A verdadeira Ponta do Salmodo (Cascais)

Assinalado.jpg
Fig. 1 – Costa de Cascais com a indicação da Ponta do Salmodo. Fonte: Francisco Maria Pereira da Silva, Plano hydrographico da barra do porto de Lisboa […], [1879?], (BNP).

Diversa cartografia dos séculos XIX-XX mostra que o topónimo “Ponta do Salmodo” está junto ao local em que foi edificado o forte e o farol de Santa Marta, ligeiramente a Sul da praia com o mesmo nome. Isso é visível, por exemplo, no mapa que acompanha este post, destacando-se o topónimo dentro de um rectângulo vermelho.

Farol
Fig. 2 – Farol Museu de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No entanto, devido a uma imprecisão historiográfica com várias décadas, este topónimo tem vindo a ser erroneamente indicado como correspondendo ao sítio em que foi edificada a torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais (c. 1494). Embora tenhamos vindo a alertar, nos últimos anos, para esta imprecisão e diversos falsos factos históricos que persistem na história local[1], o assunto continua a ser erroneamente indicado ao público, tanto em livros recentes de História de Cascais[2] como no reinaugurado Museu da Vila.

Marco Oliveira Borges | 2020

[1] Cf. Marco Oliveira Borges, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, in História. Revista da FLUP, IV: 5 (2015), p. 94, n. 7; idem, “Controvérsias e falsos factos históricos sobre a torre que D. João II mandou construir em Cascais (c. 1494)”, 2017 [disponível em: https://sintraecascais.wordpress.com/2017/05/28/controversias-e-falsos-factos-historicos-sobre-a-torre-que-d-joao-ii-mandou-construir-em-cascais-c-1494].

[2] Cf., e.g., Cascais. Território, história, memória, 2.ª ed., Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2015, p. 17.

A aportagem de Cristóvão Colombo em Cascais (4 de Março de 1493)

 

Fig. 2
Fig. 1 – Pormenor da vila e porto de Cascais presente na gravura publicada por Braun e Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572 (ICGC).

Embora durante muito tempo a historiografia tenha indicado, de uma forma geral, que o Restelo foi a sua primeira escala continental[1], Cristóvão Colombo (ou Colon) aportou em Cascais (1493) no decorrer da torna-viagem da primeira expedição feita ao serviço dos Reis Católicos[2]. Regressando das suas descobertas a Ocidente, Colombo partiu da ilha do Haiti na caravela Niña e em companhia da Pinta – que foi ter a Baiona –, seguindo em diagonal até à latitude dos Açores, no intuito de aproveitar os ventos favoráveis de Oeste. Depois de vários dias no mar daquele arquipélago, onde veio a ter problemas com os locais, nomeadamente em Santa Maria, Colombo largou de vez a 24 de Fevereiro.

A 3 de Março, já depois do pôr-do-sol e após sessenta milhas feitas, a Niña apanhou um turbilhão tão violento que arrancou todas as velas da caravela, colocando a tripulação em grande perigo. Daí em diante, seguiu “com os mastros nus” e sob forte tempestade, até que, finalmente, surgiram sinais de que se estava próximo de terra. Foi então que, “na falta de outro meio para navegar um pouco e apesar do grande perigo que havia de aguentar o mar”, Colombo mandou içar o papa-figos[3] do grande mastro “para ver se havia um porto ou qualquer outro lugar onde pudesse abrigar-se”[4].

Pela latitude a que Colombo se dirigia para a costa portuguesa, dois portos ficavam mais próximos: Ericeira e Cascais. Como o primeiro estava bastante exposto a temporais, era Cascais que oferecia um abrigo mais seguro. Este porto destacava-se no apoio à navegação e como refugio habitual de navios que pretendiam fugir a tempestades, funcionando ainda como anteporto oceânico de Lisboa, sendo que a entrada no Tejo não era feita de forma directa, esperando-se no porto cascalense por maré e vento favorável para se entrar na barra. Era também em Cascais que residiam os pilotos práticos que conheciam bem as condicionantes geográficas desta área e que ajudavam a colocar os navios pelos perigosos canais de navegação do Tejo, tentando evitar encalhes e naufrágios. Procurando um porto de abrigo, decerto que Colombo já teria a ideia definida de se refugiar em Cascais, local de apoio a toda a navegação com destino a Lisboa e também de auxílio frequente aos navios que circulavam entre o Mediterrâneo e o Norte da Europa[5].

