Dois naufrágios à saída da barra do Tejo durante a partida para Ceuta (1415)

1756
Pormenor da entrada da barra do Tejo (M. Bellin, Plan du
port de Lisbonne et des costes voisines, 1756).

A 25 e 26 de Julho de 1415 partiram do Restelo os contingentes militares portugueses (e alguns estrangeiros) que viriam a conquistar Ceuta. No segundo dia referido, durante a largada da barra do Tejo, duas naus chocaram, sendo que uma delas acabou por naufragar e conduzir à morte por afogamento perto de 25 homens. Por essa altura, ao que parece estando envolvida no mesmo incidente, outra embarcação começou a meter água, acabando por morrer 9 homens de armas. Foi Rui Dias de Vega, servidor e espião do rei Fernando I de Aragão, quem deu a conhecer os pormenores da partida e dos acidentes:

       “[…] por la mañana, que fue dia de Santiago, desfaldraron las velas et salieron mas de la meytad dellas fuera, a la mar, en la costa cabe Cascales, que son cinco leguas de la çibdat. Et otro dia seguiente, viernes, XXVJ dias del dicho mes, salieron las otras que aujan quedado […] una nao después que desfaldro no fizo por el governario et dio por otra nao Et, del golpe que djo, abriose toda et perdiose et afogaronse vnos XXV omes […] Et eso mesmo vn batel que se anego et se perdieron en el nueve omes de armas”[1].

Gomes Eanes de Zurara, cronista incumbido de relatar os primeiros feitos da Expansão Marítima Portuguesa, não refere a saída separada da frota nem se atreve a avançar com o possível número de navios que faziam parte da mesma[2]. O cronista apenas passa a mensagem de uma partida gloriosa, sob olhar atento dos habitantes de Lisboa, que, por todos os lugares da cidade, assistiam a “coisa tão formosa de ver que aqueles que a viam não podiam imaginar que houvesse prazer maior”[3]. Contudo, sabemos que a partida do Restelo ocorreu em dois momentos distintos e que tiveram lugar pelo menos dois naufrágios. Pretendendo narrar os feitos gloriosos alcançados naquela expedição, seria de prever que os naufrágios pudessem ser omitidos nas descrições de Zurara[4].  O Espião aragonês refere mesmo que, depois da ocorrência dos acidentes, “mando luego pregonar elrrey que neguno non le dexiese en la çibdat, so pena de la su merçed et de los cuerpos”[5].

Ao que tudo indica, estes dois naufrágios são dos mais antigos que se conhecem para a barra do Tejo, área que apresenta diversos problemas à navegação e que tem sido apelidada de cemitério de naufrágios[6].

Marco Oliveira Borges | 2017

[1] Monumenta Henricina, vol. II – (1411-1421), pp. 166-167, doc. 71. O relatório da preparação da frota de Ceuta pode ser lido nas pp. 132-146.

[2] “Outros queriam esforçar-se por saber o número (de barcos) da frota, embora os seus esforços valessem pouco” (Gomes Eanes de ZURARA, Crónica da tomada de Ceuta. Pref. e actual. de textos de Carlos Miranda, Lisboa, Editorial Escol, [s.d.], cap. LI, pp. 110-111).

[3] Idem, ibidem, cap. LI, pp. 110-111.

[4] Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 129-130.

[5] Monumenta Henricina, vol. II, pp. 166-167, doc. 71.

[6] Sobre os naufrágios nesta área geográfica e costa de Cascais, cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na Rota dos Naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal, 2006; Jorge FREIRE, À vista da costa: a paisagem cultural marítima de Cascais. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Universidade de Lisboa, 2012.

Controvérsias e falsos factos históricos sobre a torre que D. João II mandou construir em Cascais (c. 1494)

Fig. 1
Fig. 1 – Pormenor da torre de Cascais presente na gravura publicada por Georg Braun e Franz Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572 (ICGC).

“A Torre de Cascais existiu, e existe ainda, integrada no Revelim”

M. A. Pereira Lourenço, 1965[1].

Por mais que os trabalhos de investigação que se vão publicando tragam novidades e permitam dissipar certos mitos e erros historiográficos, o nosso património cultural, por vezes, continua envolto em falsos factos históricos. No que diz respeito à história de Cascais, um dos casos mais controversos envolve a torre que D. João II mandou construir nesta vila[2]. Por outras palavras, a polémica está relacionada com o que se tem vindo a escrever sobre esta fortificação e a omitir nas últimas décadas. Decidimos elaborar este artigo de esclarecimento, de reflexão e divulgação depois de constatarmos, mais uma vez, desta feita na placa informativa recentemente colocada junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz (fig. 10), que se continuam a ignorar os recentes avanços da investigação e a divulgar falsos factos históricos perante um destinatário muito específico: o grande público.

Com possível invocação a Santo António[3], a referida torre foi edificada num esporão rochoso no extremo Sul da vila de Cascais, o qual tem vindo a ser erroneamente identificado como sendo a Ponta do Salmodo. No entanto, este último ponto geográfico, conforme comprova diversa cartografia dos séculos XIX-XX (fig. 2), corresponde a outro lugar, ao sítio onde se encontra edificado o farol de Santa Marta[4].

Fig. 2
Fig. 2 – Pormenor da costa de Cascais. Plano hydrographico desde
Cabo da Roca até Cezimbra […], 1882 (BNP).

Em 1873, na sua obra pioneira sobre Cascais, Borges Barruncho referia a existência, “no antigo revelim da fortaleza”, de “umas armas do reino”. Tendo sido picadas pela acção das forças francesas, aquando da invasão de Portugal, nessas armas podia-se ler, ainda que com alguma dificuldade, D. João II[5]. Neste sentido, o autor deduziu que ali teria existido uma antiga fortificação joanina. Contudo, por essa altura, desconhecia exactamente do que se tratava, parecendo não conhecer qualquer alusão documental à torre de Cascais, algo que não escaparia à historiografia posterior[6]. Em todo o caso, teria Borges Barruncho visto as armas do tempo de D. João II ou as da época de D. João IIII (IV) que se encontram presentes no espaço da Cidadela junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz e que também se encontram picadas? Poderá ter havido uma imprecisão do autor, mas também poderá ser que, de facto, a inscrição fosse mesmo alusiva a D. João II. Neste cenário, teria desaparecido algures posteriormente a 1873, tendo sido deslocada juntamente com a pedra onde estavam gravadas as armas do Reino, destruída ou tapada durante algum tipo de obra.

Apesar das dúvidas que se tinham quanto à torre de Cascais, se tinha ou não sido destruída com a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Luz, na década de 1960 Manuel A. P. Lourenço deu a conhecer ao público que esta estrutura estava integrada no interior da dita fortaleza, a qual o investigador designava por “revelim”. Não obstante as importantes indagações de Borges Barruncho, Manuel A. P. Lourenço foi o primeiro investigador que se dedicou ao estudo pormenorizado destas estruturas, chegando mesmo a explorar o interior da fortaleza de forma detalhada[7], se bem que não na sua totalidade. Na verdade, desde 1940 que Manuel A. P. Lourenço frequentava com relativa assiduidade a velha fortaleza[8], ainda que só mais tardiamente é que tenha percebido que a torre estava envolvida por essa fortificação, chegando a afirmar, em 1955, que a sua localização era desconhecida, pensando ter sido construída mais para Norte. Embora desde 1965 – pelo menos – que se tivesse conhecimento público da subsistência da torre de Cascais no interior da fortaleza de Nossa Senhora da Luz, apenas em 1987 foram iniciadas escavações no seu interior[9].

Fig. 3
Fig. 3 – Planta da fortaleza de Nossa Senhora da Luz. Note-se
a presença da torre de Cascais (Manuel A. P. Lourenço, 1965).

Ainda no que diz respeito às investigações de Manuel A. P. Lourenço, o autor chegou mesmo a elaborar plantas envolvendo as duas fortificações, explicando igualmente em texto corrido os pormenores que conseguiu observar. Assim, identificou a torre joanina como estando dentro da fortaleza, compartimentos da fortaleza devolutos e de acesso emparedado, uma área não visitável e cuja compartimentação, na altura, era desconhecida, compartimentos com grandes quantidades de entulho, a cisterna da fortaleza (debaixo do pavimento do pátio interior)[10], tendo ainda identificado duas mós, um forno e outros elementos e aspectos (figs. 3 e 4). Outro dado importante que deve ser salientado deve-se ao facto de, já em 1966, Manuel A. P. Lourenço ter pensado que, em vez de espaços mortos e fechados ao público, aqueles compartimentos poderiam “ser adaptados como atracção turística”. Neste sentido, Manuel A. P. Lourenço foi o primeiro autor a sugerir publicamente a ideia de futura musealização daquele espaço[11].

Fig. 4
Fig. 4 – Planta da fortaleza de Nossa Senhora da Luz envolvendo
a torre de Cascais (Manuel A. P. Lourenço, 1966).
Fig. 5
Fig. 5 – Vista aérea da fortaleza de Nossa Senhora da Luz.
A vermelho assinala-se uma parte da estrutura da antiga torre.

