Cascais elevada a vila (7 de Junho de 1364)

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Fig. 1 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 97v.

Corria o longínquo ano de 1364 quando, solicitando ao rei D. Pedro I que os libertasse da sujeição a Sintra, os homens-bons de Cascais viram este lugar ser elevado à categoria de vila. Outorgada a 7 de Junho desse ano, em Santarém, a carta de vila de Cascais veio a estabelecer os primórdios da organização municipal cascalense, onde a capacidade de eleger juízes, oficiais e o direito de jurisdição cível e crime se tornavam comuns ao que acontecia nos outros concelhos do Reino[1]. Tal mercê não foi concedida sem as habituais obrigações para com a Coroa, sendo que, neste caso concreto, acarretavam o pagamento de um elevado imposto anual de 200 libras, suportado pelos seus habitantes, para além dos direitos de que a população lhe era tributária.

A carta original não chegou até aos nossos dias, restando apenas uma cópia documental de meados do século XV presente no único dos dez livros de chancelaria de D. Pedro I que perdurou. Eis os pontos fundamentais que o documento determina e que foram destacados pelo historiador cascalense A. H. de Oliveira Marques:

1 – Que daí em diante Cascais ficasse isenta de qualquer sujeição a Sintra e fosse considerada vila.

2 – Que tivesse jurisdição cível e crime própria, tal como acontecia nas outras vilas do Reino.

3 – Que elegesse juízes e oficiais segundo as normas dos outros municípios.

4 – Que pagasse 200 libras anuais ao rei, além de todos os demais direitos reais a cobrar no território do novo concelho.

No entanto, como observou Oliveira Marques, este documento não definia nenhum território que ficasse como termo da nova vila, pelo que, aparentemente, apenas o povoado próximo do porto se considerava doravante autónomo em relação a Sintra[2]. Foi por carta régia de 8 de Abril de 1370[3], outorgada por D. Fernando I, que se veio a corrigir essa lacuna territorial. Nesse dia foi fundado o senhorio de Cascais e entregue, juntamente com o castelo da vila, a Gomes Lourenço do Avelar, heróico defensor de Ciudad Rodrigo que havia suportado um intenso cerco de dois meses feito pelas tropas de Henrique II, rei de Castela.

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Fig. 2 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 98.
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Fig. 3 – Transcrição da carta de vila de Cascais. Fonte: A. H. de Oliveira Marques.
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Fig. 4 – Cascais de meados do século XV numa gravura do século XVIII.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Carta de Vila de Cascais de 1364. Estudo e transcrição de A. H. de Oliveira MARQUES, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1989, p. 5. O documento outorgado tem a data de 1402, mas é necessário subtrair 38 anos, ficando assim em 1364, pois Portugal só adoptou a Era de Cristo em 1422. Até aí utilizava-se a Era Hispânica (ou Era de César), tendo esta um adiantamento de 38 anos em relação à Era de Cristo.

[2] Ibidem, pp. 11-12.

[3] ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. I, fl. 56, 1.ª col.

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A possível origem árabe do topónimo Cascais

Al 2
Fig. 1 – Mapa do al-Ândalus e parte do Norte de África, c. 868 (simplificado).

Entre as teorias existentes sobre a origem do topónimo Cascais, aquela que reunia maior consenso diz que o mesmo virá do plural de cascal, estando relacionado com a possível abundância de amontoados de cascas ou de conchas de moluscos marinhos[1]. Esta é uma teoria que acabou por ficar associada a um contexto português em que o topónimo Cascais teria derivado, por simplificação, de uma hipotética “aldeia dos cascais”, surgida no âmbito do aparecimento das póvoas marítimas com o avançar da “Reconquista” cristã[2]. No entanto, mais recentemente, tem-se associado a este topónimo o nome do navegador/almirante muçulmano Khashkhash (século IX).

