Videoclipe o “Mar de Cascais”

 

Aproveitei algum do meu tempo de quarentena para fazer este videoclipe instrumental sobre o “Mar de Cascais”. Para tal, usei imagens de arquivo que fui captando sobretudo ao longo dos últimos dois anos. Nada foi planeado, o cenário de quarentena é que levou a isto, pelo que fiquei limitado ao uso dessas imagens. Gostaria de ter enriquecido o videoclipe com mais imagens em movimento, assim como com outras imagens de actividades desenvolvidas nesta costa, pois há muito mais no mar de Cascais para ver, mas, perante a crise actual, terá de ficar para outras oportunidades.

Nestes tempos difíceis, em que todos devemos ficar em casa para evitar ainda mais a disseminação do vírus Covid-19, aqui fica um cheirinho do mar de Cascais. No videoclipe podemos ver várias perspectivas do mar, as cetárias romanas, pescadores, os apetrechos de pesca, Cascais medieval, os barcos, os acidentes marítimos, Cascais actual, a procissão a Nossa Senhora dos Navegantes, o lixo marítimo, etc.

Em breve, talvez também surja algo no mesmo contexto para a costa de Sintra. Até lá, vejam o vídeo (encurtador.com.br/eipL7), subscrevam o canal no Youtube e activem as notificações para ficarem a par das novidades.

Marco Oliveira Borges | 2020

Uma visita ao bairro dos Pescadores (Cascais): em busca de vestígios de actividade piscatória recente

Fig. 1
Fig. 1 – Pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes (Julho de 2016).
Fig. 2
Fig. 2 – Outro pormenor da Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Situado a Norte da vila medieval de Cascais, o bairro dos Pescadores, inaugurado na década de 1940, foi um dos sítios em que se edificaram casas para albergar as famílias dos homens do mar locais. Habituado desde pequeno a ver embarcações, apetrechos e artes de pesca neste bairro, recentemente decidi voltar ao local com o propósito de observar quais os vestígios de actividade piscatória que ainda são visíveis a quem passa por ali. No entanto, a maior curiosidade residia na dúvida se a escassa presença de “chatas” na praia da Ribeira[1] (apenas 3 e de pequenas dimensões) era explicada com a sua presença naquele bairro. Assim, peguei na bicicleta e lá fui para mais uma deslocação pelo território cascalense. O sossego, que parece continuar a reinar neste local, foi apenas interrompido por alguns cães que vieram dar as “boas vindas” ao curioso que se deslocava sobre duas rodas.

Fig. 3
Fig. 3 – Destaque da proa da chata “Santa Luzia”.

Entre “chatas”, “aiolas”, “cocos”, “botes”, etc., foram muitas as embarcações que, ao longo das décadas, sobretudo durante os meses de Inverno, vieram parar a este sítio, ficando estacionadas junto à casa dos respectivos proprietários, retornando à praia da Ribeira apenas com a vinda de bom tempo. Outras deixaram definitivamente de ser deslocadas para a praia, devido à reforma dos seus proprietários, à sua morte ou por estarem bastante degradadas, acabando por ser levadas para fora do bairro. Se antigamente as embarcações estacionadas neste local eram em maior número, as averiguações que fiz revelaram apenas cinco: quatro botes e uma barca. Quanto a “chatas”, embarcações típicas de Cascais, apenas se podem observar os restos da proa e da popa da “Santa Luzia”.

Estamos perante um magro cenário, revelador do desaparecimento acelerado das embarcações tradicionais de outrora, especialmente das “chatas”, se bem que noutros locais do concelho ainda devam existir algumas em propriedades de pescadores.

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Fig. 4 – Popa e proa da “Santa Luzia”.
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Fig. 5 – Bote junto ao que resta da “Santa Luzia”.
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Fig. 6 – O bote “Arminda e Ricardo”.
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Fig. 7 – O bote “Veiguinhas”.
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Fig. 8 – Aspecto da “Selesa”.

Em todo o caso, a deslocação ao bairro dos Pescadores mostrou duas embarcações que despertaram enorme surpresa. A “Selesa”, bote em que tive oportunidade de fazer algumas pescarias à lula e às redes há muitos anos atrás, permitindo relembrar algumas aventuras. Actualmente, está matriculada em Tavira. A outra embarcação que surpreendeu foi uma barca de Sesimbra (matriculada na Trafaria) que encalhou na praia da Rainha durante o temporal de Outubro do ano passado. Detendo o nome “Seremos Felizes”, trata-se de uma barca com mais de 50 anos, inicialmente usada na pesca ao peixe-espada[2]. Foi adquirida por um pescador de Cascais após o referido temporal, estando ali para que se proceda ao seu reparo.

