades envolvidas na operação. De seguida, o Tokyo Spirit foi rebocado para uma zona de fundeadouro da costa de Cascais e, posteriormente, levado para Setúbal.

A população local respirou de alívio! No entanto, não foi a primeira vez que tal tipo de acontecimento teve lugar na costa de Cascais e certamente que não será o último. Aliás, a história de Cascais é rica neste tipo de acidentes e naufrágios[1], sendo que os testemunhos históricos mais antigos remetem-nos para 1147, altura em que alguns navios das forças cruzadas que vieram auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros naufragaram entre Sintra e Cascais[2].

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Fig. 12 – Graças ao molhe de protecção da marina o petroleiro não se deslocou mais para terra. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 13 – “Tokyo Spirit” já ao largo depois do desencalhe. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No fundo do mar de Cascais ficou uma amarra e um ferro que o Tokyo Spirit havia perdido durante o temporal. Somente em Maio de 2016 é que se procedeu à remoção destes materiais, sendo recolhidos mais de 300 metros de amarra, num total de cerca de 70 toneladas, enquanto que o ferro tinha perto de 11 toneladas[3].

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Fig. 14 – Amarra recuperada. Fotografia: Autoridade Marítima Nacional.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Algumas filmagens deste encalhe podem ser visualizadas na seguinte página: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/.

[1] Cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na rota dos naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2006.

[2] Sobre estes naufrágios pouco falados, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf. Sobre este assunto, cf. igualmente https://sintraecascais.wordpress.com/2016/05/14/naufragios-no-litoral-de-sintra-cascais-em-1147/. 

[3] http://www.amn.pt/Media/Paginas/DetalheNoticia.aspx?nid=578 (consultada em 24/05/2016).

Uma visita ao bairro dos Pescadores (Cascais): em busca de vestígios de actividade piscatória recente

Fig. 1
Fig. 1 – Pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes (Julho de 2016).
Fig. 2
Fig. 2 – Outro pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Situado a Norte da vila medieval de Cascais, o bairro dos Pescadores, inaugurado na década de 1940, foi um dos sítios em que se edificaram casas para albergar as famílias dos homens do mar locais. Habituado desde pequeno a ver embarcações, apetrechos e artes de pesca neste bairro, recentemente decidi voltar ao local com o propósito de observar quais os vestígios de actividade piscatória que ainda são visíveis a quem passa por ali. No entanto, a maior curiosidade residia na dúvida se a escassa presença de “chatas” na praia da Ribeira[1] (apenas 3 e de pequenas dimensões) era explicada com a sua presença naquele bairro. Assim, peguei na bicicleta e lá fui para mais uma deslocação pelo território cascalense. O sossego, que parece continuar a reinar neste local, foi apenas interrompido por alguns cães que vieram dar as “boas vindas” ao curioso que se deslocava sobre duas rodas.

Fig. 3
Fig. 3 – Destaque da proa da chata “Santa Luzia”.

Entre “chatas”, “aiolas”, “cocos”, “botes”, etc., foram muitas as embarcações que, ao longo das décadas, sobretudo durante os meses de Inverno, vieram parar a este sítio, ficando estacionadas junto à casa dos respectivos proprietários, retornando à praia da Ribeira apenas com a vinda de bom tempo. Outras deixaram definitivamente de ser deslocadas para a praia, devido à reforma dos seus proprietários, à sua morte ou por estarem bastante degradadas, acabando por ser levadas para fora do bairro. Se antigamente as embarcações estacionadas neste local eram em maior número, as averiguações que fiz revelaram apenas cinco: quatro botes e uma barca. Quanto a “chatas”, embarcações típicas de Cascais, apenas se podem observar os restos da proa e da popa da “Santa Luzia”.

Estamos perante um magro cenário, revelador do desaparecimento acelerado das embarcações tradicionais de outrora, especialmente das “chatas”, se bem que noutros locais do concelho ainda devam existir algumas em propriedades de pescadores.

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Fig. 4 – Popa e proa da “Santa Luzia”.
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Fig. 5 – Bote junto ao que resta da “Santa Luzia”.
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Fig. 6 – O bote “Arminda e Ricardo”.
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Fig. 7 – O bote “Veiguinhas”.
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Fig. 8 – Aspecto da “Selesa”.