Ao que tudo indica, parece ter sido A. H. de Oliveira Marques quem primeiramente estabeleceu uma possível relação entre Cascais e Khashkhash[3], ainda que numa simples nota de rodapé e sem aduzir qualquer tipo de explicação[4]. Posteriormente, outros autores viriam a debruçar-se sobre a mesma questão embora sem terem conhecimento da interrogação levantada por Oliveira Marques. Se nalguns casos a associação entre Khashkhash e Cascais tem pecado por ser feita sem qualquer ligação histórica ou filológica explicativa que possa elucidar os leitores, noutros é feita através da proximidade fonética entre o nome do almirante – por meio da transliteração Kaxkax – e este topónimo, sem o apoio nas fontes muçulmanas e sem o conhecimento das problemáticas historiográficas que giram em torno desta figura, divulgando-se dados que resultam de uma imprecisão que coloca Khashkhash fora da sua época histórica mais de 250 anos depois, que o destaca infundadamente como um corsário responsável por manter a ordem num vasto sector marítimo a Norte de Lisboa, entre outros equívocos[5].

Para além destes aspectos, que têm vindo a ser revistos e aprofundados, é preciso ter em conta que a leitura e interpretação das fontes muçulmanas levanta diversos problemas quanto a esta figura, tendo existido pelo menos duas pessoas da mesma família com idêntico nome (Khashkhash) e ligações à vida marítima. Sabemos que um deles, enquanto almirante muçulmano, morreu a combater os vikings algures entre 858-862 ao largo de Cádis[6], enquanto que outro ainda era vivo em finais do século IX.

Em todo o caso, é exequível que um destes homens possa ter mantido contacto com Cascais, possivelmente no âmbito das lides da defesa costeira do al-Ândalus[7], e que tenha dado o seu nome ao porto desta vila (figs. 1 e 2). Por outro lado, uma eventual presença prolongada nesse porto (ou um acontecimento marcante ocorrido ali mesmo e em que um deles tivesse estado envolvido) poderia ter levado a que a memória do seu nome tivesse sido preservada depois da sua partida, não tendo Khashkhash necessariamente de ter dado o seu nome àquele local. Esta é uma hipótese que, aliás, até pode ser pensada analogamente com a presença viquingue na actual costa portuguesa, sendo que alguns possíveis locais de apoio à navegação nórdica poderão mesmo ter mantido o nome que era dado a esses guerreiros depois de os mesmos terem partido[8].

Baixo Vale do Tejo
Fig. 2 – Visão parcial do sistema de defesa costeira no Baixo Vale do Tejo durante o Período Islâmico (em construção).

Se do ponto de vista histórico acredita-se que possa ter existido um contacto entre Khashkhash e Cascais, do ponto de vista linguístico também é possível ligar as duas palavras: através da mediação do étimo cascal e de uma ligação à Catalunha (figs. 1 e 4). Já vimos que a teoria que reunia maior consenso até recentemente diz que Cascais será um topónimo de origem portuguesa e que virá do plural de cascal. Contudo, mantendo à mesma o elemento cascal, é possível pensar noutras hipóteses. Em árabe, khashkhash é a palavra sinónima do português “papoila-dormideira”, enquanto que no léxico do catalão existe a palavra árabe cascall, significando precisamente “papoila-dormideira”[9].

Neste seguimento, saliente-se que a antiga ocupação muçulmana do território que pertence ao actual concelho de Cascais não é nenhuma novidade, atestando-se numerosas localidades de etimologia arábica, algumas resultantes de estabelecimentos novos, outras do robustecimento dos antigos: Abuxarda, Adruana, Alcabideche, Alcoitão, Alcorvim, Aljafamim, Alvide, Birre, Quenena, Zambujal, Zambujeiro e, provavelmente, Bicesse, Murches, Sassoeiros, Talaíde e Trajouce (fig. 3).

Termo de Cascais
Fig. 3 – Termo de Cascais nos séculos XIV-XV. Repare-se nos diversos topónimos de origem árabe.                 Fonte: A. H. de Oliveira Marques.

