Do desconhecido “invisível” ao sábio “superior”: uma resposta a José d’Encarnação

Em Março de 2017, no âmbito do I Colóquio Ibérico de Paisagem – O estudo e a construção da Paisagem como problema metodológico, realizado em Lisboa, apresentei uma comunicação intitulada “Paisagem cultural marítima de Sintra: uma abordagem histórico-arqueológica”. Um dos locais aí abordado, a par do Espigão das Ruivas, do cabo da Roca e da enseada de Assentis, foi o Alto da Vigia. Como em qualquer outro evento científico do género, a seguir às comunicações houve um momento para a colocação de questões e o esclarecimento de dúvidas. É, sobretudo, nestas alturas que o investigador pode ser directamente posto à prova pelos congéneres da sua área. Isso é sempre bastante proveitoso, pois permite ouvir críticas ou perspectivas diferentes e, consoante os casos, corrigir aspectos e ir um pouco mais além no conhecimento. Naturalmente que respondi às questões e observações que me foram colocadas naquela altura, inclusive já em off, e só tenho de agradecer os comentários.

Poucos meses após o referido colóquio foram disponibilizadas (online) as actas, distribuídas em três volumes, coordenados por Pedro Fidalgo, sendo que no terceiro encontra-se o artigo que escrevi[1]. Já a 12 de Junho de 2020, usei uma parte desse artigo – aquela que aborda o Alto da Vigia durante o período romano – para um texto de divulgação que foi publicado no meu blogue sobre a história de Sintra e Cascais[2]. Tive o cuidado de mencionar, em nota de rodapé, de onde provinha o texto, ainda que o mesmo apresentasse ligeiras modificações, aspecto que também indiquei.

Entretanto, ontem fui informado de que o professor José d’Encarnação tinha colocado um texto no “Archport” a criticar o meu post sobre o Alto da Vigia (em anexo). Caso não tivesse sido avisado sobre o assunto, nada saberia sobre isto, pelo que também não poderia fazer a minha defesa. Pelo tom baixo, exagerado e tendencioso do autor, que finge não conhecer o meu trabalho e percurso desenvolvido, é dado a entender que cometi um atentado deontológico e que ando a brincar aos investigadores. Porém, antes de seguir para as questões do Alto da Vigia, importa aduzir alguns factos para que se avive a memória.

Em 2010, depois de assistir a uma conferência que se realizou no Museu do Mar Rei D. Carlos, abordei José d’Encarnação, apresentei-me e expliquei que estava a investigar assuntos da história de Cascais e a reunir dados para uma tese de mestrado que iria desenvolver sobre o porto local durante o século XV. Nessa altura, Encarnação entregou-me um cartão de visita (ainda o tenho), de modo a que o pudesse contactar por e-mail, algo que fiz, obtendo uma resposta. Nunca mais falei com o visado, sendo que seria perfeitamente compreensível que não se lembrasse do que acabei de referir, pois já passaram dez anos e a memória pode pregar partidas. Todavia, não deixa de ser misterioso que, não conhecendo o meu trabalho de investigação e de divulgação, apesar dos vários contributos que têm sido publicados sobre a História de Sintra e Cascais desde 2012, o autor tenha citado um artigo meu num estudo recente que escreveu em co-autoria sobre o Espigão das Ruivas[3]. Posso acrescentar que José d’Encarnação teve publicado um texto no último número do Arquivo de Cascais (2015), sendo que também tive a oportunidade de participar com um artigo em co-autoria. Refira-se igualmente que Encarnação, desde Maio de 2015, faz parte de um grupo que criei no Facebook, intitulado “Arqueologia e História de Cascais”, pelo que pressuponho que vê ou já viu algumas das publicações ali feitas. Não querendo desenvolver aqui este tipo de assunto, que daria pano para mangas no contexto da história de Cascais, acrescento apenas que é muito estranho que Encarnação não tenha notado em nenhum destes aspectos que referi. É muita “desatenção” junta! Qualquer investigador no activo deve estar atento e actualizado, não apenas quando é conveniente.

Relativamente ao Alto da Vigia, talvez José d’Encarnação não saiba que estou em contacto com os arqueólogos do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas desde 2010 ou 2011, e que, em 2016, participei, durante alguns dias, na escavação arqueológica que decorre naquele local desde 2008. No entanto, com todo o respeito, reconhecimento e mérito que aqueles arqueólogos merecem, a quem só tenho a agradecer pela disponibilidade sempre demonstrada, isso não significa que se concorde com toda a interpretação que tem sido feita sobre o local. Isto da mesma forma que sei que algumas interpretações que eu e outros investigadores colocámos não são acolhidas. E existe algum mal nisso? Claro que não. Em vários artigos que tenho vindo a desenvolver, sobretudo para o período de ocupação islâmica, tenho citado os relatórios arqueológicos do Alto da Vigia, seguido indicações e, por vezes, apresentado interpretações que divergem ou que complementam aspectos que têm sido dados a conhecer. E isso acontece igualmente no post criticado por Encarnação, que, como se viu, só parece ter olhos e memória para o que lhe convém.

Sendo assim, que interpretações alternativas/complementares aduzi que não têm sido tidas em conta? De uma forma geral, penso que um sítio com as características do Alto da Vigia precisa de ser enquadrado mais aprofundadamente no contexto da história marítima local, ao longo dos diferentes períodos históricos, sendo que a colocação de hipóteses com base em diferentes dados dispersos pode ajudar a avançar no conhecimento. É nesse sentido que também tenho seguido as indicações de Maria Teresa Caetano, cuja monografia que elaborou sobre Colares é de consulta fundamental quando se abordam temas histórico-arqueológicos locais[4]. Neste contexto, tenho seguido diversas indicações e pistas deixadas, seja reforçando a ideia de navegabilidade para o interior do território, seja indicando novas interpretações e os vários vestígios arqueológicos que foram encontrados nas proximidades do chamado rio de Colares e que ajudam a pensar na antiga existência de estruturas ou de povoados. Veja-se, por exemplo, o caso do Mucifal, que tenho tido oportunidade de divulgar, indicando inclusive uma hipótese colocada oralmente por José Cardim Ribeiro: a de que as ânforas ali encontradas poderão estar associadas à produção local de preparados piscícolas e à existência de cetárias romanas na área do esteiro de Colares.

Seja como for, quem estiver minimamente atento ao que se tem produzido a nível científico, e não apenas ao conteúdo do post de Junho, vai notar que existem algumas diferenças interpretativas, sendo sempre interessante analisar a evolução de diferentes perspectivas de pensamento ao longo dos anos. Eis uma passagem muito importante que referi no artigo de 2017 e, posteriormente, no referido post, não sendo correcto, no seguimento do que fez José d’Encarnação, fazer a apresentação das ideias aí contidas através de pequenas citações truncadas, omitindo o resto do conteúdo:

“De qualquer forma, é muito provável que a área do Alto da Vigia e imediações, com larga extensão, tenham tido igualmente outras funcionalidades para além daquelas associadas ao santuário. Em tempos recuados, poderá mesmo ter havido uma extensão habitável. Essa situação seria facilitada por condições meteorológicas e oceanográficas mais aprazíveis à fixação costeira do que na actualidade, sendo na altura caracterizadas, nomeadamente, pela menor intensidade de vento e de agitação marítima. Isso deveu-se à fraca presença de upwelling no Ocidente ibérico[5], traduzindo-se esse factor, efectivamente, na parca intensidade da nortada e menor altura das ondas em relação ao que no presente se verifica[6], se bem que não se possa falar numa total ausência de vento[7]. Por outro lado, é possível que possa ter havido algum tipo de exploração económica romana nessa área, fosse ligada à terra ou ao mar. O mesmo se pode pensar nalgum tipo de edifício de apoio à navegação, talvez até um posto de controlo romano do acesso naval ao interior de Sintra. Recorde-se que em pleno século I d.C., altura em que os romanos terão construído o dito santuário, o esteiro de Colares era navegável, constituindo-se assim como um canal privilegiado de comunicação e ligação naval com o interior do território”.

José d’Encarnação, que parece não ter notado que o post resulta de um excerto de um artigo científico, refere “que não passa de um amontoado de citações”, assentes na “apresentação de hipóteses já por outros colocadas”. Se assim é, e para além dos aspectos que atrás assinalei, que diga, relativamente ao Alto da Vigia e às frases que citou, em que locais estas hipóteses têm sido destacadas em conjugação com a ideia de que, com condições meteorológicas e oceanográficas mais aprazíveis à fixação costeira do que na actualidade (o que tem sido apontado para a Antiguidade), outras estruturas e funções poderiam ter existido naquela área. No meio de diversos estudos e relatórios lidos a partir de 2009/2010, altura em que elaborei um trabalho sobre Sintra e Cascais para a cadeira de História Urbana Medieval, assim como outro para a cadeira de História da Marinha, sobre os portos de Colares, Touro e Cascais, pode ser que me tenha escapado algo.

O Alto da Vigia é um sítio de grande importância, sem dúvida, mas as interpretações ainda estão muito centradas no santuário e no período romano. A área onde se insere, quanto mais relacionada com a história local em longa duração e com as diferentes condições meteorológicas e oceanográficas atrás referidas – ainda que esta ideia pareça não ser consensual entre os investigadores da Antiguidade –, melhor será compreendida, até no contexto das navegações, pelo que estes são aspectos que devem ser enfatizados e explorados.