Niña
Fig. 2 – “Réplica” da Niña. Caravela que fez parte da armada de 3 navios que integrou a 1.ª viagem de Cristóvão Colombo ao serviço de Castela.
Rota 1493
Fig. 3 – Rotas de ida e volta seguidas por Cristóvão Colombo nas duas primeiras viagens ao serviço de Castela. Fonte: Jesus Varela Marcos e M.ª Montserrat León Guerrero, El Itinerario de Cristóbal Colón (1451-1506), Valladolid, Diputacíón de Valladolid et al., 2003.

A 4 de Março, ainda sob forte temporal, a Niña fez a aproximação à costa portuguesa junto ao cabo da Roca, tendo aportado em Cascais, onde esteve algumas horas:

“Ao amanhecer, o almirante reconheceu a terra. Era o rochedo de Sintra que fica muito perto do rio de Lisboa, no qual decidiu entrar porque não podia fazer outra coisa, tão terrível era a tempestade que se abatia sobre a cidade de Cascais, situada na embocadura. Os da cidade, disse, ficaram toda essa tarde em oração por eles, e, quando em seguida ficaram no porto, toda a gente veio vê-los, maravilhados por terem escapado. Foi assim que à terceira hora o almirante passou para o Restelo, no interior do rio de Lisboa, onde a gente do mar lhe disse que nunca se tivera um Inverno tão fértil em tempestades, que vinte e cinco navios se tinham perdido nas Flandres e que outros estavam lá há quatro meses sem poderem sair”[6].

Conforme se pode ver pelo trecho citado, antes de demandar a barra do Tejo e chegar ao Restelo, a Niña – pilotada por Sancho Ruíz de Gama e Pedro Alonso Niño – teve de se abrigar em Cascais. Contrariamente ao que por vezes é dito[7], Cristóvão Colombo e as outras pessoas que vinham a bordo da Niña, ao chegarem a Cascais, não terão visto a torre defensiva que D. João II mandou construir naquele porto, pois essa só terá começado a ser edificada no ano seguinte[8].

Depois de passada a tempestade e de feitos os devidos consertos na aparelhagem da caravela, em vez rumar a Castela, onde se tinha organizado a expedição, a Niña veio, horas mais tarde, a entrar no Tejo, acabando por ancorar no Restelo. Poucos dias depois deu-se o célebre encontro entre Colombo e D. João II em Vale do Paraíso, localidade situada a nove léguas de Lisboa.

O que se torna mais problemático é tentar saber se Colombo, ao dirigir-se a Cascais e, posteriormente ao Restelo, ia apenas com a intenção de procurar abrigo ou também de falar pessoalmente com D. João II, como veio a acontecer. Recorde-se que Colombo vinha de uma primeira expedição marítima ao serviço dos Reis Católicos. Seja como for, qualquer um dos motivos indicados colocava Colombo na rota de Cascais.

Marco Oliveira Borges | 2019

[1] Cf., e.g., Damião PERES, História dos Descobrimentos Portugueses, 4.ª ed., Porto, Vertente, 1992, p. 271; Luís Adão da FONSECA, D. João II, [Lisboa], Círculo de Leitores, 2005, p. 120.

[2] Este pequeno artigo de divulgação histórica, ainda que tendo sido sujeito a pequenas modificações, foi retirado de um estudo mais alargado: Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 74-76. Voltaremos à passagem de Cristóvão Colombo por Cascais num outro lugar.

[3] Sobre os diferentes tipos de papa-figos, cf. Humberto LEITÃO, “Papafigos”, in Dicionário da Linguagem de Marinha Antiga e Actual. Com a colab. do Comandante José Vicente Lopes, 2.ª ed., Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos da Junta de Investigações Cientificas do Ultramar, 1974, p. 392; António Marques ESPARTEIRO, “Papa-figos”, in Dicionário Ilustrado de Marinha, 2.ª ed., rev. e actualizada pelo Comandante J. Martins e Silva, Lisboa, Clássica Editora, 2001, p. 409. O papa-figos de correr, por exemplo, era uma vela de menor superfície que as usuais, sendo usada especialmente em casos de mau tempo.

[4] Cristóvão COLOMBO, A Descoberta da América. Diário de bordo da 1.ª viagem, 1492-1493. Pref. de Luís de Albuquerque, Mem Martins, Publicações Europa América, [1990], p. 184.

[5] Sobre este assunto, cf. Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 61-81, 102-113 e passim.

[6] Cristóvão COLOMBO, op. cit., p. 184.

[7] Carlos CALADO, “Cascais, abrigo de Cristóvão Colon”, in Arquivo de Cascais. História, Memória, Património, 14 (2015), p. 35.

[8] Marco Oliveira BORGES, “A torre defensiva que D. João II mandou construir em Cascais: novos elementos para o seu estudo”, in História. Revista da FLUP, IV: 5 (2015), pp. 104-106 e 114. Em breve, na nossa dissertação de Doutoramento, iremos apresentar novos dados sobre a torre de Cascais.