A partir de finais da década de 1980 e até aos nossos dias, com o desenrolar das investigações de Margarida de Magalhães Ramalho e das equipas que trabalharam nas escavações arqueológicas[12], avançou-se bastante no conhecimento sobre a dita torre e fortaleza. Para além disso, a partir de 1990 começaram a ganhar forma ideias no que diz respeito à preparação da musealização da fortaleza[13]. Muito recentemente, no âmbito das comemorações dos 650 anos da elevação de Cascais a vila, deu-se mesmo a abertura oficial da fortaleza e da torre ao público. Anteriormente, em Dezembro de 2012, havia passado na RTP2 um documentário sobre estas duas fortificações[14].

Em relação à ideia de musealização daquele espaço, já tínhamos visto que, na década de 1960, Manuel A. P. Lourenço havia sugerido isso mesmo, embora os contributos e o nome do investigador tenham sido incompreensivelmente “esquecidos” com o decorrer do tempo. Quantas vezes foram citados os seus estudos de 1965-1966 entre a década de 1980 e 2017? É verdade que, no passado, autores como Raquel Henriques da Silva, Joaquim Boiça e Pedro de Aboim Inglez Cid assinalaram que Manuel A. P. Lourenço havia descoberto que a torre ainda estava de pé, mas esse facto não teve o devido impacto no âmbito do estudo das fortificações em análise. Muito pelo contrário. Basta ler os estudos de Margarida de Magalhães Ramalho para se chegar a tal conclusão, ainda que a autora tenha chegado a referir, de forma muito sumária, que Manuel A. P. Lourenço havia entrado nos baluartes Norte e Sul da fortaleza de Nossa Senhora da Luz (1991) e identificado o alçado Norte e parte do alçado Sul da torre (1989).

Nem mesmo no referido documentário existe qualquer menção aos trabalhos de Manuel A. P. Lourenço, isto quando o mesmo havia explorado compartimentos interiores da fortaleza de Nossa Senhora da Luz e compreendido – duas décadas antes do início das investigações de Margarida de Magalhães Ramalho – que a torre de Cascais estava no seu interior. Sendo um documentário onde são omitidas as investigações de Manuel A. P. Lourenço e os pormenores que teve oportunidade de observar e indicar[15], as atenções acabam por girar em torno de Margarida de Magalhães Ramalho, passando a ideia de que descobriu o sítio e de que foi pioneira no seu estudo. Apesar do desconhecimento geral sobre a verdadeira profundidade deste assunto e, por outro lado, de alguma resistência a nível local, é evidente que não se pode continuar a atribuir a descoberta da torre e o pioneirismo do estudo destas fortificações a Margarida de Magalhães Ramalho.

Pouco tempo depois do documentário ter sido exibido na RTP2, o qual rapidamente começou a ser comentado em diferentes grupos da rede social Facebook relacionados com Cascais, Guilherme Cardoso publicou um post no grupo O Pessoal da Linha Vem à Rede a alertar para o facto de que o interior daquela fortaleza já era conhecido antes da década de 1980 e que haviam sido publicados estudos por Manuel A. P. Lourenço. Aliás, nesse post estavam incluídas as plantas da fortaleza de Nossa Senhora da Luz presentes nos artigos daquele investigador local. Grande conhecedor do património histórico-arqueológico cascalense, Guilherme Cardoso, em 1965, teve mesmo a oportunidade de visitar o interior daquela fortaleza juntamente com seu pai, este último enquanto repórter fotográfico do Jornal da Costa do Sol. M. A. Pereira Lourenço foi o investigador local que guiou a visita[16].

Por tudo isto, e por outros aspectos que veremos mais adiante, urgia uma revisão de conhecimento sobre muito do que tinha vindo a ser dito nas últimas décadas acerca das referidas fortificações. Assim, sobretudo num artigo publicado em 2015, sujeito a avaliação científica por pares, tivemos a oportunidade de alertar para as diversas questões controversas relacionadas com a torre de Cascais e o seu estudo. Depois da nossa chamada de atenção nesse artigo, de termos começado a divulgar os estudos de Manuel A. P. Lourenço através da página Cascais durante a Idade Média[17], bem como de uma conversa com Margarida de Magalhães Ramalho, a autora teve a oportunidade de dar um primeiro passo no sentido de rectificar este assunto perante o público. A ocorrência teve lugar durante uma comunicação apresentada no Centro Cultural de Cascais, no âmbito do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, especialmente dedicado à fortaleza de Nossa Senhora da Luz (23 de Abril de 2016).

No final das comunicações da parte da manhã, já durante a sessão de perguntas e respostas, tivemos a oportunidade de intervir fazendo algumas observações. Uma delas dizia respeito ao facto de que no painel cronológico presente na fortaleza de Nossa Senhora da Luz, e em que estão escritos vários momentos da história das duas fortificações e da sua investigação, não havia uma única alusão a Manuel A. P. Lourenço (fig. 7). Sendo esta uma grave lacuna, que omite ao público visitante a verdadeira cronologia inicial da história da investigação dessas estruturas, era de prever que esse aspecto – para não falar de outros – fosse rectificado nos tempos seguintes. Porém, em Julho de 2016, com uma nova abertura da fortaleza ao público, constatámos que o painel se mantinha na mesma, não havendo qualquer rectificação produzida por parte do núcleo de Património Cultural da Câmara Municipal de Cascais.

Fig. 6
Fig. 6 – Painel cronológico presente na fortaleza de Nossa Senhora da Luz.
Fig. 7
Fig. 7 – Idem.

Esclarecido este primeiro aspecto relacionado com a primazia do estudo da torre de Cascais e da fortaleza, passemos a outros igualmente controversos. Muito embora se saiba que esta torre foi construída algures no reinado de D. João II, não existe qualquer documento que revele que a edificação teve início em 1488[18], data que teimosamente tem figurado em livros, exposições, etc., quando se alude a esta estrutura tardo-medieval. Esta imprecisão resulta de uma confusão e leitura abusiva das informações fornecidas por Rui de Pina e Garcia de Resende. Para elucidar os leitores, eis os trechos que têm sido mal interpretados:

         “Estando el Rey [D. João II] em muyta paz, e amizade com os Reys de Castella, como muyto prudente Principe fazia sempre, e ordenaua suas cousas antes de auer necessidade dellas. E no começo do anno de mil e quatrocentos e oitenta e oito, com muyto cuidado, e diligencia mandou prouer, fortalecer, e repartir todalas Cidades, Villas, e Castellos dos estremos de seus Reynos, assi no repairo, e defensam dos baluartes, cauas, muros, e torres, como em artilharias, poluora, salitre, armas, almazens, e todallas outras cousas necessarias”[19].

Como se pode ver, não existe qualquer referência para a construção da torre de Cascais ocorrer em 1488, apesar da ideia do monarca poder ter sido coeva. É num trecho de Garcia de Resende (Crónica de D. João II e Miscelânea), que corresponderá a eventos ocorridos em 1494, ainda que se saiba que alguns tenham ocorrido antes, que surge a menção à dita torre:

           “E assi mandou fazer entam a torre de Cascaes com sua caua, com tanta e tam grossa artelharia, que defendia o porto; e assi outra torre, e baluarte de Caparica defronte de Belém, em que estaua muyta e grande artilharia, e tinha ordenado de fazer hua forte fortaleza, onde ora está a fermosa torre de Belem, que el Rey dom Manoel, que santa gloria haja, mandou fazer, pera que a fortaleza de hua parte, e a torre da outra tolhessem a entrada do rio”[20].

De facto, 1494 é a data mais apontada pelos investigadores para o início da construção da torre de Cascais[21]. Depois de ter estudado o assunto, Pedro de Aboim Inglez Cid, embora salientando que o trecho de Garcia de Resende sobre as fortificações é o que se segue à descrição da experiência de artilharia feita em caravelas (Setúbal) e que “o critério de agrupar assuntos conexos num único capítulo não implica que o exposto tenha ocorrido estritamente na mesma época”, é levado a admitir que das fortificações referidas por Garcia de Resende apenas a construção da torre de Cascais terá sido coeva dos testes balísticos ordenados por D. João II, ou seja, 1494[22]. Recentemente, Joaquim Boiça referiu mesmo que, pese embora se tenha mandado erguer a torre em 1488, o que, como vimos, não se consegue comprovar documentalmente, as obras só teriam avançado em 1494[23].

É claro que se pode colocar a hipótese de se ter mandado construir a torre em 1488, no âmbito geral daquilo que se pretendia para a fortificação do Reino[24], mas isso terá de ser feito sob a forma de hipótese explicativa e não como sendo um dado garantido. Uma coisa é uma hipótese explicativa, outra é um facto histórico. Ainda assim, e conforme foi indicado, a data mais consensual para o início da construção da torre de Cascais é 1494[25].

Mais recentemente, em 2011 e 2013, Margarida de Magalhães Ramalho, investigadora que mais tempo tem dedicado ao estudo desta torre, partindo da ideia de que a sua construção terá arrancado em 1488, acrescentou que terá ocorrido até 1498. Para fundamentar a última data apontada a investigadora refere duas moedas deste período[26] encontradas na última escavação arqueológica realizada no interior da fortaleza de Nossa Senhora da Luz (2005). No entanto, esta referência a supostas moedas de 1498 trata-se de uma imprecisão[27], e que tem induzido em erro, até porque a primeira moeda portuguesa com data expressa de emissão no Reino surge apenas no reinado de D. Sebastião, sendo o “engenhoso” (1562)[28].