Com o decorrer das investigações e da exequível ligação entre Khashkhash e Cascais surgiu outra hipótese para a possível origem do étimo que dá nome a esta vila. Para além de cascall figurar no léxico do catalão, é igualmente conhecida a existência de uma vila partilhando o mesmo nome, na Catalunha (fig. 4), anteriormente a 1097, a qual possuía uma rábita (também referida como ribat) conhecida na documentação cristã por “ràpita del Cascall”[10]. Quando pensados em analogia com Cascais, estes dados levam-nos a pensar que a origem deste topónimo poderá mesmo estar associada ao contexto de defesa costeira do al-Ândalus e à deslocação (voluntária ou em serviço do poder central) de forças militares dessa área para a kura de Lisboa, acabando, de alguma forma, aquele porto por ganhar um nome que já existia do lado oriental do al-Ândalus (Sharq al-Ândalus). Esta é uma hipótese que deve ser vista em paralelo com outras localidades cujo nome está associado à vinda de grupos humanos, clãs ou tribos de outras áreas do al-Ândalus e do Norte de África, como, por exemplo, Alcorvim[11] (Malveira da Serra, Cascais). Este topónimo está ligado à cidade de Cairuão, capital de Ifríquia, no Magreb Oriental.

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Fig. 4 – Litoral catalão com destaque para a rábita Cascall. Fonte: Dolors Bramon, Reivindicació catalana del geògraf al-Idrisi, 2012, p. 35.

Para reforçar esta hipótese de uma possível deslocação humana, note-se que na documentação catalã, associada às formas Kashtali, Kashki, Kashkallu, Kashkali (árabes)[12] e Cascall (cristã), existem as variantes toponímicas Cascal, Cascallo, Cascayo, Caschais, Cascai, Cascait e Cascayll. Parece-nos demasiado evidente que o topónimo Cascais, na sua forma primitiva e podendo derivar do contexto árabe catalão descrito (ainda que a raiz daquela vila catalã e topónimo pudessem ser anteriores à ocupação muçulmana do local), tivesse, posteriormente, seguido semelhantes formas das que surgem atestadas na documentação cristã catalã até chegar à actual. Assim, importa frisar que tanto a primeira forma conhecida do topónimo (Cascays, 1282[13]) – pelo menos até ao momento –, bem como a forma actual (Cascais), seguem sem qualquer dúvida a orientação das variantes catalãs.

Em suma, as recentes investigações mostram que a teoria fundamentada no âmbito do aparecimento das póvoas marítimas com o decorrer da “Reconquista” cristã, e que via em Cascais a simplificação de uma hipotética “aldeia dos cascais” (origem portuguesa), perdeu total sentido, ainda que o elemento “cascal” seja fundamental para as outras interpretações. Os dados aduzidos mostram que a origem do topónimo primitivo será muito anterior a esse momento e que derivará de um contexto diferente[14]. A continuação dos trabalhos permitirá aprofundar assuntos ainda não abordados ou outros focados superficialmente.

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Fig. 5 – Cascais de meados do século XV numa gravura do século XVIII.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Sobre as teorias, cf. Rafael BLUTEAU, Suplemento ao Vocabulário Portuguez, e Latino […], pt. I, Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1727, p. 204; J. Leite de VASCONCELLOS, Opusculos, vol. III – Onomatologia, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1931, pp. 416-417; AHMC, AADL-CMC, “[Parecer de Affonso de Dornellas relativo ao Brasão Heráldico do concelho de Cascais]”, 14 de Abril de 1934; J. Diogo CORREIA, Toponímia do Concelho de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1964, pp. [9]-11; Ferreira de ANDRADE (dir.), Monografia de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1969, pp. 7-8; José Pedro MACHADO, “Cascais”, in Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, 2.ª ed., vol. I, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, p. 365; A. H. de Oliveira MARQUES, “Para a História do Concelho de Cascais na Idade Média – I”, in Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1988, pp. 108 e 111-112; José D’ENCARNAÇÃO, Cascais, paisagem com pessoas dentro, Cascais, Associação Cultural de Cascais, 2011, p. 14, n. 2.