Olhando outro aspecto, tem sido referido que a descoberta de epígrafes romanas no Alto da Vigia, em 1505, coincidiu com a construção de uma vigia manuelina (até há pouco tempo interpretada como sendo um facho). No entanto, em 2017, avancei com a hipótese de que essa estrutura poderia ser mais antiga, sendo que o acontecimento de 1505 talvez estivesse relacionado apenas com obras de reparação/reformulação daquela estrutura. Eis mais um trecho do referido post, desta vez atestando o que acabou de ser dito:

“Ou seja, no sítio que desde 2008 está a ser alvo de intervenções arqueológicas, tendo a descoberta de 1505 coincidido com as obras de construção da vigia[8] acima referida ou que ou apenas com trabalhos de reparação/reformulação após uma possível destruição causada pelos sismos que terão ocorrido em 1504-1505. Estes sismos terão provocado estragos na torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais, por volta de 1494, e nas muralhas medievais da vila, pelo que poderá muito bem ter acontecido o mesmo em edificações da área costeira de Sintra. Terá sido neste sentido que o monarca ordenou que se reunissem meios monetários para que essas estruturas cascalenses entrassem em reparação, coincidindo assim com a altura das informações escritas por Valentim Fernandes, sendo que o documento que o comprova é de 12 de Agosto de 1505[9], três dias depois do achado no Alto da Vigia. Outros sismos ocorridos em anos posteriores, 1512, 1527, 1528 e 1531[10], poderão ter levado a estragos na estrutura do Alto da Vigia e a consequentes reparos que tenham implicado reformulações e alterações”.

Confesso que o titulo do post que escrevi sobre o Alto da Vigia poderia ser mais preciso, até porque ali não foi abordado o período islâmico, algo que inicialmente era para ter sido feito. Porém, quem tiver a oportunidade de ler o artigo que deu origem ao post e os meus outros trabalhos sobre Colares vai perceber melhor o que aqui tenho referido[11].

Por fim, resta dizer que, mais do que olhar para as questões do Alto da Vigia, o conteúdo do texto de José d’Encarnação revela uma atitude depreciativa e de pretensa superioridade moral e intelectual. Infelizmente, em certas áreas do conhecimento em Portugal – e não só –, o trabalho de investigadores mais jovens continua a ser desvalorizado, “invisível”, omitido. Aparecer e falar sobre um assunto, acrescentar algo, discordar do conhecimento produzido a nível institucional ou pôr em causa as ideias de uma “autoridade” académica, continua a ser visto – por alguns – como que uma falta de respeito ou até mesmo um crime de lesa-magestade. Mesmo que as instituições e as supostas autoridades possam, de certo modo, estar a fazer passar informações incompletas, desactualizadas ou erradas sobre um determinado tema. Parece que a melhor ou a única opinião tem de ser a mais antiga, sendo que o factor “idade” continua a pesar numa forma de pensar muito gasta e que, apesar de dissimulada, ainda se faz sentir com expressões do género: “quando cá cheguei vocês ainda não eram nascidos”. Contudo, as melhores hipóteses não são as mais antigas ou as mais recentes, mas sim aquelas que nascem da discussão e são melhor fundamentadas. O conhecimento está em constante reinterpretação, são sempre importantes novos contributos e existem princípios éticos que devem ser universais e intemporais, não apenas quando convém!

Marco Oliveira Borges | 2020

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[1] Marco Oliveira Borges, “Paisagem cultural marítima de Sintra: uma abordagem histórico-arqueológica”, in Pedro Fidalgo (coord.), Estudos de paisagem, vol. III, Lisboa, Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2017, pp. 230-272 (https://tinyurl.com/yatmhrxn).

[2] Idem, “O Alto da Vigia no tempo dos romanos: uma interpretação alternativa sobre este sítio arqueológico”, 2020 (https://tinyurl.com/yb3nmvjj).

[3] José d’Encarnação e Guilherme Cardoso, “O sítio arqueológico do Espigão das Ruivas (Cascais)”, Arqueologia em Portugal. 2017 – Estado da questão, Lisboa, Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2017, pp. 958-959.

[4] Maria Teresa Caetano, Colares, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000 [2.ª ed. revista, 2016].

[5] J. M. Alveirinho Dias, “A história da evolução do litoral português nos últimos vinte milénios”, in António Augusto Tavares, Maria José Ferro Tavares e João Luís Cardoso (eds.), Evolução geohistórica do litoral português e fenómenos correlativos. Geologia, História, Arqueologia e Climatologia. Actas do Colóquio. Lisboa, 3 e 4 de Junho de 2004, Lisboa, Universidade Aberta, 2004, pp. 165 e 167; António M. Monge Soares, “Identificação e caracterização de eventos climáticos na costa portuguesa, entre o final do Plistocénico e os tempos históricos – o papel do radiocarbono”, in Evolução geohistórica […], p. 194.

[6] Ana Margarida Arruda e Raquel Vilaça, “O Mar Grego-Romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente Peninsular”, in Francisco de Oliveira, Pascal Thiercy e Raquel Vilaça (coords.), Mar Greco-Latino, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006, p. 35.

[7] Cf. Avieno, Orla Marítima, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1992, pp. 22 e 47, n. 34.

[8] Alexandre Marques Gonçalves, Escavação arqueológica do Alto da Vigia (Colares-Sintra): relatório da intervenção realizada em 2015, 2016, p. 10 [policopiado]; José Cardim Ribeiro, “Ad Antiquitates Vestigandas. Destinos e itinerários antiquaristas nos campos olisiponenses ocidentais desde inícios a meados do século XVI”, in Gerard González Germain (coord.), Peregrinationes ad inscriptiones colligendas. Estudios sobre epigrafía de tradición manuscrita, Bellaterra, Universitat Autònoma de Barcelona, 2016, p. 140.

[9] Cf. Jaime D’Oliveira Lobo e Silva, Anais da vila da Ericeira. Registo cronológico de acontecimentos referentes à mesma vila, desde 1229 até 1943, 3.ª ed., Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 2002, p. 24; Marco Oliveira Borges, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, História. Revista da FLUP, IV: 5, 2015, pp. 106-108.

[10] Idem, ibidem, p. 108.

[11] Cf., e.g., Marco Oliveira Borges, “A importância estratégica do conhecimento do território na formação de um sistema defensivo: o caso de Sintra (Portugal) durante o Período Islâmico”, Anuario de Historia Regional y de las Fronteras, vol. 22, n.º 2, Bucamaranga, 2017, pp. 26-27 (https://tinyurl.com/ya49odpb); idem, “Navegação comercial fluvio-marítima e povoamento no Ocidente do Municipium Olisiponense: em torno dos rios Lizandro (Mafra) e Colares (Sintra)”, in Carmen Soares, José Luís Brandão e Pedro C. Carvalho (coords.), História Antiga: relações interdisciplinares. Paisagens urbanas, rurais e sociais, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 219-255 (https://tinyurl.com/y9ugo9qe).

Estela epigrafada em árabe descoberta em Sines

Paula Pereira
Fig. 1 – Inscrição árabe descoberta no castelo de Sines. Fotografia: Paula Pereira.

Em 2008, durante obras de recuperação do castelo de Sines, foi descoberta uma estela epigrafada em árabe. Tal aconteceu durante a abertura do acesso dessa fortificação ao actual edifício de recepção aos visitantes. A descoberta é de enorme importância para a história desta cidade portuária, até porque durante muito tempo foi dito que o local não tinha nada do tempo de ocupação muçulmana. Crê-se que esta estela poderá ser a pedra fundacional de uma rábita construída em 1009. Este tipo de edifícios tinham funções religiosas, mas também de vigilância e de defesa do território.

Já em 2017, no âmbito de participação num colóquio de História de Sines, tivemos a oportunidade de visitar o museu arqueológico local e de ver a estela epigrafada. Desde essa altura que estávamos para escrever um texto sobre o assunto, contando ajudar a divulgar esta magnífica descoberta, embora tenhamos ficado pela elaboração de um texto geral sobre a referida visita e o acontecimento do colóquio (https://tinyurl.com/ydzyxfxh). Nessa altura, devido à fraca qualidade das fotografias tiradas à estela, mal se vendo a inscrição árabe, optou-se por não se colocar no post publicado neste blog. Embora o seu estudo ainda não esteja finalizado, eis a leitura provisória que Ana Labarta fez da epígrafe árabe:

“[… esta] rábida para que seja mencionado (o nome de Deus), se Deus quiser. E isso (foi) no mês de / Ramadão do ano 399 […] / Deus […] / […]”.

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Fig. 2 Pormenor do castelo de Sines. Fotografia: Marco Oliveira Borges (2017).

O ano 399 da Hégira corresponde a 1009. A parte final da epígrafe é de cariz religioso, mas ainda não foi revelada.

Apesar do negacionismo que andou associado à presença islâmica em Sines, Cláudio Torres já havia colocado a hipótese de que Sines poderia corresponder à antiga cidade portuária muçulmana de Marsa Hashim, a qual é mencionada por al-Himyari, autor do século XIII que se baseou em escritos mais antigos. Marsa, em árabe, significa porto, enquanto que Sines/Hashim deriva do latim sinus, baía. Ora, Sines localiza-se numa baía protegida, oferecendo um bom local de ancoradouro.