Em todo o caso, se fizermos um paralelo com o tempo de construção da torre de S. Sebastião de Caparica, que terá começado a ser construída em 1481 ou 1482 e que, por volta de 1485, poderia já ter a fase principal de obras finalizada[29], bem como com a torre de Belém, cuja construção terá decorrido entre 1514 e 1519[30], poderemos pensar numa cronologia de construção da torre de Cascais que ande à volta dos quatro anos (ou pouco mais). Tendo as obras muito provavelmente arrancado em 1494, por volta de 1498 ou 1499 a torre poderia já ter alguma ocupação, ainda que pudesse não estar totalmente finalizada. De maior importância para o estudo da torre de Cascais, e para fundamentar e reforçar a nossa argumentação, um documento de 1500 que tivemos oportunidade de dar a conhecer inicialmente na nossa tese de mestrado (2012) alude a um bombardeiro fixo naquela fortificação desde 1500[31], se bem que remeta para um mestre bombardeiro que já estaria de serviço na torre pelo menos desde 1499, podendo essa presença até remontar a 1498. São hipóteses bastante plausíveis[32].

Outro mito relacionado com a torre de Cascais diz respeito à ideia de que a construção desta estrutura esteve directamente relacionada com os ataques do corsário/pirata João Bretão na baía de Cascais (Setembro de 1484). Mais uma vez, não existe qualquer documento histórico que suporte tal ideia. A documentação conhecida alude apenas aos ataques de João Bretão, que até chegou a estar ao serviço de D. João II, e às medidas que a rainha D. Leonor tomou para que o salteador parasse com as suas actividades (fig. 8). É mais coerente pensar que o motivo da construção da torre tenha estado ligado a todo um conjunto de ataques ocorridos naquela área ao longo da década de 1480, e que revelaram a vulnerabilidade da navegação e evidentes fragilidades defensivas locais, parecendo mesmo haver uma estratégia bem definida por parte dos corsários franceses que actuavam nas imediações e em ligação com Lisboa[33].

Fig. 8
Fig. 8 – Uma das cartas que revela a presença do corsário João Bretão em Cascais. 23
de Setembro de 1484 (AML, Chancelaria Régia, Livro 2º de D. João II, fls. 37-38v).

Sabe-se que a construção deste tipo de fortificações, junto ao mar, “destinava-se a evitar desembarques nos locais mais favoráveis e, segundo a capacidade de cada local, a servir de protecção aos ancoradouros das frotas que se oporiam aos navios atacantes. Podiam, dentro dos alcances da sua artilharia, evitar que o inimigo manobrasse nas suas proximidades, função que se foi tornando cada vez mais importante à medida que os alcances aumentavam e o recurso a munições especialmente destinadas ao combate naval ia sendo possível”[34].

No caso específico de Cascais, e não esquecendo também a sua importância enquanto atalaia do Tejo, o papel defensivo da torre cascalense seria o de impedir a aproximação e possível desembarque inimigo no centro portuário local, bem como de proteger os navios que seguiam para Lisboa (ou para outros lados) e que em Cascais irremediavelmente faziam escala, lançando ferro em frente à praia da Ribeira e imediações da fortificação joanina. É que, devido aos condicionalismos geográficos próprios desta área, a viagem para Lisboa e a necessária entrada na barra do Tejo nem sempre era feita de forma directa, sendo necessário aguardar por maré e ventos favoráveis ao largo de Cascais a fim de evitar os perigos da barra (nomeadamente os cachopos) e um possível naufrágio[35].

Importa, agora, aduzir um caso documentado que exemplifica parte das utilidades defensivas da torre de Cascais. Em finais de Julho de 1524 esteve iminente a utilização desta fortificação para o bombardeamento de uma frota do imperador Carlos V, sendo esta formada por 86 urcas e soldados de várias origens do Norte da Europa. A frota, tendo como destino a Andaluzia, havia feito escala no porto de Cascais para abastecimento. Como a “contrariedade dos tempos” não permitia navegar para Sul, os navios tiveram de ficar naquele porto durante mais de 15 dias, vindo a sua gente a causar vários problemas, situação que levou a clamores entre o povo da vila e arredores. Para resolver a situação, D. Nuno da Cunha, governador da Relação e vedor da Fazenda, foi enviado a Cascais com intérpretes flamengos e alemães que residiam em Lisboa, bem como com um português que sabia falar as suas línguas. Na verdade, os estrangeiros, enviados para falar com o almirante (holandês) e com os mestres das urcas, não eram propriamente intérpretes, mas sim os maiores representantes das casas comerciais flamengas e alemãs de Lisboa e cujas afinidades linguísticas eram requeridas para ajudar a desbloquear a situação. Acabariam por ser recebidos nos Paços de D. Pedro de Castro (senhor de Cascais e 3.º conde de Monsanto), onde D. Nuno, depois de relembrar aos estrangeiros ali chamados a sua condição de vassalos do Imperador, o qual tinha boas relações com o rei de Portugal, ameaçou-os dizendo “que lhes faria todo o mall que podesse asy com a artilheria da torre” e que traria gente por terra caso os visados não parassem as suas acções[36].

Por esta informação não há dúvida de que o poder de fogo da artilharia da torre, nessa altura sob comando do mestre bombardeiro Simão de Paris[37], estava ao alcance das urcas, pelo menos das que estavam mais próximas das imediações da praia da Ribeira. É que, sendo uma frota constituída por 86 navios, naturalmente que a disposição dos mesmos se faria para o sentido nascente da vila, dadas as dimensões da praia e a necessidade de manter o centro portuário desbloqueado.

Picture Elements, Inc. ISE/SSE
Fig. 9 – Conhecimento em que se declara que mestre Simão de Paris,
bombardeiro da torre de “Quasquaes”, recebeu 15.000 reais
por servir na dita vila em 1524 (ANTT, CC, pt. II, mç. 123, n.º 92).

Voltemos aos aspectos controversos sobre a torre. Na referida placa informativa colocada recentemente junto à fortaleza de Nossa Senhora da Luz, onde também é referido que D. João II mandou construir a dita torre em 1488, está escrito que Pêro Anes foi o autor dessa fortificação. Resultando tais informações – mais uma vez – de uma imprecisão, e não havendo qualquer tipo de comprovação documental, o que se sabe sobre este homem é que, em 1505, seria o responsável por certas obras de fortificação que estavam a ser realizadas na vila de Cascais. A informação foi dada a conhecer por Jaime D’Oliveira Lobo e Silva, ao sintetizar um documento que aludia ao lançamento de um imposto a algumas povoações situadas a Norte de Cascais para que contribuíssem nas despesas das referidas obras:

          “[A] 12 de Agosto, … Pero Annes, homem das obras que El Rei tem em Cascais, apresenta à Câmara um regimento pelo qual o Rei ordena que os moradores das Vilas de Colares, Cheleiros, Mafra, Ericeira e reguengo da Carvoeira, concorram para as ditas obras, que, segundo parece, constavam de uma torre, muralhas e outras construções de fortificação”[38].

É muito provável que, por essa altura, a torre que D. João II havia mandado construir e a muralha medieval da vila estivessem em reparação. Sabendo-se que já estava em funcionamento desde 1499-1500, a torre de Cascais voltava a entrar em obras muito provavelmente devido a violentos tremores de terra que terão ocorrido entre 1504 e 1505[39] e que terão danificado as suas estruturas[40].

Em suma, que conclusões se podem tirar deste artigo? Face a todos os aspectos que foram sendo referidos, a divulgação histórica não se pode limitar a um processo de reprodução de ideias antigas e erradas, recorrendo à fórmula: “historiografia de historiografia”. Há que tentar ir directamente às fontes históricas/arqueológicas e confirmar o que está a ser dito. Questões incertas, que devem ser exploradas sob a forma de hipótese explicativa, não podem ser transmitidas como se fossem factos históricos. Todos nós erramos e estamos sujeitos a ser corrigidos. Ora, o grande problema surge quando se verifica a falta de rigor científico, quando não se faz uma actualização de conhecimentos, quando não há abertura para a discussão, para a novidade e para superar certos erros, o que, desse modo, impede o avanço do saber e a sua necessária renovação. Se assim for, o comum cascalense e o grande público serão erradamente informados sobre o nosso passado histórico!

Fig. 10
Fig. 10 – Alguns turistas lêem as informações recentemente colocadas
sobre a torre de Cascais e a fortaleza de Nossa Senhora da Luz.

 Marco Oliveira Borges | 2017

[1] M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da cidadela e a torre de Cascais II”, in Jornal da Costa do Sol, 55 (1965), p. 10. “Revelim” era o nome pelo qual o investigador designava a fortaleza de Nossa Senhora da Luz.

[2] Sobre o estudo mais actualizado acerca desta fortificação, cf. Marco Oliveira BORGES, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, in História. Revista da FLUP, IV: 5 (2015), pp. 93-117. Disponível para leitura e descarregamento gratuito através dos seguintes links: https://www.academia.edu/20335814/A_torre_defensiva_que_D._Jo%C3%A3o_II_mandou_construir_em_Cascais_novos_elementos_para_o_seu_estudo_2015_; http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/13789.pdf. Em breve, na nossa dissertação de Doutoramento, iremos apresentar novos dados sobre a torre de Cascais.