[2] “A tese mais verosímil aponta para a provável palavra portuguesa cascal – à semelhança de areal, faial, funchal – identificadora de um terreno ou uma praia coberta de cascas ou conchas de mariscos. Haveria nesta zona alguns cascais e o topónimo primitivo seria porventura a aldeia dos cascais ou a dos cascais, de onde derivou, por simplificação, Cascais. Seria assim? Só a documentação nos poderá um dia responder” (cf. A. H. de Oliveira MARQUES, op. cit., pp. 111-112).

[3] Khashkhash, Kaxkax, Hashas, Jashjash, Chaschchasch, etc., conforme as transliterações do árabe para diferentes línguas. Adoptámos a transliteração Khashkhash por transcrever de forma (quase) inequívoca os sons da língua árabe. Por limitações tipográficas não temos usado letras com diacríticos.

[4] “Haverá alguma relação entre Cascais e este Hashas?” (cf. A. H. de Oliveira MARQUES, “O «Portugal» islâmico”, in Joel SERRÃO e A. H. de Oliveira MARQUES (dir.), Nova História de Portugal, vol. II – Portugal das Invasões Germânicas à Reconquista, Lisboa, Editorial Presença, 1993, p. 245, n. 6).

[5] Este assunto foi analisado por Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, pp. 430-435; idem e Helena Condeço de CASTRO, “O navegador muçulmano Khashkhash e a possível ligação com o topónimo Cascais: problemas e possibilidades”, in Arquivo de Cascais. História, Memória, Património, 14 (2015), pp. 6-29.

[6] Jorge LIROLA DELGADO, El poder naval de al-Andalus en la época del califato omeya (siglo IV hégira/X era cristiana). Tesis Doctoral, vol. I, Universidad de Granada, 1991, pp. 124-125; Abbas HAMDANI, “An Islamic Background to the Voyages of Discovery”, in Salma Khadra JAYYUSI (ed.), The Legacy of Muslim Spain, 2nd ed., Leiden, Brill Academic Publishers, 1994, p. 275; Christophe PICARD, La mer et les Musulmans d’occident au Moyen Age (VIIIe – XIIIe siècle), Paris, Presses Universitaires de France, 1997, pp. 21 e 125; idem, L’océan Atlantique musulman. De la conquête arabe à l’époque almohade. Navigation et mise en valeur des côtes d’al-Andalus et du Maghreb occidental (Portugal-Espagne-Maroc), Paris, Maisonneuve et Larose, 1997, p. 76.

[7] Sobre a importância estratégica de Cascais durante o Período Islâmico e a sua integração no sistema defensivo do distrito (kura) de Lisboa, cf. Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 409-441. Recentemente, no âmbito do programa televisivo “Caminhos” (RTP2), tivemos a oportunidade de participar num episódio sobre “A defesa costeira no litoral de Sintra-Cascais durante o Período Islâmico”. O episódio pode ser visto através da seguinte ligação: https://www.youtube.com/watch?v=xVvG-KbkVvw&feature=em-upload_owner (consultado em 10-05-2015).

[8] Cf. https://sintraecascais.wordpress.com/2016/04/24/sintra-e-cascais-na-rota-dos-ataques-vikings-seculos-ix-xi/ (consultado em 24-04-2016).

[9] Marco Oliveira BORGES e Helena Condeço de CASTRO, “O navegador muçulmano Khashkhash […]”, pp. 22-23.

[10] Al-Idrisi descreve esta estrutura como sendo “formosa, forta i inexpugnable vora la mar i compta amb una guarnició (qawm) brava” (apud Dolors BRAMON, “La ràpita del Cascall al delta de l’Ebre”, in Francisco FRANCO SÁNCHEZ (ed.), La Rábita en el Islam. Estudios Interdisciplinares. Congressos Internacionals de Sant Carles de la Ràpita (1989, 1997), Ajuntament de Sant Carles de la Ràpita, Universitat d’Alacant, 2004, p. 120).