Em todo o caso, a deslocação ao bairro dos Pescadores mostrou duas embarcações que despertaram enorme surpresa. A “Selesa”, bote em que tive oportunidade de fazer algumas pescarias à lula e às redes há muitos anos atrás, permitindo relembrar algumas aventuras. Actualmente, está matriculada em Tavira. A outra embarcação que surpreendeu foi uma barca de Sesimbra (matriculada na Trafaria) que encalhou na praia da Rainha durante o temporal de Outubro do ano passado. Detendo o nome “Seremos Felizes”, trata-se de uma barca com mais de 50 anos, inicialmente usada na pesca ao peixe-espada[2]. Foi adquirida por um pescador de Cascais após o referido temporal, estando ali para que se proceda ao seu reparo.

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Fig. 9 – Interior da “Selesa”.
Fig. 10
Fig. 10 – A barca “Seremos Felizes”.
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Fig. 11 – Outro pormenor da mesma barca.
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Fig. 12 – Um covo.

No que respeita às artes de pesca, são visíveis alguns covos e apetrechos junto a certas habitações, mas apenas em reduzido número. A reforma, o gradual falecimento de antigos pescadores e a parca integração de gente nova da terra na vida marítima, fazem com que estes materiais e embarcações sejam cada vez menos visíveis no bairro dos Pescadores e noutros locais do concelho de Cascais onde outrora marcavam presença.

Seria injusto, num texto desta natureza, não aludir igualmente às varinas locais, às que antigamente exerciam actividade em plena praia da Ribeira, esperando os maridos e outros familiares que vinham do mar com o peixe que os sustentava, bem como às que actualmente trabalham no mercado de Cascais. Assim, para além de inúmeros pescadores, este bairro viu nascer e crescer diferentes gerações de varinas, algumas ainda no activo. No entanto, deixarei este assunto para um texto futuro mais desenvolvido.

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Fig. 13 – Atrelado junto a uma das habitações.
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Fig. 14 – Alcatruzes de barro, pintados a verde, servem de decoração.

Não se pode terminar este périplo sem referir outros aspectos que saltam à vista de quem passa pelo bairro do Pescadores. É o caso da decoração exterior de certas habitações com elementos ligados ao mar. Destaque para os azulejos com imagens de navios e algumas figuras religiosas, não esquecendo igualmente a integração de artes de pesca. Para este último caso, é de referir o muro de uma habitação que se encontra decorado com alguns alcatruzes de barro, tal como outro que contém bóias, âncoras e outros apetrechos.

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Fig. 15 – Decoração com diversos apetrechos marítimos.
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Fig. 16 – Painel de azulejos com dois navios.
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Fig. 17 – Nossa Senhora dos Navegantes.
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Fig. 18 – Mais dois navios.
Quim da Lota
Fig. 19 – A venda de peixe ainda é feita por alguns moradores do bairro.
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Fig. 20 – Placa toponímica alusiva à Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Por fim, é de referir uma figura religiosa presente numa pequena casa-abrigo colocada na rua Nossa Senhora dos Navegantes (figs. 21-23), mas que tem levantado larga controvérsia e diferentes perspectivas quanto à invocação a que está ligada. Se há quem diga que se trata da representação de Nossa Senhora dos Navegantes, o que faria mais sentido tendo em conta a tradição local, outros testemunhos orais sugerem que seja Nossa Senhora da Assunção ou até mesmo Iemanjá. A ideia de que se está perante a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é a que mais prevalece entre os relatos recolhidos. Contudo, olhando para outras imagens relativas à mesma invocação, inclusive para uma que se encontra no mesmo bairro (fig. 17), não existem quaisquer afinidades representativas em relação à que se encontra na referida casa-abrigo. Numa das versões orais que recolhi foi dito que, inicialmente, era Nossa Senhora dos Navegantes que estava representada naquele local. Porém, os furtos ali ocorridos implicaram consequentes substituições das figuras levadas, estando agora naquela casa-abrigo (fechada a cadeado) uma figura com outra invocação. Por outro lado, num testemunho diferente, foi referido que, de facto, aquela figura religiosa será mesmo Nossa Senhora dos Navegantes, se bem que fora dos seus moldes habituais, reflectindo a visão de quem a fabricou ou mandou fabricar. Não sendo possível conciliar os diferentes discursos orais recolhidos e garantir com exactidão qual a figura ali representada, o assunto fica por esclarecer.