[3] Embora, por vezes, seja dado como garantido que a torre de Cascais teve esta invocação, a verdade é que esta questão ainda não está devidamente esclarecida (cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “Cascais em finais do século XVI: duas plantas inéditas”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 9 (1990), pp. 82-83; idem, “As fortificações marítimas do porto e da nobre vila de Cascais”, in Joaquim Boiça et al., As fortificações marítimas da costa de Cascais, Cascais, Quetzal, 2001, p. 28; idem, Fortificações marítimas, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2010, p. 25; idem, “A defesa de Cascais”, in Monumentos. Cidades. Património. Reabilitação, 31 (2011), p. 36; idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, in Isabel Cristina F. Fernandes (coord.), Fortificações e território na Península Ibérica e no Magreb (séculos VI a XVI), vol. II, Lisboa, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola, 2013, p. 640).

[4] Marco Oliveira BORGES, op. cit., p. 94, n. 7.

[5] “Ha no antigo revelim da fortaleza umas armas do reino, todas picadas pelos francezes da invasão de 1807, nas quaes apenas se póde ler, e com difficuldade – D. João II” (Pedro Lourenço de Seixas Borges BARRUNCHO, Apontamentos para a história da villa e concelho de Cascaes, Lisboa, Typographia Universal, 1873, pp. 81 e 109).

[6] Cf., por exemplo, Afonso do PAÇO e Fausto J. A. de FIGUEIREDO, “Esboço Arqueológico do Concelho de Cascais”, in Boletim do Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães, 1 (1943), p. 19.

[7] Cf. M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 53 (1965), p. 16; idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais II”, p. 10; idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 97 (1966), p. 5; idem, “História de Cascais e do seu Concelho”, in Jornal da Costa do Sol, 262 (1969), p. 19.

[8] Idem, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, in Jornal da Costa do Sol, 53, p. 16.

[9] Manuel A. P. Lourenço, “História de Cascais e do seu concelho”, in A Nossa Terra, n.º 99, 1955, p. 2. Posteriormente, numa obra publicada em 1964, no âmbito das comemorações do VI centenário da vila de Cascais, o autor não fazia qualquer alusão à identificação da torre de Cascais, pelo que ainda não teria percebido que essa fortificação havia sido envolvida pela fortaleza de Nossa Senhora da Luz (cf. Manuel Acácio Pereira Lourenço, As fortalezas da costa marítima de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 11). Sobre o início das escavações, cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “A fortaleza de Nossa Senhora da Luz”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 10 (1991), p. 35.

[10] Já conhecida por Pedro Lourenço de Seixas Borges BARRUNCHO, op. cit., p. 79.

[11] M. A. Pereira LOURENÇO, “O revelim da Cidadela e a torre de Cascais”, p. 5.

[12] Sobre as escavações de 2005, cf. Nuno NETO et al., “Intervenção arqueológica na fortaleza de Nossa Senhora da Luz (Cascais). Contribuições para a sua análise evolutiva e estrutural”, in Património. Estudos, vol. 10, Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico, 2007, pp. 185-197.

[13] Margarida de Magalhães RAMALHO, “As fortificações marítimas do porto […]”, p. 50.

[14] https://www.youtube.com/watch?v=9MGO9ojkhyk, consultado em 29/12/2012.

[15] Apesar de alguns aspectos controversos e críticas que se possam apontar a Manuel A. P. Lourenço, que muito raramente usava notas de rodapé para fundamentar as suas informações, até porque escrevia, sobretudo, nos jornais locais, é óbvio que não se pode tirar este e outros méritos de investigação ao autor.

[16] “Passou recentemente um documentário sobre a primitiva “Torre de Cascais” mandada erigir por D. João II, o “Príncipe Perfeito”, que herdando apenas as estradas de um pobre reino, localizado na periferia da Europa, com apenas 1.700.000 habitantes, soube transformá-lo num império. Da autoria da Dr.ª Margarida Ramalho, o documentário intitulado “Stº. António de Cascais e a Torre Perdida”, de excelente qualidade, mostra-nos as investigações que aquela historiadora tem ali realizado desde 1982, bem como o trabalho mais recentes de outros investigadores. Conhecemos o interior daquela fortaleza desde 1965, numa noite, em que acompanhei uma equipa do Jornal da Costa do Sol, em que o meu pai era o repórter fotográfico e o guia o historiador Manuel Lourenço, que desde os anos 40 estudava aquela fortificação. Lembro-me como se fosse hoje todos os passos que demos no seu interior. Numa sala, localizada no canto do pátio, estava uma grande imagem de St.º António, de gesso, por detrás uma parede onde, recentemente, fora aberto um buraco. No seu interior um recanto húmido, onde escorria água das paredes e as estalactites caíam de um alto tecto. Uma grade de ferro, de uma antiga porta de prisão deixada encostada, recordava os últimos presos Liberais ali encarcerados durante o reinado de D. Miguel. Para quem queira saber mais sobre a história da fortaleza e dos estudos que Manuel Lourenço fez basta consultar o Jornal a Costa do Sol: Manuel Acácio Pereira Lourenço: “O Revelim da Cidadela e a Torre de Cascais I, II e III”, Jornal da Costa do Sol, Cascais, nº 53, 24/4/1965; nº 55, 8/5/1965; nº 97, 26/2/1966. “Aspectos de Cascais Antes e Depois do Ano de 1580 a Posição Estratégica e as Fortificações”, Jornal da Costa do Sol, Cascais, nº 262, 26/5/1969” (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=527139110637043&set=o.468302963181739&type=1&permPage=1, consultado em 30/12/2012).

[17] https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/764361770335344/?type=3&theater; https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/764683550303166/?type=3&theater. O primeiro post, aliás, até é de 1 de Junho de 2013: https://www.facebook.com/CascaisduranteaIdadeMedia/photos/a.371035163001342.1073741835.347705448667647/372742759497249/?type=3&theater, consultado em 25/05/2017).

[18] Data que tem sido avançada, sobretudo, por Margarida Magalhães RAMALHO, “A torre de Cascais. Uma perspectiva arqueológica”, in Arquivo de Cascais. Boletim Cultural do Município, 7 (1988), p. 69; idem, “A barra do Tejo e a defesa de Lisboa”, in Oceanos, 11 (1992), p. 71; idem, Fortificações marítimas, p. 25; idem, “A defesa de Cascais”, p. 36; idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, p. 640. Todavia, numa obra publicada em 2001, a autora também chegou a admitir que a torre havia sido mandada levantar em 1488, sendo que apenas seis anos mais tarde teriam começado as obras, terminando já no reinado de D. Manuel I. Contudo, Margarida Magalhães Ramalho confundiu o ano de 1488 como sendo alusivo ao trecho de Garcia de Resende que refere a construção da torre (cf. idem, “As fortificações marítimas do porto […]”, p. 28).

[19] Garcia de RESENDE, Crónica de D. João II e Miscelânea. Pref. de Joaquim Veríssimo Serrão, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1973, cap. LXX, pp. 102-103.

[20] Idem, ibidem, cap. CLXXXI, p. 256.

[21] Entre os investigadores mais antigos, cf. Afonso do PAÇO e Fausto J. A. de FIGUEIREDO, op. cit., p. 19; Manuel Acácio Pereira LOURENÇO, As fortalezas da costa marítima de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, p. 11; idem, “História de Cascais e do seu concelho”, p. 19; Ferreira de ANDRADE (dir.), Monografia de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1969, p. 258; Carlos Pereira CALLIXTO, “A Praça de Cascais e as Fortificações suas dependentes”, in Revista Militar, 5 (1978), p. 329.

[22] Cf. Pedro de Aboim Inglez CID, A torre de S. Sebastião de Caparica e a arquitectura militar do tempo de D. João II, Lisboa, Edições Colibri, 2007, pp. 160 e 167 (n. 77). Como datas alternativas para os testes balísticos de Setúbal, o investigador aponta o Verão de 1484 ou o Outono de 1488 (cf. idem, ibidem, p. 149 e n. 16).

[23] Joaquim M. F. BOIÇA, “Cascais no sistema defensivo do porto de Lisboa”, in Monumentos. Cidades. Património. Reabilitação, 31, p. 30.

[24] Margarida de Magalhães RAMALHO, “As fortificações marítimas do porto […]”, 50.

[25] Vide supra, n. 21.

[26] “Como o comprovam duas moedas deste período encontradas na última escavação realizada, em 2005 […]” Cf. Margarida de Magalhães RAMALHO, “A defesa de Cascais”, pp. 36 e 45 (n. 11); idem, “A defesa de Cascais. Do castelo medieval à construção da Cidadela”, pp. 640 e 644 (n. 7). No documentário sobre a torre de Cascais a cronologia de construção apontada é a mesma (1488-1498).

[27] Estranha-se, ainda, que Margarida de Magalhães Ramalho, nos seus dois últimos estudos referidos, não cite o estudo de 2007 resultante dos trabalhos arqueológicos levados a cabo na fortaleza de Nossa Senhora da Luz entre Outubro de 2004 e Abril de 2005, o qual não apresenta qualquer referência a supostas moedas de 1498 ou a outras do reinado de D. Manuel I, sendo este um estudo em que a própria investigadora participou como co-autora (vide supra, n. 12).

[28] No entanto, o conhecido “bazaruco” de 1532, moeda indo-portuguesa, parece ser o exemplar mais antigo da numismática portuguesa que ostenta data (cf. J. FRONTEIRA, “Um «soldo» de D. João III?”, in NVMMVS. Boletim da Sociedade Portuguesa de Numismática, IV: 13-14 (1956-1957), pp. 130-131.

[29] Pedro de Aboim Inglez CID, op. cit., pp. 160-161 e 281-283.