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Fig. 3 – Aspecto da área portuária de Sines. Fotografia: Marco Oliveira Borges (2017).

O exemplo de Sines é bastante importante e deve ser visto em paralelo com outras áreas portuárias, caso de Sintra e Cascais, sendo que relativamente a Sintra foi detectada uma estrutura muçulmana, mais concretamente no Alto da Vigia, que tem sido apresentada pelos arqueólogos locais como sendo um ribat. A primeira estrutura deste tipo a ser detectada no actual território português foi na Arrifana, concelho de Aljezur. Num texto publicado há poucas horas atrás, abordando Sines durante o período islâmico, o arqueólogo Santiago Macias pôs precisamente em paralelo estas descobertas.

Marco Oliveira Borges | 2020

Bibliografia: Cláudio Torres, “O Garb al-Andaluz”, in José Mattoso (dir.), História de Portugal, vol. I, [s.l.], Editorial Estampa, 1997, pp. 353-354; Paula Pereira e Sandra Patrício, Sines, a Terra e o Mar, Sines, Câmara Municipal de Sines, 2017, pp. 55-56; Marco Oliveira Borges, “A importância estratégica do conhecimento do território na formação de um sistema defensivo: o caso de Sintra (Portugal) durante o Período Islâmico”, Anuario de Historia Regional y de las Fronteras, vol. 22, n.º 2, Bucamaranga, 2017, pp. 17-48; Santiago Macias, “Sines – ali não há nada do período islâmico…”, Diário do Alentejo, 27/06/2020; http://www.sines.pt/pages/396?news_id=714 (consultado a 27/06/2020).

Marégrafo de Cascais

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Marégrafo de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges (2011).

Adquirido a 23 de Março de 1877, pela Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, pela quantia de 2.519 francos franceses a uma oficina de Paris, credenciada pela qualidade tecnológica dos seus relógios horizontais ou de edifício, o Marégrafo de Cascais (ou de Borrel) havia de ser instalado somente dois anos depois, no passeio D. Maria Pia, junto ao forte da Cidadela[1]. Após a sua instalação seguiu-se uma fase de montagem, construção da casa abrigo, para além da realização de variados testes, pelo que só veio a iniciar o seu funcionamento regular em 1882. Por esta altura, apenas três locais detinham semelhante equipamento: Brest (França), Aberdeen (Escócia) e Hoek Van Holland (Holanda).

A necessidade de aquisição deste marégrafo – da autoria do francês Amédée-Philippe Borrel (1818-1887) – obedece à lógica da conjuntura internacional da época, onde o desenvolvimento do conhecimento científico era uma constante. No caso português, surgiu da urgência de registar as alturas do nível do mar fora da barra de Lisboa e de definir o zero altimétrico para Portugal continental, necessário para a navegação e para os trabalhos de cartografia e hidrografia que se pretendiam realizar sobre portos e rios portugueses, sendo que a localização privilegiada da enseada de Cascais ditou o local escolhido para a sua colocação. Note-se que, até então, o nível do mar era medido através de marémetros ou réguas de maré, feitos de madeira ou de metal, mas que uma vez baseados na observação directa não permitiam um registo contínuo de dados. Todavia, face a problemas de funcionalidade verificados com o assoreamento no poço que fazia parte da estrutura inicial, e que não permitia a obtenção de dados fiáveis, o Marégrafo de Cascais veio a ser deslocado mais para Sul, a 50 metros de distância da primitiva instalação, onde se construiu uma nova casa abrigo e onde se encontra na actualidade (na área adjacente ao Clube Naval de Cascais, junto à Marina local), vindo apenas a iniciar actividade a 28 de Maio de 1895.

Fazendo o registo diário da evolução das marés e das correntes, este é o primeiro marégrafo analógico a surgir em Portugal – o de Lagos só iniciaria actividade em 1908 – e o único que ainda se encontra em actividade. Este mecanismo funciona com uma boía colocada num poço, em contacto directo com o mar, e cujo movimento é transmitido por um sistema de cabos e roldanas ligados a uma caneta que faz o registo das variações do nível da água numa folha de papel quadriculada, envolvida num tambor rotativo. Com efeito, essa caneta regista a amplitude consoante o movimento da maré, construindo assim um gráfico designado por maregrama. O marégrafo tem uma autonomia de quatro dias e a cada 24 horas o tambor dá uma volta completa, registando assim duas preia-mares e duas baixa-mares.

Há mais de 120 anos que os seus registos são enviados regularmente para o serviço internacional Permanent Service for Mean Sea Level (Reino Unido), organismo que disponibiliza, numa base de dados à escala mundial, estes e outros registos similares, utilizados em diversos programas científicos. De acordo com os dados obtidos entre 1882 e 2000, a tendência foi para uma subida do nível médio das águas do mar nesta região na ordem dos 1.3 mm/ano, cerca de 15 cm no total. Para além disso, é de salientar que o Marégrafo de Cascais veio a definir a referência do Datum Altimétrico, Zero Cartográfico, para o território continental através do cálculo da média dos níveis médios do mar realizado entre 1882 e 1938, tendo por denominação “Cascais, Helmert 1938”.

A 31 de Dezembro de 1997, foi classificado imovél de interesse público. Na actualidade, encontra-se sob tutela do Instituto Geográfico Português, entidade responsável pela recolha de informação dos valores do nível médio do mar e pela determinação do Datum Altimétrico Nacional. Embora exista, desde 2003, um marégrafo acústico e digital instalado na Marina de Cascais, mais preciso e sofisticado, o antigo marégrafo continua activo, sendo que em finais de 2005 o Instituto Geográfico Português celebrou um protocolo com a Câmara Municipal de Cascais visando a sua conservação e divulgação. Assim, o Marégrafo de Cascais passou a integrar o roteiro histórico desta vila associado à obra cientifica do rei D. Carlos, estando aberto ao público mediante marcação de visita.

Marco Oliveira Borges | 2020

Bibliografia: Marégrafo de Cascais, 1882, [s.l.], Instituto Geográfico Português, Março de 2007; Marégrafo de Cascais. Um Instrumento Centenário de Amédée-Philippe Borrel – 1877, [s.l.], Instituto Geográfico Português, 2009.

[1] Texto adaptado de Marco Oliveira Borges, “Marégrafo de Cascais”, in Dicionário de História Marítima, 2011 (em trânsito para uma nova plataforma online).

O Alto da Vigia no tempo dos romanos: uma interpretação alternativa sobre este sítio arqueológico

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Fig. 1 – Vista aérea da praia das Maçãs, Alto da Vigia e praia Pequena (ou da Vigia).

O Alto da Vigia é um pequeno outeiro que fica situado junto à praia das Maçãs, na margem esquerda da desembocadura do rio de Colares, curso de água que nasce a c. 14 km da sua foz, estando actualmente reduzido à condição de ribeira[1]. Em épocas passadas, um esteiro de mar invadia esta área permitindo a navegabilidade do vale de Colares, o acesso naval ao interior do território e ao porto local[2].

Em 2008, durante intervenções arqueológicas realizadas no Alto da Vigia que visavam averiguar a existência do santuário romano consagrado ao Sol, à Lua e ao Oceano que se sabia ter existido no litoral de Sintra, foram detectados importantes vestígios de diferentes cronologias, inicialmente associados a uma vigia[3], porquanto parte da sua estrutura ainda estava visível à superfície[4]. O decorrer dos trabalhos tem permitido confirmar que foi neste local que os romanos tiveram o dito santuário. No entanto, a grande surpresa arqueológica esteve na detecção parcial de estruturas muçulmanas que os arqueólogos locais têm vindo a interpretar como sendo pertencentes a um ribat[5].

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Fig. 2 – Mihrab presente numa das salas da edificação muçulmana. Fotografia: Marco Oliveira Borges (2016)

Os trabalhos arqueológicos ainda decorrem. Até ao momento, comprova-se a presença romana nesse sítio desde o século I d.C., altura em que terá sido fundado o famoso santuário consagrado ao Sol Eterno, à Lua e ao Oceano. A julgar pelos testemunhos epigráficos recolhidos nos últimos anos, terá sido muito provavelmente ainda na primeira metade do século I d.C., talvez durante o imperialato de Tibério[6]. Este espaço de culto, a dada altura, foi “integrado no âmbito do Culto Imperial, sendo os votos expressos – designadamente pela saúde do Imperador e eternidade do Império – colocados apenas por governadores da Lusitânia e legados imperiais, e não por devotos particulares, ou mesmo pelo senado de Olisipo, município em cujo território se localizava o santuário”[7].