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Fig. 21 – Figura atribuída a Nossa Senhora dos Navegantes, mas que levanta sérias dúvidas.
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Fig. 22 – Ibidem.
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Fig. 23 – Ibidem.
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Fig. 24 – Entrada de forno de cal antigo, actualmente tapado por terra e pedras.
Palmeira
Fig. 25 – Palmeira na Rua Nossa Senhora dos Navegantes (Julho de 2015).

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Também conhecida por praia dos Pescadores ou do Peixe.

[2] Sobre esta barca e o temporal de Outubro de 2015, veja os seguintes links: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1674582416115061/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675015149405121/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675024332737536/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1652234711683165.1073741829.1652023238370979/1675936112646358/?type=3&theater.

Uma noite de pesca ao polvo na embarcação “Horizonte Aberto” (Cascais)

Fig. 2
Fig. 1 – “Horizonte Aberto” na amarração.

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Fig. 2 – “Horizonte Aberto” visto de Sul.

Já passa da meia-noite. A companha do “Horizonte Aberto”, embarcação do estilo traineira construída em 1998 (Figueira da Foz), reúne-se no pontão mais recente de apoio aos pescadores de Cascais para a sua jornada de trabalho. O mestre, Miguel Diogo, também está a chegar. Finalmente embarcados no bote que faz o transporte do pessoal e do material até à embarcação de pesca, presa à amarração, um dos elementos da companha expressa a sua surpresa por nessa noite serem acompanhados por um historiador. Ausente das lides da pesca embarcada já há alguns anos, tive a oportunidade de voltar ao mar durante essa noite, desta vez apenas enquanto observador, pronto a recolher os elementos que permitissem fazer um resumo escrito da apanha do polvo-comum (Octopus vulgaris).

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Fig. 3 – Elemento da companha, oriundo da Ericeira, a tirar um polvo do alcatruz.

O mar estava relativamente calmo. O local em que decorreram as actividades foi a área costeira de Cascais e ao largo da barra do Tejo, entre 4 a 6 milhas de distância de terra, onde as teias de alcatruzes e de covos presentes no fundo do mar (20 a 50 braças de profundidade) vão permitindo a entrada e abrigo aos polvos. Se os alcatruzes não necessitam de isca para atrair aquela espécie carnívora de cefalópodes, os covos, pelo contrário, estavam a ser iscados com caranguejo proveniente de Setúbal, se bem que esta seja uma arte de pesca em que, frequentemente, também se usa a sardinha ou a cavala.

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Fig. 4 – Alcatruzes prontos para largar ao mar depois de terem fornecido dois polvos.
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Fig. 5 – Vira-se uma teia de covos.
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Fig. 6 – Retira-se um polvo do covo.
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Fig. 7 – Caranguejo de Setúbal usado como isca nos covos.

Investigações recentes mostraram que o polvo-comum capturado na costa de Cascais e ali desembarcado é de grande frescura e de elevada qualidade[1], sendo este mais um atractivo para quem quiser visitar esta vila e saboreá-lo nos diversos restaurantes e tascas. No caso do “Horizonte Aberto”, e para se conseguir uma elevada frescura dos exemplares capturados, uma mangueira ligada a uma bomba que puxa água do mar vai mantendo o polvo-comum fresco até se chegar a terra. De uma forma geral, esta é uma espécie que assume enorme importância no que respeita às capturas locais, representando uma grande fatia do pescado descarregado em Cascais[2].

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Fig. 8 – Mestre Miguel Diogo no comando das operações.

No entanto, a experiência a bordo do “Horizonte Aberto” não foi marcada apenas pelos aspectos especificamente ligados à pesca do polvo. A embarcação está dotada de um sistema tecnológico avançado, com radares que permitem compreender toda a movimentação marítima na área envolvente, o enquadramento geográfico em relação a terra, etc., fornecendo assim enorme segurança a quem exerce a actividade. Durante os trabalhos o mestre teve oportunidade de explicar diversos pormenores das movimentações marítimas e particularidades oceânicas desta área geográfica, como foi o caso dos enfiamentos da barra do Tejo por onde entram e saem os navios, algo bastante familiar face aos estudos histórico-arqueológicos para épocas mais recuadas que têm vindo a ser desenvolvidos.

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Fig. 9 – Pormenor da costa de Cascais e barra do Tejo.
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Fig. 10 – Pormenor da costa de Cascais.
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Fig. 11 – Radar Koden em funcionamento.