[30] Reynaldo dos SANTOS, A torre de Belém 15141520. Estudo histórico e arqueológico, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1922, pp. 9, 32, 34-35, 40-41, 44-46 e 58.

[31] ANTT, Chancelaria de D. Manuel I, liv. 13, fl. 49v.

[32] Cf. Marco Oliveira BORGES, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais […]”, pp. 106 e 114.

[33] Para um apanhado documentado e problematização dos ataques corsários em Cascais no reinado de D. João II, cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 170-174 e 201-205.

[34] António José Pereira da COSTA, Cidadela de Cascais (pedras, homens e armas). Pref. de Rui Carita, Lisboa, Estado-Maior do Exército/Direcção de Documentação e História Militar, 2003, p. 23.

[35] Joaquim M. F. BOIÇA, op. cit., p. 24; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 61-62.

[36] O documento é de 25 de Julho de 1524 (ANTT, CC, pt. I, mç. 31, doc. 40; Pedro de AZEVEDO, “Uma esquadra de Carlos V no porto de Cascaes em 1542”, in Revista de História, 4 (1912), pp. 246-248).

[37] ANTT, CC, pt. II, mç. 123, n.º 92.

[38] Jaime D’Oliveira Lobo e SILVA, Anais da vila da Ericeira. Registo cronológico de acontecimentos referentes à mesma vila, desde 1229 até 1943. 3.ª ed., Mafra, Câmara Municipal de Mafra, 2002, p. 24.

[39] Outro sismo terá ocorrido em 1500 (cf. Marisa COSTA e João F. B. D. FONSECA, “Sismicidade histórica em Portugal no período medieval”, in Sísmica 2007 – 7.º Congresso de Sismologia e Engenharia Sísmica, Porto, 2007, p. 6). Sobre os sismos de 1504-1505, cf. M. de LA CLEDE, Histoire Generale de Portugal, t. I, Paris, Chez Guillaume Cavelier, 1735, p. 578; Victor João de Sousa MOREIRA, Sismicidade Histórica de Portugal Continental. Sep. da Revista do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica (1984), p. 15; Luís Mendes VICTOR, “A sismologia e a dinâmica planetária”, in Prevenção e protecção das construções contra riscos sísmicos, Lisboa, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2005, pp. 27 e 29-30; Marisa COSTA e João F. B. D. FONSECA, op. cit., p. 6.

[40] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 193-194. Esta hipótese surgiu do seguimento da pista deixada por Manuel A. P. Lourenço de que os sismos deverão ter atingido duramente Cascais (cf. Manuel A. P. LOURENÇO, “História de Cascais e do seu concelho”, in A Nossa Terra, 128 (1956) pp. 2 e 7).

O petroleiro “Tokyo Spirit” encalhado em Cascais (2015)

1
Fig. 1 – Momentos iniciais do encalhe em Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No final da manhã de 17 de Outubro de 2015, durante um forte temporal, o petroleiro Tokyo Spirit encalhou na costa de Cascais. As informações que circularam sobre a presença deste navio no litoral cascalense são contraditórias. Por um lado, foi avançado que o Tokyo Spirit estava fundeado nesta costa alegadamente à espera de entrar na barra do Tejo, onde iria ser alvo de reparações. Por outro, também foi referido que o seu destino era o estaleiro da Lisnave, em Setúbal, o que veio a acontecer posteriormente. Mais contradições surgiram, desta vez relacionadas com o real motivo que levou à perda de controlo do navio, à consequente aproximação da costa de Cascais e encalhe, sendo este um assunto que não ficou bem esclarecido. Numa das versões é referido que, enquanto aguardava ordens do armador para rumar a um estaleiro, este petroleiro com a bandeira das Bahamas acabou por perder a amarra de estibordo e ser empurrado para terra pela força do mar, encalhando assim em frente ao farol da praia de Santa Marta.

2
Fig. 2 – “Tokyo Spirit” encalhado em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
3
Fig. 3 – Vista a partir da marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

4O Tokyo Spirit é um navio de 78 mil toneladas e 274 metros de comprimento, tendo sido construído no Japão em 2006. Face à presença ameaçadora deste gigante transportador de petróleo na sua costa, os habitantes locais temeram prontamente um desastre ambiental. Se as autoridades cascalenses, que acompanharam o acontecimento desde o pedido de socorro (12:01), sabiam que o navio tinha os tanques vazios, por outro lado, essa informação ainda não era conhecida das pessoas que inicialmente assistiam surpreendidas ou daquelas que iam visualizando algumas imagens e vídeos que rapidamente começaram a circular nas redes sociais[1]. Só um pouco depois é que começou a ser divulgado que este navio de casco duplo vinha sem carga, tendo descarregado os materiais dias antes em Gotemburgo, ainda sob o nome Princimar Loyalty (registado na Libéria). No entanto, o perigo de possível derrame de hidrocarbonetos não esteve totalmente afastado, sendo de referir os resíduos de crude existentes a bordo e uma certa quantidade de combustível que o Tokyo Spirit tinha para seu próprio funcionamento.

4
Fig. 5 – Perspectiva ampliada do “Tokyo Spirit”. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
6
Fig. 6 – O navio encalho inicialmente em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
7
Fig. 7 – Vista a partir da Marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
8.JPG
Fig. 8 – Perspectiva a partir da praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

A notícia deste encalhe espalhou-se rapidamente pela Internet e teve, durante algum tempo, cobertura em directo por várias estações de televisão, facto que atraiu milhares de pessoas que ao longo da tarde de Sábado e já no dia seguinte se deslocaram a Cascais. Durante a tarde de Sábado, com a força do mar, o Tokyo Spirit desencalhou do local onde inicialmente havia encalhado, vindo a encalhar mais a nascente, junto à entrada da marina de Cascais.

9As operações iniciais para desencalhar este petroleiro foram efectuadas durante a preia-mar (18:30), contando-se com o auxílio de quatro rebocadores vindos de Lisboa. A bordo do Tokyo Spirit permaneceram as 22 pessoas que compunham a tripulação, visto que o comandante do navio recusou que fossem resgatadas pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa destacado para o local, alegando que não corriam perigo e que estas iriam auxiliar durante os trabalhos. Gorada a primeira operação de tentativa de desencalhe, tiveram de ser deslocados meios mais potentes e sofisticados para auxiliarem nos trabalhos: dois rebocadores vindos de Sines e um de Setúbal.

10
Fig. 10 – Perspectiva durante a tarde de Sábado. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
11
Fig. 11 – Os quatro rebocadores na operação de Sábado à tarde. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Por fim, durante a tarde do dia seguinte e já depois da deslastragem do navio, sete rebocadores a trabalhar em conjunto conseguiram desencalhar o petroleiro, sendo de enaltecer o empenho e eficiência das entidades envolvidas na operação. De seguida, o Tokyo Spirit foi rebocado para uma zona de fundeadouro da costa de Cascais e, posteriormente, levado para Setúbal.

A população local respirou de alívio! No entanto, não foi a primeira vez que tal tipo de acontecimento teve lugar na costa de Cascais e certamente que não será o último. Aliás, a história de Cascais é rica neste tipo de acidentes e naufrágios[1], sendo que os testemunhos históricos mais antigos remetem-nos para 1147, altura em que alguns navios das forças cruzadas que vieram auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros naufragaram entre Sintra e Cascais[2].

12
Fig. 12 – Graças ao molhe de protecção da marina o petroleiro não se deslocou mais para terra. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
13
Fig. 13 – “Tokyo Spirit” já ao largo depois do desencalhe. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No fundo do mar de Cascais ficou uma amarra e um ferro que o Tokyo Spirit havia perdido durante o temporal. Somente em Maio de 2016 é que se procedeu à remoção destes materiais, sendo recolhidos mais de 300 metros de amarra, num total de cerca de 70 toneladas, enquanto que o ferro tinha perto de 11 toneladas[3].

14
Fig. 14 – Amarra recuperada. Fotografia: Autoridade Marítima Nacional.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Algumas filmagens deste encalhe podem ser visualizadas na seguinte página: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/.

[1] Cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na rota dos naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2006.

[2] Sobre estes naufrágios pouco falados, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf. Sobre este assunto, cf. igualmente https://sintraecascais.wordpress.com/2016/05/14/naufragios-no-litoral-de-sintra-cascais-em-1147/. 

[3] http://www.amn.pt/Media/Paginas/DetalheNoticia.aspx?nid=578 (consultada em 24/05/2016).

Uma noite de pesca ao polvo na embarcação “Horizonte Aberto” (Cascais)

Fig. 2
Fig. 1 – “Horizonte Aberto” na amarração.

Fig. 2
Fig. 2 – “Horizonte Aberto” visto de Sul.

Já passa da meia-noite. A companha do “Horizonte Aberto”, embarcação do estilo traineira construída em 1998 (Figueira da Foz), reúne-se no pontão mais recente de apoio aos pescadores de Cascais para a sua jornada de trabalho. O mestre, Miguel Diogo, também está a chegar. Finalmente embarcados no bote que faz o transporte do pessoal e do material até à embarcação de pesca, presa à amarração, um dos elementos da companha expressa a sua surpresa por nessa noite serem acompanhados por um historiador. Ausente das lides da pesca embarcada já há alguns anos, tive a oportunidade de voltar ao mar durante essa noite, desta vez apenas enquanto observador, pronto a recolher os elementos que permitissem fazer um resumo escrito da apanha do polvo-comum (Octopus vulgaris).