[11] Derivação de Alquerubim, sendo que, por vezes, também surge grafado como Alcorobim. Alquerubim pode derivar do árabe al-qarawiyin, significando “os de Qayrawan”, Cairuão, cidade situada na actual Tunísia. A sua importância religiosa assume tal importância que é vista como a “Meca do Ocidente” (cf. J. Diogo CORREIA, op. cit., pp. 15-16; José Pedro MACHADO, Sintra muçulmana. Vista de olhos sobre a sua toponímia arábica, Lisboa, Na Imprensa Mediniana, 1940, p. 8; idem, “Alquerubim”, in Dicionário Onomástico […], p. 111; António REI, “Ocupação humana no alfoz de Lisboa durante o período islâmico (714‐1147)”, in A Nova Lisboa Medieval. Actas do I Encontro, Lisboa, Edições Colibri, pp. 31-32, n. 35). Adalberto Alves faz derivar o topónimo Cairuão de qayrawân, significando “campo da guarnição [militar]” (cf. Adalberto ALVES, “Cairuão”, in Dicionário de arabismos da língua portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional‐Casa da Moeda, p. 349).

[12] Dolors BRAMON, El Mundo en el Siglo XII. Estudio de la versión castellana y del “Original” Árabe de una geografía universal: “El tratado de al-Zuhri”, Barcelona, Editorial Ausa, s.a., p. 158, n. 780.

[13] ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fls. 46v-47.

[14] Marco Oliveira BORGES e Helena Condeço de CASTRO, “O navegador muçulmano Khashkhash […]”, p. 29.

Apontamentos sobre Sintra e Cascais durante a Idade Média

Moinho
Fig. 1 – Moinho de vento com a serra de Sintra como pano de fundo (Alcabideche).           Fotografia: Alexandra Morais

As relações entre Sintra e Cascais durante a Idade Média, territórios intimamente ligados entre si desde tempos recuados, foram sendo parcialmente apontadas por alguns investigadores que se dedicaram ao estudo da História de Cascais durante o século XX. Essas relações acabariam por ganhar maior importância já em finais da década de 1980, isto com as investigações desenvolvidas por A. H. de Oliveira Marques. O historiador cascalense, no seguimento das investigações que estava a realizar sobre o seu concelho natal, chegou mesmo a proferir uma conferência intitulada “Sintra e Cascais na Idade Média” (Palácio Nacional de Sintra, 3/7/1987), tendo o texto de apoio sido publicado no ano posterior[1].

Não crendo na teoria de que o topónimo Sintra pudesse ter surgido durante o Período Romano, Oliveira Marques referiu que tinha indiscutivelmente uma origem árabe, se bem que não se soubesse o étimo (árabe ou berbere) que lhe deu lugar. O historiador destacou que Sintra já era uma importante cidade nos séculos X e XI, se não antes, vindo referida entre os autores muçulmanos como um dos grandes povoados que existia no Ocidente da Península Ibérica (Garb al-Ândalus). Em relação ao território de Cascais, e à semelhança de Sintra, a toponímia de raiz árabe atestava uma colonização abundante e com estabelecimentos novos durante os quase quatro séculos e meio de ocupação muçulmana. Destaque para o topónimo Alcabideche, pequeno povoado na dependência de Sintra, decerto a ela ligado por estrada[2]. De Alcabideche era natural Abu Zaid Ibn Muqana al-Qabdaqi al-Ushbuni, famoso poeta que deu a conhecer a existência de moinhos de vento nessa área.