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Fig. 3 – Outro pormenor da mesma edificação, observando-se melhor uma ara romana que foi usada como elemento pétreo na sua construção.  Fotografia: Marco Oliveira Borges (2016)

A alegada representação do santuário, que vinha indicado em epígrafes votivas[8] e que chegou a ser referido como podendo integrar um vicus local[9], viria a ser desenhada e descrita em texto corrido numa obra da autoria de Francisco de Holanda, publicada em 1571[10], se bem que a sua visita ao local tenha sido por volta de 1540 ou 1541[11]. Aquilo que Holanda apresenta no seu esboço não é propriamente um edifício, mas sim um alinhamento circular composto por 16 aras ou plintos, ainda que suscitando dúvidas[12] quanto à real configuração e até à sua existência. Quando Valentim Fernandes visitou o Alto da Vigia, em Agosto de 1505, no âmbito da recente descoberta de elementos arquitectónicos romanos, não referiu nenhum edifício naquele formato, somente a descoberta de três aras soterradas. Eis o que o humanista indicou ter sido encontrado nesse local:

“No ano do nascimento de Cristo de 1505, no dia 9 de Agosto, reinando D. Manuel, excelentíssimo rei de Portugal, quási no décimo ano do seu reinado, nas terras extremas dos confins da Espanha, para o lado do ocidente, na extremidade do promontório da Lua (Serra de Sintra) a que o vulgo chama Roca de Sintra [Cabo da Roca] à beira da praia do oceano, inesperadamente foram encontradas, debaixo de terra, três colunas de pedra, de forma quadrada, tendo gravados, desde tempos antigos, alguns caracteres romanos apenas em uma das faces, cuja base, mudada a ordem natural, se elevava como capitel e cujo capitel vimos fixado propositadamente, ao que parecia, como se fosse a base. Arrancadas a ferro e com cuidado, dentre os tijolos e pedras duras com que se fixavam por baixo as admiráveis colunas cima referidas, então notámos perfeitamente em uma delas, já voltada direitamente, estas figuras seguintes, não nos sendo possível decifrar com clareza as letras das outras porque, com a antiguidade do tempo e o desgaste do mar e das chuvas, estavam quási apagadas”[13].

Valentim Fernandes prossegue a sua descrição fornecendo a respectiva inscrição latina de uma das aras, se bem que dizendo que a leitura fora realizada pelo supremo secretário do rei, que, na presença do próprio D. Manuel I, fez o melhor que conseguiu para decifrá-la[14].

Em que área exacta do Alto da Vigia foram descobertos os elementos arquitectónicos romanos referidos por Valentim Fernandes? As três aras epigrafadas ali descobertas, que vieram a ser reaproveitadas na construção do suposto ribat[15], terão sido detectadas num espaço um pouco mais a Sul daquele que é indicado no esboço de Holanda. Ou seja, no sítio que desde 2008 está a ser alvo de intervenções arqueológicas, tendo a descoberta de 1505 coincidido com as obras de construção da vigia[16] acima referida ou apenas com trabalhos de reparação/reformulação após uma possível destruição causada pelos sismos que terão ocorrido em 1504-1505. Estes sismos terão provocado estragos na torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais, por volta de 1494, e nas muralhas medievais da vila, pelo que poderá muito bem ter acontecido o mesmo em edificações da área costeira de Sintra. Terá sido neste sentido que o monarca ordenou que se reunissem meios monetários para que essas estruturas cascalenses entrassem em reparação, coincidindo assim com a altura das informações escritas por Valentim Fernandes, sendo que o documento que o comprova é de 12 de Agosto de 1505[17], três dias depois do achado no Alto da Vigia. Outros sismos ocorridos em anos posteriores, 1512, 1527, 1528 e 1531[18], poderão ter levado a estragos na estrutura do Alto da Vigia e a consequentes reparos que tenham implicado reformulações e alterações.

Fig. 2
Fig. 4 – Esboço circular de Francisco de Holanda.

Está ainda por demonstrar arqueologicamente se o esboço de Francisco de Holanda era fidedigno e se, assim sendo, não teria resultado de uma elaboração circular quinhentista posterior à visita de Valentim Fernandes ao Alto da Vigia, inserindo-se no âmbito dos humanistas tentarem recuperar o passado clássico, podendo a alegada representação do santuário ter ganho forma através de outros exemplos construtivos da Romanidade, se bem que com alguns elementos pétreos desse tempo[19]. Por outro lado, um santuário nem sempre pressuponha a existência de uma construção, podendo tratar-se apenas de um local sacralizado. Em todo o caso, estando-se perante um “marcador natural” utilizado para fins cultuais, este podia anteceder a construção de um templo[20]. Mas um santuário também podia ser entendido como um espaço delimitado[21] no qual se integrava um conjunto de edifícios[22], o que poderá ter sido o caso do Alto da Vigia.

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Fig. 5 – Pormenor dos níveis estratigráficos observados no Alto da Vigia (2013). Fotografia: Marco Oliveira Borges

Para o caso específico deste sítio, a arqueologia tem vindo a comprovar a existência de estruturas romanas e de uma presença em larga diacronia com várias fases de ocupação, ainda que subsistindo diversas dúvidas sobre a sua caracterização. Evidências relacionadas com a fase alto-imperial romana estão documentadas através de um conjunto de estruturas negativas, algumas ulteriormente usadas na edificação de uma aedicula durante a segunda metade do século IV d.C.[23]. A dita aedicula, que se encontra em mau estado de preservação devido à remoção de elementos pétreos para a construção da estrutura islâmica[24], é um edifício que funcionava como pequeno templo[25]. Junto a esta estrutura, associada a materiais dos séculos III-IV e inícios do V d.C., foram recolhidas várias moedas e fragmentos de lucerna, ainda que em diferentes níveis estratigráficos e afectados por acções antrópicas[26]. Alguns elementos lapidares reutilizados na edificação da aedicula demonstram “que a continuidade em funcionamento do santuário em época tardia implicou a reformulação do espaço e das estruturas que o constituíam” [27]. Contudo, somente a continuidade dos trabalhos e a identificação e escavação de outros contextos romanos poderão ajudar a caracterizar a complexa dinâmica de ocupação romana deste local[28].

De qualquer forma, é muito provável que a área do Alto da Vigia e imediações, com larga extensão, tenham tido igualmente outras funcionalidades para além daquelas associadas ao santuário. Em tempos recuados, poderá mesmo ter havido uma extensão habitável. Essa situação seria facilitada por condições meteorológicas e oceanográficas mais aprazíveis à fixação costeira do que na actualidade, sendo na altura caracterizadas, nomeadamente, pela menor intensidade de vento e de agitação marítima. Isso deveu-se à fraca presença de upwelling no Ocidente ibérico[29], traduzindo-se esse factor, efectivamente, na parca intensidade da nortada e menor altura das ondas em relação ao que no presente se verifica[30], se bem que não se possa falar numa total ausência de vento[31]. Por outro lado, é possível que possa ter havido algum tipo de exploração económica romana nessa área, fosse ligada à terra ou ao mar. O mesmo se pode pensar nalgum tipo de edifício de apoio à navegação, talvez até um posto de controlo romano do acesso naval ao interior de Sintra. Recorde-se que em pleno século I d.C., altura em que os romanos terão construído o dito santuário, o esteiro de Colares era navegável, constituindo-se assim como um canal privilegiado de comunicação e ligação naval com o interior do território.

Marco Oliveira Borges | 2020

[1] Este artigo, embora com ligeiras modificações, foi adaptado de um estudo mais alargado: Marco Oliveira Borges, “Paisagem cultural marítima de Sintra: uma abordagem histórico-arqueológica”, in Pedro Fidalgo (coord.), Estudos de paisagem, vol. III, Lisboa, Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2017, pp. 250-255.

[2] Marco Oliveira Borges, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, História. Revista da FLUP, IV: 2, 2012, pp. 116-128; idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, Actas das Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma onda de Progresso, Almada, Escola Naval, 2015, pp. 152-160; Maria Teresa Caetano, Colares, 2.ª ed., Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2016, pp. 13-21; Marco Oliveira Borges, “Navegação comercial fluvio-marítima e povoamento no Ocidente do Municipium Olisiponense: em torno dos rios Lizandro (Mafra) e Colares (Sintra)”, in Carmen Soares, José Luís Brandão e Pedro C. Carvalho (coords.), História Antiga: relações interdisciplinares. Paisagens urbanas, rurais e sociais, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 233-236.

[3] Até recentemente, foi interpretada pelos arqueólogos como sendo a torre de um facho (cf. Patrícia Jordão, Pedro Mendes e Alexandre Gonçalves, Alto da Vigia (Colares, Sintra). Relatório dos Trabalhos Arqueológicos [de 2008], 2009, pp. 3-4 e 17 [policopiado]; Alexandre Marques Gonçalves, Alto da Vigia (Colares, Sintra). Relatório dos trabalhos arqueológicos de 2013, 2014, pp. 11-12 [policopiado]).

[4] Idem, Escavação arqueológica do Alto da Vigia (Colares-Sintra): relatório da intervenção realizada em 2015, 2016, p. 17 [policopiado].

[5] Idem, ibidem, pp. 7-9, 67 e 70-75.

[6] Idem, ibidem, pp. 7 e 70. Anteriormente, a cronologia de fundação do santuário era apontada para o século II d.C. (cf. José Cardim Ribeiro, “Soli aeterno Lvnae. Cultos astrais em época pré-romana e romana na área de influência da serra de Sintra: ¿um caso complexo de sincretismo?”, Sintria, III-IV, 1995-2007, pp. 607 e 609; idem, “Soli aeterno Lvnae: o santuário”, in Religiões da Lvsitânia. Loquuntur Saxã, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 2000, pp. 236-237).