DSCF2282
Fig. 3 – Elemento da companha, oriundo da Ericeira, a tirar um polvo do alcatruz.

O mar estava relativamente calmo. O local em que decorreram as actividades foi a área costeira de Cascais e ao largo da barra do Tejo, entre 4 a 6 milhas de distância de terra, onde as teias de alcatruzes e de covos presentes no fundo do mar (20 a 50 braças de profundidade) vão permitindo a entrada e abrigo aos polvos. Se os alcatruzes não necessitam de isca para atrair aquela espécie carnívora de cefalópodes, os covos, pelo contrário, estavam a ser iscados com caranguejo proveniente de Setúbal, se bem que esta seja uma arte de pesca em que, frequentemente, também se usa a sardinha ou a cavala.

DSCF2286
Fig. 4 – Alcatruzes prontos para largar ao mar depois de terem fornecido dois polvos.
DSCF2332
Fig. 5 – Vira-se uma teia de covos.
DSCF2338
Fig. 6 – Retira-se um polvo do covo.
DSCF2316
Fig. 7 – Caranguejo de Setúbal usado como isca nos covos.

Investigações recentes mostraram que o polvo-comum capturado na costa de Cascais e ali desembarcado é de grande frescura e de elevada qualidade[1], sendo este mais um atractivo para quem quiser visitar esta vila e saboreá-lo nos diversos restaurantes e tascas. No caso do “Horizonte Aberto”, e para se conseguir uma elevada frescura dos exemplares capturados, uma mangueira ligada a uma bomba que puxa água do mar vai mantendo o polvo-comum fresco até se chegar a terra. De uma forma geral, esta é uma espécie que assume enorme importância no que respeita às capturas locais, representando uma grande fatia do pescado descarregado em Cascais[2].

DSCF2446
Fig. 8 – Mestre Miguel Diogo no comando das operações.

No entanto, a experiência a bordo do “Horizonte Aberto” não foi marcada apenas pelos aspectos especificamente ligados à pesca do polvo. A embarcação está dotada de um sistema tecnológico avançado, com radares que permitem compreender toda a movimentação marítima na área envolvente, o enquadramento geográfico em relação a terra, etc., fornecendo assim enorme segurança a quem exerce a actividade. Durante os trabalhos o mestre teve oportunidade de explicar diversos pormenores das movimentações marítimas e particularidades oceânicas desta área geográfica, como foi o caso dos enfiamentos da barra do Tejo por onde entram e saem os navios, algo bastante familiar face aos estudos histórico-arqueológicos para épocas mais recuadas que têm vindo a ser desenvolvidos.

DSCF2431
Fig. 9 – Pormenor da costa de Cascais e barra do Tejo.
DSCF2447
Fig. 10 – Pormenor da costa de Cascais.
DSCF2401
Fig. 11 – Radar Koden em funcionamento.

Por fim, depois de uma jornada produtiva, retornámos ao porto de Cascais já pelas 10:00 da manhã sob denso nevoeiro. Pouco depois procedeu-se à passagem das caixas de polvo para o bote de apoio e à consequente descarga no pontão antigo, contando-se com o auxílio de uma grua. Deste sítio o polvo foi levado de carrinha para ser vendido em Sesimbra.

DSCF2391
Fig. 12 – Limpeza de covos a bordo.
DSCF2423
Fig. 13 – Ao regressarmos a terra passámos perto do navio Elka Eleftheria (Monrovia). 
DSCF2450
Fig. 14 – Pormenor da entrada da Marina de Cascais.
DSCF2441
Fig. 15 – Registo recente do diário de bordo.
Mestre e companha
Fig. 16 – Mestre e companha do “Horizonte Aberto” (Agosto de 2016).
DSCF2481
Fig. 17 – Resultado final.
DSCF2505
Fig. 18 – Descarga do polvo.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Ana LEONARDO, Estudo da qualidade do polvo-comum (O. vulgaris) capturado na baía de Cascais. Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, 2010, pp. III e 42.

[2] Idem, ibidem, pp. 3-4.

Diogo Cão em Cascais com o prisioneiro Eustache de La Fosse (1480)

1
Fig. 1 – Capa da obra Crónica de uma viagem à costa da Mina no ano de 1480.

Decorria o ano de 1480 quando aportou em Cascais uma armada portuguesa possivelmente liderada por Diogo Cão[1], navegador que mais tarde viria a realizar 2 ou 3 viagens de exploração pela costa ocidental africana em busca do extremo Sul do continente[2]. A armada vinha da Costa da Mina, trazendo como prisioneiro Eustache de La Fosse, mercador flamengo que integrava uma expedição castelhana de 3 caravelas que haviam sido capturadas nessa área do Golfo da Guiné e que, anos mais tarde, viria a escrever um relato detalhado da sua viagem (fig. 1).

Chegado às águas da Mina a 17 de Dezembro de 1479, e estando numa área interdita a estrangeiros, Eustache de La Fosse já havia andado a comerciar escravos, preparando-se agora para atingir a aldeia portuária das Duas Partes. Este local estava situado na região de maior afluxo de ouro do Golfo da Guiné, próximo do sítio onde viria a ser erguida a feitoria-fortaleza da Mina. No entanto, antes de chegar àquela aldeia, a caravela de Eustache de La Fosse acabaria por ser atacada e interceptada por 4 caravelas sob comando aparente de Diogo Cão (7 de Janeiro de 1480). No dia anterior já as outras 2 caravelas castelhanas que integravam a expedição haviam sido capturadas pelos portugueses e levadas para a Mina[3].

Golfo da Guiné
Fig. 2 – Golfo da Guiné.
Braun_Elmina_UBHD
Fig. 3 – Feitoria-fortaleza da Mina. Fonte: Georg Braun, Civitates orbis terrarum, 1572.

Pelo tratado de Alcáçovas, firmado a 4 de Setembro de 1479 por Portugal e Castela, celebrava-se a paz entre os dois reinos, pondo-se fim a uma guerra que vinha desde 1475. Nesse tratado Castela comprometia-se a reconhecer o direito português aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, bem como a todas as terras e ilhas já descobertas ou que viessem a ser descobertas a Sul das Canárias, reservando-se a navegação e o exclusivo comercial para Portugal. Portanto, ficava acordado que doravante apenas os portugueses poderiam navegar para Sul daquele arquipélago.

Neste seguimento, a presença de Eustache de La Fosse no Golfo da Guiné era uma clara violação do tratado recentemente firmado, pelo que os portugueses fizeram legítimo uso da força contra as 3 caravelas que se aventuraram por aquelas paragens. A rainha castelhana D. Isabel continuava a enviar outros navios secretamente para a Costa da Mina, facto que levou D. Afonso V, no dia 6 de Abril de 1480 (um mês após a ratificação do tratado de Alcáçovas), a conceder certos poderes aos capitães que o príncipe D. João enviava àquelas partes. Com efeito, ordenava-se que fosse apresado qualquer navio que violasse a linha de demarcação estabelecida no tratado, tanto de Castela como de outro Reino, e que as suas tripulações fossem lançadas ao mar “pera que mouram logo naturallmemte”[4].

Eustache de La Fosse, os seus homens e os das outras caravelas não foram lançados ao mar, uma vez que foram capturados três meses antes de o rei português ter dado aquelas ordens, as quais ainda não tinham chegado a Diogo Cão e aos restantes portugueses envolvidos na captura. Devido ao facto de terem feito muitos prisioneiros, os portugueses acabariam por libertar os marinheiros intrusos e o seus ajudantes. Devolveram-lhes uma das caravelas castelhanas e deixaram que partissem rumo a Castela com alguma água, biscoito, uma vela e uma âncora. No entanto, os restantes não tiveram tanta sorte. Na indecisão sobre o castigo que deveria ser aplicado aos homens mais importantes, ficou determinado que o mercador flamengo e outros seriam levados para Portugal. Já de regresso ao Reino, a última escala que a armada portuguesa fez foi nas ilhas de Cabo Verde. Sem haver mais informações de terra firme ou ilhas, nem sequer a passagem pelos Açores, que habitualmente era feita com recurso à volta pelo largo, os navios chegaram à costa portuguesa e ancoraram em Cascais:

         “E após várias jornadas mais [eis que] chegámos a Portugal na véspera do Pentecostes, cerca da meia-noite e deitámos âncora [frente] a Cascalaix [Cascais], vila que se situa na embocadura do rio de Lisboa. Logo na manha seguinte foi-se um cavaleiro até ao Rei para lhe anunciar a chegada das caravelas [vindas] da Mina de Ouro. Fomo-nos para Setomire [Setúbal], pois a peste reinava em Lisboa, e ali compareceram os comissários do Rei para se inteirarem sobre as novas anunciadas: o que trazíamos da Mina, o que era a semente do paraíso – e também para decidir o que seria feito de nós, [uma vez que] portugueses não éramos […]”[5].

Conforme atesta o trecho, quando as caravelas da Mina chegaram a Cascais deparam-se com dois factores que não permitiram a continuação da viagem para Lisboa. O primeiro tem a ver com o facto de a chegada àquele porto ter acontecido perto da meia-noite, sendo que não se arriscava uma entrada nocturna na sempre perigosa barra do Tejo, situação que obrigou os navios a permanecerem em Cascais até ao dia seguinte. O segundo factor está ligado ao surto de peste que grassava em Lisboa e que condicionava fortemente a viagem para a capital. Aliás, como aconteceu em muitos outros casos em que estava afectada a saúde pública devido a surtos de peste mais persistentes, chegava-se a proibir a entrada no rio Tejo e a continuação da viagem para Lisboa[6].