O interesse pelas relações entre Sintra e Cascais durante a Idade Média ainda hoje é visível entre os investigadores, sendo que os trabalhos recentes têm trazido diversas novidades, seja para o Período Islâmico como para os séculos XIV-XV. Para o primeiro caso, tem-se fortalecido a ideia de que durante aquele período histórico começara a ganhar forma um sistema de defesa costeira a partir de Sintra que teria necessária continuação pelo actual litoral cascalense[3], embora Cascais não tenha sido alvo da atenção dos autores muçulmanos, os quais, aliás, não tiveram em conta a realidade portuária entre a costa de Sintra e o porto de Cascais, se bem que exista uma possível descrição da Boca do Inferno[4]. De forma comprovada, existem somente as descrições relativas a Alcabideche, nomeadamente por intermédio de Ibn Muqana (século XI)[5]. Nem mesmo o foral de Sintra de 1154 (o qual chegou até aos nossos dias através de dois traslados feitos no século XV) alude a Cascais como parte integrante do termo sintrense, ainda que durante o século X devesse existir um iqlim em Sintra que englobaria Cascais e Mafra nos limites do seu termo[6]. É verdade que existem referências à passagem dos cruzados que auxiliaram na “Reconquista” de Lisboa (1147) pelo porto de Cascais, com expressa alusão a este topónimo, mas essas informações, se bem que alegadamente baseadas numa memória documental do século XII, aparecem muito tardiamente[7]. É num documento de 1282 que, pela primeira vez, o topónimo “Cascays” vem atestado (fig. 2). Em todo o caso, nos últimos tempos tem ganho forma a forte possibilidade de que o topónimo Cascais possa mesmo ter uma origem árabe, estando associado ao contexto de defesa costeira do al-Ândalus[8].

1282
Fig. 2 – Alusão documental mais antiga que se conhece ao topónimo “Cascays”. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fls. 46v-47.

Um aspecto bastante sintomático das relações entre Sintra e Cascais, e que se destaca na documentação dos séculos XIV-XV, são os conflitos jurisdicionais que opuseram os poderes locais e os habitantes destes dois territórios. A aldeia de Cascais foi elevada a vila em 1364, ficando isenta da sujeição a Sintra[9], mas só em 1370 conseguiu a criação do seu termo, desmembrando-se assim do território sintrense[10], que se regia pelo foral outorgado por D. Afonso Henriques em 1154. No entanto, mesmo depois da criação do termo e senhorio cascalense surgiram diversas dúvidas e cobiças territoriais, até porque doravante algumas pessoas passaram a ter propriedades nas zonas de fronteira entre ambos os territórios, por vezes não se sabendo exactamente em que local começava a fronteira ou fazendo-se vista grossa. Na verdade, os sintrenses não viram com bons olhos a desanexação do território de Cascais. Em 1387, num dos muitos problemas que surgiram, a rainha D. Filipa de Lencastre, que havia entrado na posse de Sintra, tentou apossar-se de Cascais. A situação levou a um conflito com os funcionários do doutor João das Regras, na altura senhor de Cascais, vindo este a conseguir de D. João I uma carta de confirmação dos seus direitos sobre este senhorio[11].

Termo de Cascais
Fig. 3 – Termo de Cascais nos séculos XIV-XV. Fonte: A. H. de Oliveira Marques.
Filipa_lencastre
Fig. 4 – D. Filipa de Lencastre. Fonte: Manuela Santos Silva, A rainha inglesa de Portugal. D. Filipa de Lencastre, Círculo de Leitores, 2012.

Um outro elemento fundamental nas relações entre Sintra e Cascais foi o porto cascalense. Embora o esteiro de Colares tenha funcionado como porto de Sintra ainda durante o Período Islâmico, escoando-se por ali mercadorias para Lisboa, actividade que remontaria pelo menos ao Período Romano[12], terá deixado de ser navegável durante os séculos XII-XIII[13]. Assim, não admira que anteriormente a 1377 o escoamento da produção vinda do hinterland[14] sintrense e que era destinada a Lisboa, Sevilha e a outros locais, incluindo ao Mediterrâneo[15], já fosse feito através de Cascais, que funcionava como porto de Sintra[16].