[7] Alexandre Gonçalves, op. cit., p. 7.

[8] José Cardim Ribeiro, “Estudos histórico-epigráficos em torno da figura de L. Iulius Maelo Caudicus”, Sintria, III: I, 1982-1983, p. 166.

[9] Jorge de Alarcão, O domínio romano em Portugal, 4.ª ed., [Lisboa], Publicações Europa-América, 2002, p. 80; Inês Nadal de Sousa Byrne, “A rede viária da zona Oeste do Município Olisiponense (Mafra e Sintra)”, sep. de Al-Madan, II: 2, 1993, 46.

[10] “Outra memória de basas digna de lembrar e de imitar dos fiéis, faziam os antigos e infiéis, como eu vi, quando me o Infante Dom Luís, vosso tio que Deus tem, levou a mostrar a Serra de Sintra, mandando-me para isso chamar a Lisboa, quando vim de Itália. E vimos em a foz do rio de Colares, prezado em outro tempo dos Romanos, sobre um pequeno outeiro junto do mar Oceano, um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro a Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado. O que nós, espiritualmente mudando, podemos converter em cipos os embasamentos dos pés das Cruzes que digo, em louvor e memória do verdadeiro Sol de justiça, Jesus Cristo, e da verdadeira e sempre cheia de graça Santa Maria Nossa Senhora, como se pode considerar deste desenho” (Francisco D’Holanda, Da fábrica que falece à cidade de Lisboa, introd., notas e coment. de José da Felicidade Alves, [Lisboa], Livros Horizonte, 1984, fl. 24v e 25r).

[11] José Cardim Ribeiro, “Ad Antiquitates Vestigandas. Destinos e itinerários antiquaristas nos campos olisiponenses ocidentais desde inícios a meados do século XVI”, in Gerard González Germain (coord.), Peregrinationes ad inscriptiones colligendas. Estudios sobre epigrafía de tradición manuscrita, Bellaterra, Universitat Autònoma de Barcelona, 2016, pp. 142 e 158; Alexandre Gonçalves, op. cit., pp. 5-6.

[12] Jorge de Alarcão, “Colares”, in Dicionário de Arqueologia Portuguesa, Porto, Figueirinhas, 2012, p. 118.

[13] A. Fontoura da Costa, ed., Cartas das ilhas de Cabo Verde de Valentim Fernandes (1506-1508), Lisboa, Agência Geral das Colónias, 1939, pp. 87-88.

[14] Idem, ibidem, p. 88.

[15] Alexandre Gonçalves, op. cit., p. 5.

[16] Idem, ibidem, p. 10; José Cardim Ribeiro, op. cit., p. 140.

[17] Cf. Jaime D’Oliveira Lobo e Silva, Anais da vila da Ericeira. Registo cronológico de acontecimentos referentes à mesma vila, desde 1229 até 1943, 3.ª ed., Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 2002, p. 24; Marco Oliveira Borges, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, História. Revista da FLUP, IV: 5, 2015, pp. 106-108.

[18] Idem, ibidem, p. 108.

[19] José Cardim Ribeiro, crendo que tenha existido a representação circular referida por Holanda e apoiado em Sylvie Deswarte-Rosa, embora admitindo que o humanista português deva ter procedido à multiplicação de elementos para conferir maior monumentalidade ao sítio, refere que poderá ter havido inspiração a partir de um exemplo bracarense que se vê numa gravura de 1594. Com efeito, o modelo seguido no Alto da Vigia teria tido inspiração na representação circular dos doze marcos miliários romanos dispostos em torno da ermida de Santa Ana, embora um deles surja tombado, tendo a disposição desses elementos sido executada por ordens de D. Diogo de Sousa em 1506 (cf. Sylvie Deswarte-Rosa, “Le voyage épigraphique de Mariangelo Accursio au Portugal, printemps 1527”, in Maria Berbara e Karl A. E. Enenkel (eds.), Portuguese Humanism and the Republic of Letters, Leiden-Boston, Brill, 2012, p. 78; José Cardim Ribeiro, op. cit., p. 143, n. 8).

[20] Pedro Albuquerque, Tartessos: a construção de identidades através do registo escrito e da documentação arqueológica. Um estudo comparativo. Dissertação de Doutoramento, vol. I, Universidade de Lisboa, 2014, p. 154.

[21] A partir de elementos naturais como, por exemplo, uma montanha, uma fonte, uma árvore, um bosque, um cabo, etc. (idem, ibidem, p. 154).

[22] Idem, ibidem, p. 154.

[23] Alexandre Gonçalves, op. cit., pp. 66-67.

[24] Idem, ibidem, pp. 68-70.

[25] “Edícula”, in Dicionário de Arqueologia Portuguesa, p. 141.

[26] Alexandre Gonçalves, op. cit., pp. 69-70.

[27] Idem, ibidem, p. 70.

[28] Idem, ibidem, p. 70.

[29] J. M. Alveirinho Dias, “A história da evolução do litoral português nos últimos vinte milénios”, in António Augusto Tavares, Maria José Ferro Tavares e João Luís Cardoso (eds.), Evolução geohistórica do litoral português e fenómenos correlativos. Geologia, História, Arqueologia e Climatologia. Actas do Colóquio. Lisboa, 3 e 4 de Junho de 2004, Lisboa, Universidade Aberta, 2004, pp. 165 e 167; António M. Monge Soares, “Identificação e caracterização de eventos climáticos na costa portuguesa, entre o final do Plistocénico e os tempos históricos – o papel do radiocarbono”, in Evolução geohistórica […], p. 194.

[30] Ana Margarida Arruda e Raquel Vilaça, “O Mar Grego-Romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente Peninsular”, in Francisco de Oliveira, Pascal Thiercy e Raquel Vilaça (coords.), Mar Greco-Latino, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006, p. 35.

[31] Cf. Avieno, Orla Marítima, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1992, pp. 22 e 47, n. 34.

A propósito de uma fotografia tirada no caminho de acesso à zona do Abano (07/05/2020)

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Caminho de acesso à zona do Abano (07/05/2020). Fotografia: Marco Oliveira Borges

Na passada quinta-feira, dia 7 de Maio de 2020, perto do final da tarde, decidi fazer mais uma jornada de bicicleta até às imediações do Guincho e do Abano. Munido de uma máscara de protecção e de uma máquina fotográfica, como é habitual, fui tirando fotografias por alguns dos locais em que ia passando. Uma dessas fotografias, que postei na página Sintra e Cascais na História[1], assim como em alguns grupos relacionados com Cascais, mostra uma fila de cerca de 30 carros estacionados no estreito caminho de acesso à zona do Abano, onde a praia local ainda se encontra repleta de pedras e sem areia. Tive esta confirmação do desassoreamento da praia já depois de publicar a fotografia.

Entretanto, naquele dia, enquanto fazia fotografias, apareceu um veículo da GNR no caminho de acesso ao Abano. Sem saber o que se passava, depois de tiradas as minhas fotografias naquele local segui caminho para nascente e não sei o que se seguiu daí em diante junto àquele sítio. Neste sentido, não sei se as pessoas que estacionaram os carros no caminho para o Abano foram para aqueles lados para fazer exercício físico, surf, apanhar caracóis, fotografar, pescar, passear o cão, etc. O certo é que tal presença de carros naquele sítio, algo que não é inédito, representa uma grande irresponsabilidade e perigo. Não esquecendo a presente conjuntura em que nos encontramos, também não se pode esquecer que estamos numa área bastante flagelada por incêndios, sendo que o último teve lugar em Outubro de 2018. Logo por aí, aquele caminho, que por si só já é bastante estreito e acidentado, deveria estar completamente livre. Em caso de incêndio ou de outro tipo de acidente que requeresse a presença de uma camioneta de bombeiros, as coisas iriam complicar, ficando o acesso bastante difícil ou até mesmo inviabilizado.

Após a recente publicação da foto, diversas pessoas tem-se mostrado indignadas com a presença de carros naquele sítio, relacionando o assunto com a conjuntura actual e a falta de civismo perante a pandemia, enquanto que outras revelam desconfiança, chegando mesmo a ser dito que a fotografia é mais antiga e que a informação não é verdadeira. Ora, isso não é verdade, a fotografia foi mesmo tirada no dia 7 de Maio de 2020. Contudo, se eu tivesse tirado fotografias a tantas outras situações estranhas que vi nas últimas semanas, como relativamente a certos ajuntamentos populares –  inclusive em bombas de gasolina do concelho –  quando nos era pedido o confinamento e distanciamento social, as pessoas se calhar também diriam que era mentira, que seriam fotografias mais antigas. Felizmente – ou não –, não fui o único a ver tais coisas. Por fim, também foi sugerido que me fosse perguntado o que estava ali a fazer junto àquele sítio. De forma resumida, e na senda do que já referi, estava a fazer o que faço há muitos anos no território de Cascais. Foi mais um passeio de bicicleta pela natureza com direito a fotografias pelo meio. Tal como eu, outras pessoas andavam no mesmo sítio (a nascente do referido caminho), mas mantendo uma distância de segurança, algumas até a passear os seus animais.