2
Fig. 4 – O porto de Cascais em finais do século XV. Fonte: Georg Braun, Civitates orbis terrarum, 1572.

No dia seguinte à chegada a Cascais as caravelas rumaram a Setúbal. Quanto a Eustache de La Fosse, esse acabaria por ser condenado à forca por viajar até à Costa da Mina sem autorização do rei português. Porém, antes da execução da sentença e mediante a promessa de 200 cruzados a serem pagos em Sevilha, o flamengo conseguiu fazer razoado concerto com o carcereiro da prisão (Alcácer do Sal) acabando por fugir com alguns dos seus homens[7]. Muitos anos depois veio a legar-nos uma magnífica descrição onde abordou as peripécias da sua viagem à Costa da Mina e o consequente transporte como prisioneiro para Portugal, feito na sua própria caravela (La Mondadine), mas sob comando de Diogo Cão.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 71-72.

[2] António Manuel GONÇALVES, “Diogo Cão”, in Francisco Contente DOMINGUES (dir.), Dicionário da Expansão Portuguesa, 1415-1600, vol. I, Lisboa, Círculo de Leitores, 2016, pp. 209-211.

[3] Eustache de LA FOSSE, Crónica de uma Viagem à Costa da Mina no ano de 1480. Pról. de Joaquim Montezuma de CARVALHO. Trad. e adaptação do texto por Pedro ALVIM, Lisboa, Vega, 1992, pp. 62-63.

[4] Cf. Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas portuguesas […], Lisboa, Imprensa Nacional, 1892, pp. 45-46; Damião PERES, História dos descobrimentos portugueses, 4.ª ed., Porto, Vertente, 1992, p. 195; Ana Maria Pereira FERREIRA, Problemas marítimos entre Portugal e a França na primeira metade do século XVI, Cascais, Patrimónia Histórica, 1995, p. 218, n. 292.

[5] Eustache de LA FOSSE, op. cit., pp. 69-71.

[6] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 66 e 72.

[7] Eustache de LA FOSSE, op. cit., pp. 71-81.

Naufrágios no litoral de Sintra-Cascais em 1147

Roca
Fig. 1 – Vista aérea do cabo da Roca. Fonte: http://www.e-cultura.sapo.pt/patrimonio_item/2513.

A referência documental mais antiga que se conhece de um naufrágio (ou naufrágios) ocorrido na costa de Sintra-Cascais remete-nos para 1147[1]. A 28 de Junho deste ano, vindo auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros, alguns navios da frota cruzada proveniente do Norte da Europa apanharam um temporal ao largo do litoral de Sintra-Cascais, situação que pôs em perigo a navegação e levou a naufrágios. Conforme refere Raul de Glanville[2], um dos cruzados ingleses que participou na tomada de Lisboa e que escreveu sobre os acontecimentos, “o vento que soprava dos montes de Sintra açoutou os navios com tão grande tempestade, que se afundou uma parte dos batéis com a sua tripulação”[3].

11
Fig. 2 – Invocação contra os diabos provocadores de naufrágios (segunda metade do século XV). Fonte: Paulo Lopes, O medo do mar nos Descobrimentos, Lisboa, Tribuna, 2009.

Tendo em conta que navios de diferentes origens geográficas e tipologias faziam parte desta frota de guerra, a qual era constituída por perto de 164 embarcações ou até mais[4], decerto que não foram propriamente batéis que vieram ao fundo com as suas tripulações. Perante tal tempestade, e embora o cruzado omita certos pormenores, a frota acabou por aportar e abrigar-se em Cascais, não seguindo directamente para Lisboa[5].

Muito embora os dados sejam bastante lacónicos, estamos perante um caso que vem enriquecer o conhecimento sobre os naufrágios ocorridos ao largo de Sintra e Cascais ao longo dos séculos, constituindo mais um exemplo do potencial arqueológico subaquático desta costa.

Figura 1
Fig. 3 – Sistema defensivo no Baixo Vale do Tejo durante o Período Islâmico (em construção).

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Sobre este assunto, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf.

[2] Seguimos o nome do cruzado com base no que a crítica historiográfica mais recente propõe (cf. Maria João V. BRANCO, “Introdução”, in A Conquista de Lisboa aos Mouros. Relato de um Cruzado. Ed., trad. e notas de Aires A. NASCIMENTO, 2.ª ed., Lisboa, Vega, 2007, pp. 28-30).

[3] Cf. Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um cruzado inglês que participou nos acontecimentos, Lisboa, Livros Horizonte, 1989, p. 31.

[4] As fontes não são concordantes, chegando a ser referidos c. 164 navios, 170, 180, 190 ou até mesmo 200 (cf. Pedro Gomes BARBOSA, Conquista de Lisboa, 1147. A Cidade Reconquistada aos Mouros, Lisboa, Tribuna, 2004, p. 27; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 126-128 e 141).

[5] Crónica dos Cinco Reis de Portugal, vol. I, [Porto], Civilização, 1945, cap. XXI, pp. 92-93; Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 127-129.

Sintra e Cascais na rota dos ataques vikings (séculos IX-XI)

Vikings
Simulação de um ataque viquingue à Catoira (Galiza).                 Fotografia: oglobo.globo.com

Os ataques vikings entraram no registo cronístico da Europa Ocidental em 788, altura em que, confundido com comerciantes, um grupo de nórdicos atacou o Sul de Inglaterra e matou um representante régio local[1]. Poucos anos depois, em 793, saquearam o mosteiro inglês de Lindisfarne. O acontecimento chocou clérigos como Alcuíno de Iorque, que, numa carta escrita a partir da corte de Carlos Magno, interpretou o acontecimento sucedido como um castigo divino pelo desleixo moral do rei da Northumbria e do seu povo[2].

Estas incursões, partidas inicialmente dos territórios que viriam a ser conhecidos por Dinamarca, Noruega e Suécia, haveriam de atingir, algumas décadas depois, o Ocidente ibérico, com Lisboa a ganhar destaque como alvo das primeiras investidas. Assim, a primeira informação da presença viking[3] no actual território que corresponde a Portugal remete-nos para 844. Por volta do dia 20 de Agosto deste ano[4], 54 navios nórdicos e 54 cáravos[5] atacaram Lisboa numa investida que se prolongou por treze dias e que resultou em três batalhas com os muçulmanos locais[6]. Foi Ibn Hayyan (987-1076), citando al-Razi (888-955), que abordou a chegada dos Majus (ou Magus)[7] por essa altura. O emir Abd al-Rahman II, avisado da chegada dos guerreiros nórdicos pelo governador de Lisboa (Whab Allah Ibn Hazm), pôs em alerta as cidades costeiras a Sul. No entanto, o relato de Ibn al-Qutiya (m. 977), em conjugação com o al-Muqtabis de Ibn Hayyan, permite pensar que este ataque possa não ter sido somente à cidade de Lisboa mas também a outras localidades situadas no distrito[8]. Deste modo, Sintra[9] – que na altura tinha um rio navegável – e Cascais, na rota das navegações para Lisboa, poderão ser locais implícitos nos relatos muçulmanos[10]. É possível, igualmente, que as investidas de 844 tenham tido extensão a outras áreas já dentro do Tejo, até mesmo a Santarém[11].

Já para Sul, as investidas deste ano haveriam de se estender a Sevilha, Sidónia e a Cádis. No regresso ao Norte, depois de terem sofrido várias baixas e de terem perdido 34 navios nas costas da Andaluzia, Ibn Idhari (séculos XIII-XIV) refere que houve nova passagem dos guerreiros nórdicos por Lisboa embora não se saiba exactamente o que aconteceu[12]. Porém, al-Qurashi, citado por Ibn Hayyan, refere que os viquingues sofreram uma derrota no distrito de Lisboa, sendo “triturados por la guerra”[13].

vikings-1100-vida-de-s-aubin
Guerreiros nórdicos num ataque a Angers (911). Representação presente num manuscrito francês de 1100 (Vida de S. Aubin).
791px-Excavation_Oseberg_ship_1
Escavação de um navio nórdico (1904).                        Fotografia: Viking Ship Museum (Oslo).

Nas suas demoradas e longínquas expedições os viquingues tiveram de usar pontos de apoio temporário ao longo da faixa costeira atlântica e mediterrânica, sendo que alguns poderão mesmo ter mantido o nome que era dado a esses guerreiros depois da sua partida[14]. Por outro lado, é possível que uma ocupação nórdica de certas áreas também possa ter derivado da doação cristã de terras em zona de fronteira[15]. Estas são situações que, para o caso do actual território português, têm sido pensadas para três locais: Lorvão[16] e Lordemão[17], no actual distrito de Coimbra, e Salvaterra de Magos[18], no de Santarém. Naturalmente que estes guerreiros nórdicos, levando a cabo expedições que se prolongavam no tempo – até mesmo devido às condicionantes atmosféricas e oceânicas que enfrentavam –, precisavam de locais para aportar, descansar, arranjar alimentos e poder consertar os navios, isto quando não era mesmo para invernar. Assim, para além dos locais referidos, decerto que terão existido outros sítios no actual território português usados temporariamente pelos nórdicos, até mesmo no Noroeste, área onde estes guerreiros chegaram a raptar algumas pessoas e a pedir resgates. Em 1015, durante nove meses, um grande número de nórdicos saqueou e fez prisioneiros entre o rio Douro e o rio Ave. Essas investidas apanharam três filhas de um homem chamado Amarelo Mestaliz, o qual conseguiu pagar o respectivo resgate a muito custo[19]. Já mais para Sul, as proximidades de Lisboa[20], quer nas margens do rio Tejo[21], quer já fora do estuário, inclusive a extensa e abrigada enseada de Cascais, também são hipóteses a ter em conta enquanto possíveis locais usados pelos nórdicos para a apoio à sua navegação[22].