Inauguração do novo Arquivo Histórico Municipal de Cascais

dscf4830
Casa Sommer – Arquivo Histórico Municipal de Cascais.

Inaugurado no passado dia 7 de Dezembro de 2016, o novo Arquivo Histórico Municipal de Cascais encontra-se sedeado na Casa Sommer, junto à igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção. A cerimónia de inauguração foi dirigida pelo presidente da autarquia local, Carlos Carreiras, e pelo presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

2
Público que assistiu à inauguração.

Após vários anos em obras de requalificação, estão finalmente prontos os dois edifícios que compõem a famosa Casa Sommer. No edifício principal, voltado a Sul, encontra-se a livraria municipal, várias salas de exposição, uma sala de atendimento e outra de leitura. No outro, que funcionou como antiga cocheira e que se encontra a Norte, estão situadas as salas de gabinete técnico, de expediente e de recepção de documentação. Os dois edifícios são ligados por um corredor subterrâneo onde se situa o depósito do novo arquivo, guardando actas municipais cuja antiguidade remonta a meados do século XVII.

Assumindo-se igualmente como Centro de História Local, acessível a todos os cidadãos e a investigadores interessados em consultar as fontes disponíveis para a reconstituição histórica do passado local, o novo arquivo está aberto de 2.ª a 6.ª-feira, das 9 às 17 horas, e aos Sábados, Domingos e feriados, das 10 às 18 horas. Para informações mais detalhadas, consulte a seguinte ligação: http://www.cm-cascais.pt/noticia/casa-sommer-ja-pode-ser-visitada.

3
Parte do público que assistiu à inauguração do Arquivo Histórico Municipal.

Marco Oliveira Borges | 2016

Está de volta o Arquivo de Cascais

digitalizar0001
Fig. 1 – Capa do n.º 14 do Arquivo de Cascais. Passeio D. Maria Pia (1890).

Foi apresentado, no passado dia 7 de Maio perante uma plateia bem composta (FNAC do CascaiShopping), o n.º 14 do Arquivo de Cascais. História, Memória, Património (2015). As actividades de apresentação da obra e dos autores que contribuíram com artigos inéditos ficaram a cargo de Marco Espinheira, director municipal da Câmara de Cascais, Ana Paula Avelar, professora da Universidade Aberta, e Cristina Carvalho, professora da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

DSCF8672
Fig. 2 – Apresentadores da obra. Marco Espinheira, Ana Paula Avelar e Cristina Carvalho. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Depois de um longo interregno de dez anos, o n.º 14 deste Arquivo, iniciado em 1980, traz onze artigos de diferentes investigadores (três deles escritos em co-autoria), contando igualmente com um prefácio de Carlos Carreiras, presidente da Câmara Municipal de Cascais. O espaço cronológico em foco tem início no século IX e termina em 1974, tendo sido abordadas novas reflexões sobre a origem do topónimo Cascais e a possível ligação com o navegador Khashkhash, a passagem de Cristóvão Colon pelo porto desta vila quando voltou da primeira viagem ao serviço dos Reis Católicos (1493), o Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Cascais (1587-1941), a Estrada Nacional 9 – Cascais e Alenquer, o “brasão” da capela da Cidadela, o fundo Marqueses de Cascais no Arquivo da Casa de Louriçal, a figura de Gaston Landeck, a obra de António de Oliveira Bernardes na Casa de Santa Maria, bem como aspectos de informação e promoção turística oficial nas décadas de 1920-1930, o Rádio Clube Português e a guerra civil de Espanha e, por fim, um roteiro fílmico de Cascais e Estoril.

Este novo n.º do Arquivo de Cascais já está à venda na FNAC do CascaiShopping, local onde recentemente foram disponibilizadas outras obras de investigação editadas pela Câmara Municipal de Cascais, sendo que em breve estará igualmente disponível para consulta no site da Câmara. Para quem quiser consultar os 13 volumes anteriores poderá fazê-lo na Biblioteca Municipal de Cascais – Casa da Horta da Quinta de Santa Clara.

De vital importância para o conhecimento do passado cascalense, renovação histórica e divulgação perante o público, espera-se que doravante o Arquivo de Cascais possa retomar a periodicidade de outros tempos, continuando a trazer um contributo inter-geracional e inovador entre os vários investigadores que se dedicam ao estudo do passado deste concelho.

DSCF8674
Fig. 3 – Assistência durante a apresentação. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
digitalizar0003
Fig. 4 – Índice do Arquivo de Cascais, n.º 14.
digitalizar0002
Fig. 5 – Cronologia de publicação do Arquivo de Cascais.

Marco Oliveira Borges | 2016