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Um dos trilhos junto ao caminho de acesso à zona do Abano (lado nascente). Fotografia: Marco Oliveira Borges

Marco Oliveira Borges | 2020

[1]https://www.facebook.com/SintraeCascaisnaHistoria/photos/a.374983042606554/2560933180678185/?type=3&theater&comment_id=2561042300667273&reply_comment_id=2561464250625078&force_theater=1&notif_t=photo_comment&notif_id=1588960449436327

Corso e pirataria no cabo da Roca e suas imediações (séculos XVI-XVII)

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Fig. 1 – Vista aérea do cabo da Roca.

Designado na Antiguidade por promontório de Ofiússa[1], Promontorium Lunae e Promontorium Magno[2], o cabo da Roca sempre foi um importante acidente geográfico para a navegação, servindo aos mareantes “de firme demarcação para buscarem a barra de Lisboa”[3]. Situado na área mais ocidental do mundo conhecido, caracterizada pelo forte vento e agitação marítima, este cabo, efectivamente, desde cedo foi o grande ponto de referência da costa de Sintra e da região que abarca, conhecidas pela sua perigosidade e pelos diversos naufrágios que proporcionaram ao longo dos séculos, sendo que a primeira referência documental que se conhece sobre acidentes marítimos no litoral sintrense remete para 1147[4].

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Fig. 2 – Outra vista área do cabo da Roca.
Fonte: https://www.e-cultura.sapo.pt//patrimonio_item/2513

Relativamente às actividades de corso/pirataria, os casos mais antigos que se conhecem estiveram associados a salteadores franceses, entre 1520 e 1537, se bem que alguns não tenham ocorrido propriamente em águas sintrenses, mas umas léguas mais ao largo, aparecendo o cabo da Roca como local de referência nas fontes históricas[5]. No entanto, sabe-se que este local, assim como as suas imediações, inclusive para Sul, envolvendo a área ao largo da enseada de Assentis e até à zona do Alto das Entradas, foram usados por inimigos que esperavam estrategicamente a vinda de navios ricamente carregados[6]. Não se pode esquecer, entre várias rotas que por ali passavam, que esta era uma das áreas de aproximação à costa para os navios que vinham dos Açores, onde se incluíam os que vinham da Índia, do Brasil, de África e de outras partes, pelo que acabava por ter grande procura. É bem provável que, conforme nos referiu Miguel Lacerda, os corsários/piratas fizessem sair gente em terra para, em posições altas, poderem controlar as movimentações da navegação. Além disso, existe uma ribeira que desagua junto ao cabo da Roca, a qual poderá ter sido usada para se obter água. Estas deslocações a terra seriam efectuadas em pequenas embarcações largadas dos navios.

Fig. 11
Fig. 3 – Cabo da Roca, também designado como The Rock of Lisbon.
Fonte: John Christian Schetky, 1861 (NMM).
Fig. 1 –
Fig. 4 – Cabo da Roca com vista parcial para a Enseada de Assentis e imediações.
Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Foi nas proximidades da Enseada de Assentis, mais precisamente no Alto das Entradas ou Calhau das Entradas (sítio caracterizado por ser uma área de penhascos e de altura considerável em relação ao mar), que após a Restauração foi edificado o Forte de Nossa Senhora da Roca (ou Forte do Espinhaço)[7], do qual já só subsistem escassos vestígios das suas ruínas (fig. 7). De acordo com as investigações de Carlos Callixto, um inspector anónimo havia visitado o local em Abril de 1751, altura em que o forte já se encontrava bastante arruinado, ficando estimado que a sua reconstrução total orçaria pelos 1.300$00 réis.

À primeira vista, a importância para defender os navios de menor porte que por ali passavam, bem como a própria presença de corsários naquelas imediações e a necessidade de evitar que pairassem por ali, foram  argumentos mais do que válidos para se erguer um forte naquela área. Assim, de acordo com o dito inspector, o Forte de Nossa Senhora da Roca estava “num dos sítios mais importantes daquela marinha pelo muito que ampara dos inimigos as embarcações pequenas que fazem viagem para o Norte”[8].

Fig. 13
Fig. 5 – Forte da Roca numa gravura da segunda metade do século XIX.

Não se sabe por quantas peças de artilharia estava dotado em 1751. Porém, anos mais tarde, entre 1763 e 1764, sabe-se que estava artilhado com 4 peças de ferro: 2 de calibre 9 e 2 de calibre 6[9]. Todavia, os relatórios levados a cabo nas décadas seguintes viriam a tirar a importância estratégica e a utilidade defensiva deste forte. Em 1777, um oficial alegou que o “Forte não he de nenhuma utilidade, e assim só lhe bastão duas peças para servir de vigia. O paiol da pólvora está em bom estado. Para guarnecer esta fortaleza em tempo de guerra, no cazo que seja acommetida por alguma frota inimiga, bastar-lhe-ha ao menos um Cabo e oito artilheiros; presentemente se acha guarnecida por hum Cabo e trez Soldados infantes”[10]. Em 1796, num novo relatório, a importância da fortificação foi considerada “quaze inútil pois não defende porto algum e os seus tiros são tão mergulhantes que não poderão fazer efeito, por estar levantado sobre o plano do mar alguns 300 palmos; e além disto todos os navios se apartão deste Cabo [da Roca] por não darem a Costa”[11]. Por fim, num relatório de 1831 foi referido que não era “possível com o fogo feito da bateria deste Forte incomodar o inimigo, devido à sua grande altura sobre o mar”[12].

Em todo o caso, apesar da curta duração que teve e de se ter verificado a sua inutilidade para a defesa marítima dessa área, a verdade é que a intenção inicial que esteve por detrás da construção do forte estaria mesmo na necessidade de protecção dos navios de menor porte que se abrigavam de corsários naquelas enseadas e imediações. Talvez o poder de fogo que o forte dispunha acabou por ter um efeito mais dissuasor para os navios inimigos que se aventuravam por aquelas paragens do que propriamente operativo.

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Fig. 6 – Planta do forte de Nossa Senhora da Roca (ANTT).

De qualquer forma, tal como nos deixam perceber vários tipos de fontes, não há qualquer dúvida de que se estava perante uma área movimentada e que, apesar de bastante perigosa, era paragem frequente para piratas e corsários. De acordo com Manoel Pimentel, por exemplo, “na ponta desta Roca distante de terra o tiro de hum mosquete está huma baixa em que arrebenta o mar. Por entre a baixa, e a Roca tem ja passado navios pequenos fugindo dos Mouros, encostando-se mais à baixa que à Roca”[13]. Esta seria uma referência à Baixa do Broeiro (situada a cerca de 900 m a Noroeste do cabo da Roca), ou a outro rochedo das imediações, ficando o contínuo testemunho quanto à presença de piratas e de corsários nesta área sintrense, bem como de esta servir de refúgio a navios de menor porte que, liderados por mareantes conhecedores da geografia local, poderiam usar a presença dos rochedos à flor da água como armadilha para se defenderem da agressão de navios maiores. O embate contra os rochedos seria um naufrágio quase certo naquele local, sendo que na Baixa do Broeiro existe um navio naufragado e canhões submersos[14].

Fig. 15
Fig. 7 – Ruínas do Forte de Nossa Senhora da Roca (ou do Espinhaço) com vista para o Cabo da Roca, Enseada de Assentis e imediações (foto: André Manique).

Por fim, há que referir o ataque ao patacho Nossa Senhora da Conceição, do qual se sabe muito pouco. Referida como urca e patacho, havia velejado para a Índia em Abril de 1635, juntamente com as naus Santa Catarina de Ribamar e Nossa Senhora da Saúde. Sob capitania de João da Costa, que também ia como piloto, fez escala em Moçambique, onde largou 50 homens, e surgiu em Goa a 6 de Novembro, tendo iniciado o retorno a Portugal algures em 1637[15].

Uma vez na costa de Sintra, mais concretamente na área próxima do rio das Maçãs e já pelo dia 17 de Dezembro, entrou em combate e foi queimada por 4 navios de corsários muçulmanos[16]. Ainda que a historiografia tenho vindo a seguir as indicações de  Saturnino Monteiro, e nós próprios, em outros estudos, tenhamos colocado a hipótese mais concreta de João da Costa ter sofrido uma emboscada junto à enseada de Assentis[17], a verdade é que não se sabe ao certo o desenrolar dos acontecimentos. No entanto, o navio terá ido ao fundo perto da praia das Maçãs.

Marco Oliveira Borges | 2020

[1] Avieno, Orla Marítima, Coimbra, Instituto Nacional de Investigação Científica/Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1992, pp. 22 e 47, n. 33.

[2] Vasco Gil Mantas, A rede viária romana da faixa atlântica entre Lisboa e Braga. Tese de Doutoramento, vol. I, Universidade de Coimbra, 1996, p. 882; idem, “O porto romano de Lisboa”, in G. P. Berlanga e J. P. Ballester (coords.), Puertos fluviales antiguos: ciudad, desarrollo e infraestructuras, Valência, Universidad de Valencia, 2003, p. 15.

[3] Fr. Joseph Pereira de Santa Anna, Chronica dos Carmelitas da Antiga, e Regular Observancia Nestes Reynos de Portugal, Algarves e seus Domínios, t. II, Lisboa, Officina dos Herdeiros de Antonio Pedrozo Galram, 1751, p. 115.