Lordemão
Placa toponímica alusiva a Lordemão (Coimbra), étimo possivelmente associado a uma presença nórdica. Fotografia: https://cidadaosporcoimbra.pt

Note-se que outros ataques a Lisboa ocorreram em 858 e, possivelmente, em 859. Nesta última investida, levada a cabo por 62 navios, Ibn Idhari refere que dois dos que se haviam adiantado à restante frota (e que vinham carregados com ouro, prata, escravos[23] e provisões) acabaram mesmo por ser capturados por navios muçulmanos na costa de Beja[24], ou seja, algures na área costeira atlântica a que o distrito presidia[25], ou até mesmo já no Guadiana[26].

Decorreria muito tempo até que os viquingues voltassem novamente a atacar Lisboa, se bem que estes guerreiros possam ter levado a cabo ataques pela costa ocidental da Península Ibérica dos quais não subsistiu registo[27]. Assim, em 966, estes guerreiros nórdicos voltaram a atacar aquela cidade, vindo a enfrentar as forças muçulmanas locais numa batalha com vários mortos entre ambas as partes e de desfecho desconhecido[28]. Desta vez, Ibn Idhari faz menção a 28 navios nórdicos, sendo que ainda houve um combate no rio Arade (Silves) que opôs as forças nórdicas à frota muçulmana saída de Sevilha.

representacao-de-embarcacoes-nordicas
Representação de embarcações nórdicas, uma delas levando 8 cavalos.
Carranca
Figura de proa de um navio nórdico.
capacete-viking
Capacete nórdico. Contrariamente ao que por vezes é dito e representado, os capacetes dos vikings não tinham chifres.
Mapa
Locais de alguns acontecimentos da Idade Viquingue, c. 790 até c. 1100. Mapa: Hélio Pires, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], p. 301.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Este pequeno artigo de divulgação histórica, embora aqui surja com algumas modificações e acrescentos, foi adaptado de um trabalho mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, pp. 413-414 e 424-425. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/10196133/A_defesa_costeira_do_litoral_de_Sintra-Cascais_durante_a_%C3%A9poca_isl%C3%A2mica._II_-_Em_torno_do_porto_de_Cascais_2014.

[2] Hélio PIRES, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico (844-1147): Fontes, História e Vestígios. Tese de Doutoramento em História Medieval, Universidade Nova de Lisboa, 2012, pp. 7-8.

[3] O termo “viking”, na Escandinávia, não designava um povo, como por vezes vemos referido nos dicionários e enciclopédias de língua portuguesa, mas sim uma actividade ou grupos dos que a ela se dedicavam, sendo que a prática que mais lhe ficou associada nas fontes anglo-saxónicas e islandesas foi a pirataria (cf. idem, ibidem, pp. 1-4).

[4] Idem, ibidem, p. 104, n. 20.

[5] Ainda que pudessem não ser exactamente 54 navios de cada tipo, certamente que os cáravos com que os nórdicos chegaram a Lisboa teriam sido tomados ao longo da costa, na investida para Sul. Neste sentido, Lisboa não teria sido o primeiro alvo nórdico (idem, ibidem, p. 109).

[6] Ibn HAYYAN, Crónica de los emires Alhakam I y Abdarrahman II entre los años 796 y 847 [Almuqtabis II-1]. Trad., notas e índices de Mahmud Ali MAKKI y Federico CORRIENTE, Zaragoza, Instituto de Estudios Islámicos y del Oriente Próximo, 2001, p. 312; António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 3.ª ed. rev., Lisboa, Editorial Caminho, 2008, p. 169.

[7] Foi aos zoroastristas, cujo culto original teve base na Pérsia, sendo os seus actos tradicionalmente acompanhados por um fogo sagrado, que os muçulmanos inicialmente chamaram al-magus. Porém, a partir do século IX, o termo surge nas fontes do al-Ândalus referindo-se, não aos zoroastristas, mas sim aos piratas nórdicos que os muçulmanos “identificaram como um outro em cujas práticas religiosas não se reconheciam”. Nesse sentido, “identificando-os como pagãos, recorreram à expressão clássica que, em cânones árabes, denominava os não-crentes – os magos”. Portanto, esta também não é uma forma de identificar um povo específico, mas sim uma referência vaga ao “outro”, àquele que não é muçulmano, judeu ou cristão (Hélio PIRES, op. cit., pp. 92-93).

[8] ABENALCOTÍA, Historia de la conquista de España de Abenalcotía el Cordobés. Seguida de fragmentos históricos de Abencotaiba, etc. Trad. de Don Julián RIBERA, Madrid, Tipografía de la Revista de Archivos, 1926, p. 50; Hélio PIRES, op. cit., p. 104; Fernando Branco CORREIA, “A acção do poder político nas actividades portuárias e na navegação no ocidente islâmico. Alguns tópicos”, in Jesús Angel SOLÓRZANO TELECHEA e Mário VIANA (eds.), Economia e Instituições na Idade Média. Novas Abordagens, Ponta Delgada, Centro de Estudos Gaspar Frutuoso, 2013, pp. 13-14.

[9] Hélio PIRES, op. cit., p. 105.

[10] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 414 e 424-425.

[11] Pedro Gomes BARBOSA, Reconquista Cristã. Séculos IX-XII, Lisboa, Ésquilo, 2008, pp. 131-132.

[12] António Borges COELHO, op. cit., pp. 170-171.

[13] Ibn HAYYAN, op. cit., pp. 316-317; Hélio PIRES, op. cit., p. 111.

[14] Tal como Ibn Idhari refere para o caso de uma cidade mediterrânica (cf. António Borges COELHO, op. cit., p. 174).

[15] Vide infra, n. 17.

[16] A hipótese é colocada por Joseph M. Piel, por se ter “lembrado do etnónimo Lordemanos/Lordemãos, […] a forma medieval corrente que se substituiu à historicamente mais conforme de Nordemanos, literalmente “homens do Norte”, ou seja os Normandos, aliás Viquingos” (cf. Joseph M. PIEL, Sobre a origem do nome do mosteiro de Lorvão, sep. de Biblos, LVII, 1981, p. 169).

[17] À semelhança do topónimo Lordemanos, existente na província de Leão, e no seguimento da hipótese levantada por Joseph M. Piel (cf. Vicente ALMAZÁN, Gallaecia Scandinavica. Introducción ó estúdio das relacións galaico-escandinavas durante a Idade Media, Vigo, Galáxia, 1986, pp. 119-120; Hélio PIRES, op. cit., pp. 260-261).

[18] Povoação inicialmente designada por “Paul de Magos”. A presente “hipótese baseia-se no facto de os muçulmanos designarem por «maghus» aqueles que a documentação cristã chama «lordomani»” (Pedro Gomes BARBOSA, op. cit., pp. 131-132; Fernando Branco CORREIA, “Fortificações de iniciativa omíada no Gharb al-Andalus nos séculos IX e X – hipóteses em torno da chegada dos Majus (entre Tejo e Mondego)”, in Isabel Cristina F. FERNANDES (coord.), Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (séculos VI a XVI), vol. I, Lisboa, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola, 2013, p. 85, n. 50.

[19] Hélio PIRES, “Money for freedom: ransom paying to Vikings in Western Iberia”, in Viking and Medieval Scandinavia, 7 (2011), pp. 125-130; idem, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], pp. 91 e 171-190.

[20] Idem, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], p. 115.

[21] Fernando Branco CORREIA, op. cit., p. 85, n. 50.

[22] Isabel Cristina Ferreira FERNANDES, “Aspectos da litoralidade do Gharb al-Andalus: os portos do Baixo Tejo e do Baixo Sado”, in Arqueologia Medieval, 9 (2005), p. 53; Marco Oliveira BORGES, op. cit., 424-425.

[23] Pouco depois de 860, os viquingues venderam alguns negros na Irlanda anteriormente capturados em Marrocos (cf. Claudio SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Normandos en España durante el siglo VIII?, sep. de Cuadernos de Historia de España, Buenos Aires, 1957, p. 314).

[24] António Borges COELHO, op. cit., p. 173.

[25] Hélio PIRES, op. cit., pp. 114-115.

[26] Helena CATARINO, “Breve sinopse sobre topónimos Arrábida na costa portuguesa”, in Francisco FRANCO SÁNCHEZ (ed.), La Rábita en el Islam. Estudios Interdisciplinares. Congressos Internacionals de Sant Carles de la Ràpita (1989, 1997), Sant Carles de la Ràpita/Alacant, Ajuntament de Sant Carles de la Ràpita/Universitat d’Alacant, 2004, p. 264.

[27] Hélio PIRES, op. cit., p. 129.

[28] Neste caso, o califa foi avisado da investida nórdica por intermédio de Alcácer do Sal (António Borges COELHO, op. cit., p. 174; Hélio PIRES, op. cit., pp. 129-130).