Por fim, depois de uma jornada produtiva, retornámos ao porto de Cascais já pelas 10:00 da manhã sob denso nevoeiro. Pouco depois procedeu-se à passagem das caixas de polvo para o bote de apoio e à consequente descarga no pontão antigo, contando-se com o auxílio de uma grua. Deste sítio o polvo foi levado de carrinha para ser vendido em Sesimbra.

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Fig. 12 – Limpeza de covos a bordo.
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Fig. 13 – Ao regressarmos a terra passámos perto do navio Elka Eleftheria (Monrovia). 
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Fig. 14 – Pormenor da entrada da Marina de Cascais.
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Fig. 15 – Registo recente do diário de bordo.
Mestre e companha
Fig. 16 – Mestre e companha do “Horizonte Aberto” (Agosto de 2016).
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Fig. 17 – Resultado final.
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Fig. 18 – Descarga do polvo.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Ana LEONARDO, Estudo da qualidade do polvo-comum (O. vulgaris) capturado na baía de Cascais. Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, 2010, pp. III e 42.

[2] Idem, ibidem, pp. 3-4.

Um amolador em Cascais, profissão rara nos nossos dias

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Fig. 1 – Joaquim Castro, amolador de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Quase ao final da manhã, misturado com o ruído das obras públicas que decorrem no centro de Cascais, um som característico acaba por se distinguir e chamar a atenção dos moradores mais atentos. É o raro som de uma gaita, usada apenas pelos amoladores que, cada vez em menor número, percorrem as ruas a pé empurrando a sua bicicleta ou mota, com o objectivo de assinalarem a sua presença e de colocarem os seus serviços à disposição do freguês que necessitar. Habituado a este som desde criança, há muito tempo que não o oiço com tanta frequência, sendo cada vez mais uma raridade.

Mas o que é um amolador? O amolador é um comerciante ambulante especializado em amolar (afiar) facas, tesouras e outros utensílios cortantes, mas também em reparar chapéus-de-chuva. Joaquim Castro é o amolador que, todas as quintas-feiras, vem ao centro de Cascais na sua bicicleta, uma pasteleira que diz ser de 1915. Devidamente equipada com diversos utensílios fundamentais ao seu trabalho, é de destacar a pedra de amolar, tendo esta uma forma circular. Estando nesta profissão por tradição familiar, Joaquim Castro diz que percorre as ruas do concelho de Cascais há 50 anos, tendo chegado a prestar os seus serviços igualmente em Oeiras e Lisboa.

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Fig. 2 – Amolador antigo.
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Fig. 3 – Amolador representado nos azulejos decorativos do exterior do Mercado da Vila de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Tendo eu um chapéu-de-chuva a precisar de ser arranjado, decidi ir ao encontro do amolador. Contudo, face ao barulho provocado pelas máquinas que procedem às ditas obras, conjugado ainda com o ruído dos veículos que circulam pelas ruas, apenas ao fim de cerca de 300 m percorridos foi possível encontrar o amolador que, espaçadamente, ia assinalando a sua presença ao som da gaita. Assim, caminhei por um trajecto que me levou da Igreja dos Navegantes, pela rua com o mesmo nome, passando pela Rua Marques Leal Pancada, até à Rua Manoel Vieira de Araújo Viana, a qual integra um espaço outrora no interior da muralha medieval de Cascais.

Ao solicitar o arranjo do chapéu-de-chuva, e vendo o moleiro que, com a pressa que sai de casa à sua procura, esqueci-me de o trazer, disponibilizou-se gentilmente para voltar atrás no seu trajecto e tratar do reparo, o seu segundo do dia. Já de novo junto à Igreja dos Navegantes, Joaquim Castro diz: “É um chapéu automático. Tem aqui um bom chapéu. Tem apenas uma vareta partida”. Feito o reparo, o amolador seguiu o seu caminho de rua em rua, não sem antes aceder ao pedido que lhe fiz para tirar mais umas fotografias, colocando prontamente a gaita na boca e soltando aquela sonoridade típica, imagem de marca desta profissão.

Em pequeno, lembro-me de um outro amolador que morava aqui no centro de Cascais e que, em vez de bicicleta ou mota, empurrava apenas uma roda. Penso que o seu nome, ou alcunha, era “Ferrer”. Cada vez mais rara nos dias que correm, eis uma profissão em vias de extinção.

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Fig. 4 – O amolador serve-se do martelo. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 5 – Colocação de nova vareta no chapéu-de-chuva. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O amolador pronto para voltar ao seu percurso de rua em rua. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Marco Oliveira Borges | 2016