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] A. H. de Oliveira MARQUES, “Sintra e Cascais na Idade Média”, in Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1988, pp. 144-153.

[2] Idem, ibidem, pp. 145-146.

[3] Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, in História. Revista da FLUP, IV: 2 (2012), pp. 109-128; idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, pp. 409-441. Recentemente, no âmbito do programa televisivo “Caminhos” (RTP2), tivemos a oportunidade de participar num episódio sobre “A defesa costeira no litoral de Sintra-Cascais durante o Período Islâmico”. O episódio pode ser visto através da seguinte ligação: https://www.youtube.com/watch?v=xVvG-KbkVvw&feature=em-upload_owner (consultado em 10-05-2015).

[4] Cf. Fátima ROLDÁN CASTRO, El Occidente de Al-Andalus en el Atar al-Bilad de al-Qazwīnī, Sevilla, Ediciones Alfar, 1990, p. 91; Adel SIDARUS e António REI, “Lisboa e seu termo segundo os geógrafos árabes”, in Arqueologia Medieval, 7 (2001), pp. 45-46 e 55-56; António REI, O Gharb al-Andalus al-Aqsâ na Geografia Árabe (séculos III h. / IX d.C. – XI h. / XVII d.C.), Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, 2012, p. 123, n. 3.

[5] O poeta nasceu em Alcabideche, em inícios do século XI ou finais do anterior. É provável que não tenha vivido muito para além de 1068 (cf. António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 3.ª ed. rev., Lisboa, Editorial Caminho, 2008, pp. 524-525 e 552, n. 44).

[6] Alguns indícios levam a crer “que a figura do Iqlim em torno das grandes cidades poderá corresponder à área sobre a qual o aglomerado exerce um controlo económico e espacial” (Catarina COELHO, “A ocupação islâmica do Castelo dos Mouros (Sintra): interpretação comparada”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, 3: 1 (2000), p. 208).

[7] Cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 127-129. Disponível em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013_http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf.

[8] Cf. Marco Oliveira BORGES e Helena Condeço de CASTRO, “O navegador muçulmano Khashkhash e a possível ligação com o topónimo Cascais: problemas e possibilidades”, in Arquivo de Cascais. História, Memória, Património, 14 (2015), pp. 6-29.

[9] Cf. A. H. de Oliveira MARQUES, Carta de Vila de Cascais de 1364. Estudo e transcrição de […], Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1989, pp. 5-18.

[10] ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. 1, fl. 56.

[11] Cf. Chancelarias Portuguesas. D. João I, vol. II, t. I, Lisboa, Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2005, pp. 151-152, doc. 261; A. H. de Oliveira MARQUES, “Sintra e Cascais na Idade Média”, p. 152.

[12] Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I […]”, pp. 118-119; idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Jornadas do Mar 2014. Mar: uma onda de progresso, Almada, Escola Naval, pp. 152-164. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em  https://www.academia.edu/22073421/Portos_e_ancoradouros_do_litoral_de_Sintra-Cascais._Da_Antiguidade_%C3%A0_Idade_Moderna_I_2015_.

[13] Mais provavelmente durante o século XII, devendo ainda ter servido de acesso ao interior do território quando Sigurd atacou Sintra em 1109 (cf. Maria Teresa CAETANO, Colares, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000, p. 41; Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I […]”, pp. 124-125; idem, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 167-168; idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, p. 160).

[14] Sobre este conceito, cf. Marco Oliveira BORGES, “Hinterland”, in José Vicente SERRÃO, Márcia MOTTA e Susana Münch MIRANDA (dir.), E-Dicionário da Terra e do Território no Império Português, Lisboa, CEHC-IUL, 2016. Disponível em https://edittip.net/category/hinterland/.

[15] Sobre este assunto e teias comerciais envolvidas, cf. idem, O porto de Cascais […], pp. 94-102.

[16] A. H. de Oliveira MARQUES, op. cit., p. 151.