[4] Altura em que as forças cruzadas vieram auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos muçulmanos (cf. Marco Oliveira Borges, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-129).

[5] Idem, “Corso e pirataria na costa de Sintra durante os séculos XVI-XVII”, comunicação apresentada no V Encontro de História de Sintra (Sintra, 28/10/2016); idem, O trajecto final da carreira da Índia na torna-viagem (1500-1640). Problemas à navegação entre os Açores e Lisboa: acções e reacções, Lisboa, Tese de Doutoramento, 2 vols., Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (a aguardar defesa).

[6] Idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Jornadas do Mar 2014. Mar: uma onda de progresso, Almada, Escola Naval, pp. 162-163; idem, Paisagem cultural marítima de Sintra: uma abordagem histórico-arqueológica”, in Pedro Fidalgo (coord.), Estudos de paisagem, vol. III, Lisboa, Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2017, pp. 243-250.

[7] Carlos Callixto, Fortificações da Praça de Cascais a Ocidente da Vila, sep. da Revista Militar, Lisboa, 1980, pp. 4-5.

[8] Joaquim Boiça, Maria Rombouts de Barros, Margarida de Magalhães Ramalho, As Fortificações Marítimas da Costa de Cascais, Cascais, Quetzal, 2001, p. 212.

[9] Carlos Callixto, op. cit., pp. 5-6.

[10] Joaquim Boiça, Maria Rombouts de Barros, Margarida de Magalhães Ramalho, op. cit., p. 212.

[11] Idem, ibidem, p. 213.

[12] Carlos Callixto, op. cit., p. 8.

[13] Manoel Pimentel, Arte de Navegar, em que se ensinam as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a balestilha por via de Numeros e muitos problemas úteis à navegação, Lisboa, Officina de Francisco da Silva, 1762, p. 526.

[14] Paulo Alexandre Monteiro, “Canhões na Roca. Análise preliminar de um conjunto submerso de peças de artilharia”, in Al-Madan, sér. II, t. 15, 2007, p. 159; idem, “O património cultural subaquático da costa de Sintra” (Sintra, 02/08/2014).

[15] Relações da carreira da Índia. Navios da carreira da Índia (1497-1653), códice anónimo da British Library. Governadores da Índia, pelo Pe. Manuel Xavier, Lisboa, Publicações Alfa, 1989, pp. 85 e 166-167; Memórias das armadas da Índia. Org., introd. e notas de João C. Reis, Macau, Edições Mar-Oceano, 1990, p. 271; Paulo Guinote, Eduardo Frutuoso e António Lopes, As armadas da Índia, 1497-1835, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2002, p. 169.

[16] BNP, Ms. 26, 153, n.º 129; Relações da carreira […], pp. 166-167; Memorias das armadas […], p. 271.

[17] Saturnino Monteiro, Batalhas e combates da marinha portuguesa, vol. VI, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1995, p. 152; José António Rodrigues Pereira, Grandes batalhas navais portuguesas. Os combates que marcaram a História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009, pp. 193-195; idem, Grandes naufrágios portugueses, 1194-1991. Acidentes marítimos que marcaram a História de Portugal. Pref. de Adolfo Silveira Martins, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2013, pp. 204-205; Marco Oliveira Borges, “Portos e ancoradouros […]”, p. 162; idem, “Paisagem cultural marítima […]”, pp. 245-247.

Videoclipe o “Mar de Cascais”

 

Aproveitei algum do meu tempo de quarentena para fazer este videoclipe instrumental sobre o “Mar de Cascais”. Para tal, usei imagens de arquivo que fui captando sobretudo ao longo dos últimos dois anos. Nada foi planeado, o cenário de quarentena é que levou a isto, pelo que fiquei limitado ao uso dessas imagens. Gostaria de ter enriquecido o videoclipe com mais imagens em movimento, assim como com outras imagens de actividades desenvolvidas nesta costa, pois há muito mais no mar de Cascais para ver, mas, perante a crise actual, terá de ficar para outras oportunidades.

Nestes tempos difíceis, em que todos devemos ficar em casa para evitar ainda mais a disseminação do vírus Covid-19, aqui fica um cheirinho do mar de Cascais. No videoclipe podemos ver várias perspectivas do mar, as cetárias romanas, pescadores, os apetrechos de pesca, Cascais medieval, os barcos, os acidentes marítimos, Cascais actual, a procissão a Nossa Senhora dos Navegantes, o lixo marítimo, etc.

Em breve, talvez também surja algo no mesmo contexto para a costa de Sintra. Até lá, vejam o vídeo (encurtador.com.br/eipL7), subscrevam o canal no Youtube e activem as notificações para ficarem a par das novidades.

Marco Oliveira Borges | 2020

A primeira equipa campeã nacional de hóquei de Sala pelo Cascais (2001)

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Equipa de Juniores do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais que foi campeã nacional de hóquei de sala em 2001. Fotografia tirada no antigo pavilhão de Cascais. Em cima: Sr. Alfredo (delegado), Pedro Feijó (capitão), Tiago Ferreira, Bernardo Fernandes e João Miguel Freitas (treinador). Em baixo: Marco Borges, Rui Guerra, Fernando Medina, Luís Cunha, Igor Santos e André Quintino. Fotografia: André Cardoso.

Corria o dia 11 de Fevereiro de 2001 quando, pela primeira vez na sua História, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais foi campeão nacional na modalidade de hóquei de sala, tendo o feito ocorrido no Complexo Desportivo de Alcabideche. O titulo foi conseguido pela equipa de Juniores, na altura formada por 9 jogadores: Fernando Medina, Marco Borges, Tiago Ferreira, Pedro Feijó, Rui Guerra, Luís Cunha, Bernardo Fernandes, Igor Santos e André Quintino. No entanto, 6 destes jogadores, apesar de também jogarem pelo Juniores, na altura ainda eram Juvenis. Em comum, todos os 9 jogadores tinham uma grande amizade e o facto de serem oriundos da mesma escola preparatória: 2º e 3º ciclo Professor António Pereira Coutinho.

digitalizar0002Liderados pelo então jovem treinador João Miguel Freitas e representados pelo delegado Sr. Alfredo, esta equipa conseguiu um feito inédito para o clube. Se havia quem agourasse que o Cascais nunca seria campeão nacional nesta modalidade, até mesmo gente do próprio clube, tal ideia dissipou-se com uma vitória de 4 – 2 perante o Núcleo Sportinguista de Alfândega da Fé. Nos jogos anteriores, o Cascais havia empatado 2 – 2 com o Casa Pia Atlético Clube e vencido, por 1 – 0, a Associação Desportiva de Lousada. Recorde-se que os campeonatos nacionais de hóquei em Sala, por esta altura, disputavam-se em dois dias seguidos, onde, no total, cada equipa realizava três jogos. Mas antes disso, importa salientar, tinha lugar um campeonato regional, onde somente as melhores equipas de cada região envolvida eram apuradas para disputar o campeonato nacional.

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Equipa de Juniores logo após receber a taça de campeã nacional.

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Nesse mesmo ano de 2001, a equipa de Juvenis de hóquei de sala do Cascais também se sagrou campeã nacional, em Mirandela, feito igualmente alcançado pela equipa Feminina. Três títulos nacionais em apenas um ano, tónico bastante motivante para o futuro. Infelizmente, no ano posterior os dirigentes da própria equipa de hóquei do Cascais decidiram pôr fim à equipa de Juniores, onde o elemento mais antigo, Fernando Medina, já vinha a exercer actividade desde 1992, altura em que o treinador era José Maria Maximino. Isto fez com que alguns jogadores abandonassem a modalidade, não voltando a praticá-la. Outros ainda chegaram a jogar pelos Seniores, mas, por diferentes motivos, foram deixando o hóquei. Foi um fim precoce para uma equipa de Juniores que ainda tinha muito para dar à modalidade. É verdade que um ou dois anos depois o Cascais voltou a ter equipa de Juniores, mas alguns atletas já não tinham idade para disputar esse escalão.

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Pedro Feijó, capitão da equipa de Juniores. Um grande defesa direito, um dos jogadores mais disciplinados de sempre.

Mas voltando a Fevereiro de 2001, há que destacar a vitória contra o Lousada. O resultado desse jogo (1 – 0) foi atípico, pois estamos perante uma modalidade onde normalmente existem muitos mais golos. Em todo o caso, o escasso resultado não significou falta de qualidade e de espectáculo de ambos os lados. Pelo contrário, o jogo teve uma entrega e intensidade tremenda por parte dos jogadores, grandes lances e ocasiões, mas com os guarda-redes e os defesas a responderem muito bem às investidas contrárias. Já próximo do final do jogo, quando alguns pensavam que o resultado iria ser 0 – 0, o avançado esquerdo Tiago Ferreira, pela esquerda, rematou fortíssimo para a baliza contrária, inaugurando o marcador. Explosão tremenda! Estava feito o primeiro, o único do jogo. No total, Tiago Ferreira marcou 6 golos no campeonato nacional, tendo sido provavelmente o melhor marcador da prova.

Anos mais tarde, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, já no seu novo pavilhão, viria a banir as modalidades de hóquei de Sala e hóquei em campo (esta última existente no clube desde 1975), as quais deram, nos diferentes escalões, desde a década de 1970, vários títulos regionais e nacionais ao clube. É de referir igualmente que, ao longo da existência destas modalidades, vários atletas do Cascais representaram a Seleção de Lisboa e a Seleção Nacional em campeonatos disputados em Portugal e no estrangeiro. Talvez um dia as consciências mudem, esperando-se que no futuro o hóquei de sala e o hóquei em campo possam voltar a ser praticados no Grupo Dramático e Sportivo de Cascais.

Marco Oliveira Borges | 2020

Apontamentos sobre a villa romana de Santo André de Almoçageme (Colares)

Ruínas da villa
Fig. 1 – Aspecto parcial das ruínas da villa romana de Santo André de Almoçageme. “Terreno B”, zona de peristilo.

Situada aproximadamente a 2 km da foz da ribeira de Colares, a villa romana de Santo André de Almoçageme é aquela que, até ao momento, foi identificada como estando na posição mais ocidental do mundo romano[1]. As primeiras recolhas conhecidas de materiais neste local remontam a 1905, altura em que se procedeu a trabalhos de exploração e levantamento parcial de um mosaico policromo que havia sido descoberto aquando das obras da Estrada do Rodízio[2], a qual permite o acesso às imediações da Praia Grande, Praia Pequena e Praia das Maçãs. Sabe-se que, em Dezembro desse ano, alguns materiais ali recuperados deram entrada no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia. É de referir, por exemplo, 6 moedas romanas em bronze, diversos fragmentos de cerâmicas de construção, de armazenamento e de transporte, incluindo fragmentos de ânforas, 2 pondera de barro, 2 cossoiros, entre outros diversos materiais[3]. Entre 1977 e 1982 deram entrada no Museu Regional de Sintra três pondera e alguns fragmentos de dolia obtidos na villa romana de Santo André, isto em recolhas feitas à superfície[4].

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Fig. 2 – Estrada do Rodízio.

No entanto, somente na Primavera de 1985 tiveram início escavações arqueológicas de forma metódica, motivadas pela descoberta ocasional de estruturas in situ no terreno de exploração agrícola voltado a Sul (“Terreno A”)[5] e que abrange uma área aproximada de 1.200 m2. Após três campanhas de escavação arqueológica (1985, 1986 e 1987), concluiu-se estar perante um sector exterior ao espaço residencial da villa, sendo classificável como olaria de cerâmica de construção e que, em determinado momento, terá funcionado como lixeira, acabando assim por reunir materiais dos vários sectores desse habitat[6]. Entre todo o espólio recolhido nas três campanhas, destaca-se o elevado número de fragmentos cerâmicos (c. 87% do total das peças obtidas), sendo significativa a presença de cerâmica fina de importação[7]. Neste enquadramento, foram detectados materiais provenientes de quatro grandes centros exportadores no “Terreno A”:

1) Norte de África. O conjunto das cerâmicas terra sigillata africana (clara A, A/C, C e D) obtidas corresponde a um total de > 95% dos materiais recolhidos (1.378 fragmentos), constituindo esmagadoramente o centro exportador mais representado e quase que detendo a exclusividade da terra sigillata detectada neste sector da villa.

2) Hispânia. Representa apenas < 3% (= 36 fragmentos), percentagem que é dividida entre a terra sigillata hispânica (> 1% = 20 fragmentos) e a terra sigillata hispânica tardia (1% = 16 fragmentos)[8]. Esta última, detectada em poucas estações portuguesas, pelo menos até 1992, era cerâmica fina de importação produzida na região central do Norte da Península Ibérica, tendo “um circuito comercial essencialmente interior e fluvial”[9].

3) Sul da Gallia. Detém somente perto de > 1% (= 19 fragmentos)[10].

4) Mediterrâneo Oriental. Com a presença de Late Roman C Ware, detém < 1% (= 9 fragmentos) de toda a cerâmica fina registada no “Terreno A”[11].

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Fig. 3 – Planta geral da villa romana de Santo André de Almoçageme. A – “Terreno A”, olaria; B – “Terreno B”, zona do peristilo; C – “Terreno C”, designado popularmente por Quintal dos Tijolos.  Fonte: Sousa 1992a: 86.
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Fig. 4 – Cabeça de uma pequena estatueta encontrada em 1987. Datável de início do século III d. C., será uma representação da imperatriz Júlia Domna, mulher do imperador Septímio Severo. Fonte: https://www.facebook.com/museuarqueologicodesaomigueldeodrinhas/

Com base na presença de terra sigillata sud-gálica, Élvio Melim de Sousa remontou a construção e ocupação desta villa ao século II d.C., possivelmente à segunda metade. Contudo, foi ao longo do século III que os índices de ocupação aumentaram consideravelmente, registando o seu apogeu já na segunda metade dessa centúria e mantendo-se constantemente elevados por todo o século IV, conforme deixam perceber as altíssimas percentagens de terra sigillata clara C e D[12]. O conjunto de terra sigillata africana detectada (clara A, A/C, C e D) revela “uma forte e intensa relação entre Olisipo e o Norte de África na segunda metade do séc. III d.C. e durante o séc. IV, à qual não estarão alheios, certamente, a grandeza e a poderosa rede de difusão comercial das fábricas norte-africanas, bem como o relevante papel do porto de Olisipo na recepção dos respectivos produtos e posterior difusão dos mesmos pelo ocidente da Lusitânia, e desde logo pelos seus Agri[13].

A villa romana de Santo André de Almoçageme acabaria progressivamente por entrar em decadência, mas terá sido abandonada apenas em meados do século V d.C., ou até mesmo um pouco depois, a julgar pela detecção de cerâmica do tipo Late Roman C Ware e de terra sigillata hispânica tardia, sendo estes os materiais cerâmicos de cronologia mais recente que se encontraram até então[14]. Élvio Melim de Sousa acrescentou ainda que os resultados que se viessem a obter noutros sectores da villa, e através da análise de outros materiais, não modificariam substancialmente as conclusões que atrás foram avançadas. Os trabalhos mais recentes parecem confirmar isso mesmo.

A partir de 2007, uma equipa do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas iniciou um programa de recuperação e de valorização desta villa, prevendo-se colocar a descoberto, nos anos seguintes, todos os vestígios arqueológicos e fazer a sua musealização. Porém, as actividades viriam a cessar poucos anos depois, sem estarem concluídas.

Mosaícos
Fig. 5 – Aspecto de mosaico, triclinium. Fonte: http://museuarqueologicodeodrinhas.cm-sintra.pt/
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Fig. 6 – Placa toponímica alusiva à villa romana local.

Marco Oliveira Borges | 2020

Estudos

Borges, M. O. (2015), “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, Actas das Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma onda de Progresso. Almada, Escola Naval: 152-164.

Borges, M. O. (2018), “Navegação comercial fluvio-marítima e povoamento no Ocidente do Municipium Olisiponense: em torno dos rios Lizandro (Mafra) e Colares (Sintra)”, in C. Soares, J. L. Brandão, P. C. Carvalho (coords.), História Antiga: relações interdisciplinares, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra: 219-255.

Caetano, M. T. (2011), “Mosaicos da finisterra ocidental: uilla de Santo André de Almoçageme”, in Actas do X Colóquio Internacional de Mosaico Greco-Romano, Coimbra, Museu Monográfico de Conímbriga, pp. 873–887.

Campos, M. J. (1906), “Acquisições do Museu Ethnologico Português”, O Archeologo Português, XI: 284-295.

Cortez, F. R. (1947), “Mosaicos romanos da Estremadura”, Estremadura. Boletim da Junta da Província, II, 14: 57-71.

Sousa, É. M. (1992a), “Ruínas Romanas de St.º André de Almoçageme”, Actas do Seminário O Espaço Rural na Lusitânia. Tomar e o seu Território, 17 a 19 de Março 1989. Tomar, Centro de Estudos de Arte e Arqueologia da Escola Superior de Tecnologia de Tomar: 85-91.

Sousa, É. M. (1992b), “Terra Sigillata Hispânica Tardia da Villa de Santo André de Almoçageme (Colares, Sintra)”, sep. de Artefactos, I: 16-21.

[1] Este artigo de divulgação histórica, ainda que sofrendo algumas modificações, foi adaptado de estudos mais alargados (Borges 2015: 153-154; Borges 2018: 219-255), no quais tínhamos feito uma síntese do sítio arqueológico com base em alguns estudos a que tivemos acesso. Sobre o programa de recuperação e de valorização desta villa, cf. http://ensina.rtp.pt/artigo/villa-romana-santo-andre-almocageme/.

[2] Campos 1906: 288; Sousa 1992a: 85; Caetano, 2011: 874.

[3] Campos 1906: 288-289; Cortez 1947: 62. Por compreender ficou a tipologia dos fragmentos de ânforas recolhidos, algo que também parece não ter sido referido pelos investigadores posteriores.

[4] Sousa 1992a: 85.

[5] Sousa 1992a: 85-86.

[6] Sousa 1992a: 85-86.

[7] Sousa 1992a: 86.

[8] Sousa 1992a: 90.

[9] Sousa 1992b: 16.

[10] Sousa 1992a: 90.

[11] Sousa 1992a: 90.

[12] Sousa 1992a: 90.

[13] Sousa 1992a: 90.

[14] Sousa 1992a: 90; Sousa 1992b: 17.