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Fig. 9 – Interior da “Selesa”.
Fig. 10
Fig. 10 – A barca “Seremos Felizes”.
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Fig. 11 – Outro pormenor da mesma barca.
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Fig. 12 – Um covo.

No que respeita às artes de pesca, são visíveis alguns covos e apetrechos junto a certas habitações, mas apenas em reduzido número. A reforma, o gradual falecimento de antigos pescadores e a parca integração de gente nova da terra na vida marítima, fazem com que estes materiais e embarcações sejam cada vez menos visíveis no bairro dos Pescadores e noutros locais do concelho de Cascais onde outrora marcavam presença.

Seria injusto, num texto desta natureza, não aludir igualmente às varinas locais, às que antigamente exerciam actividade em plena praia da Ribeira, esperando os maridos e outros familiares que vinham do mar com o peixe que os sustentava, bem como às que actualmente trabalham no mercado de Cascais. Assim, para além de inúmeros pescadores, este bairro viu nascer e crescer diferentes gerações de varinas, algumas ainda no activo. No entanto, deixarei este assunto para um texto futuro mais desenvolvido.

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Fig. 13 – Atrelado junto a uma das habitações.
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Fig. 14 – Alcatruzes de barro, pintados a verde, servem de decoração.

Não se pode terminar este périplo sem referir outros aspectos que saltam à vista de quem passa pelo bairro do Pescadores. É o caso da decoração exterior de certas habitações com elementos ligados ao mar. Destaque para os azulejos com imagens de navios e algumas figuras religiosas, não esquecendo igualmente a integração de artes de pesca. Para este último caso, é de referir o muro de uma habitação que se encontra decorado com alguns alcatruzes de barro, tal como outro que contém bóias, âncoras e outros apetrechos.

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Fig. 15 – Decoração com diversos apetrechos marítimos.
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Fig. 16 – Painel de azulejos com dois navios.
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Fig. 17 – Nossa Senhora dos Navegantes.
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Fig. 18 – Mais dois navios.
Quim da Lota
Fig. 19 – A venda de peixe ainda é feita por alguns moradores do bairro.
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Fig. 20 – Placa toponímica alusiva à Rua Nossa Senhora dos Navegantes.

Por fim, é de referir uma figura religiosa presente numa pequena casa-abrigo colocada na rua Nossa Senhora dos Navegantes (figs. 21-23), mas que tem levantado larga controvérsia e diferentes perspectivas quanto à invocação a que está ligada. Se há quem diga que se trata da representação de Nossa Senhora dos Navegantes, o que faria mais sentido tendo em conta a tradição local, outros testemunhos orais sugerem que seja Nossa Senhora da Assunção ou até mesmo Iemanjá. A ideia de que se está perante a figura de Nossa Senhora dos Navegantes é a que mais prevalece entre os relatos recolhidos. Contudo, olhando para outras imagens relativas à mesma invocação, inclusive para uma que se encontra no mesmo bairro (fig. 17), não existem quaisquer afinidades representativas em relação à que se encontra na referida casa-abrigo. Numa das versões orais que recolhi foi dito que, inicialmente, era Nossa Senhora dos Navegantes que estava representada naquele local. Porém, os furtos ali ocorridos implicaram consequentes substituições das figuras levadas, estando agora naquela casa-abrigo (fechada a cadeado) uma figura com outra invocação. Por outro lado, num testemunho diferente, foi referido que, de facto, aquela figura religiosa será mesmo Nossa Senhora dos Navegantes, se bem que fora dos seus moldes habituais, reflectindo a visão de quem a fabricou ou mandou fabricar. Não sendo possível conciliar os diferentes discursos orais recolhidos e garantir com exactidão qual a figura ali representada, o assunto fica por esclarecer.

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Fig. 21 – Figura atribuída a Nossa Senhora dos Navegantes, mas que levanta sérias dúvidas.
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Fig. 22 – Ibidem.
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Fig. 23 – Ibidem.
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Fig. 24 – Entrada de forno de cal antigo, actualmente tapado por terra e pedras.
Palmeira
Fig. 25 – Palmeira na Rua Nossa Senhora dos Navegantes (Julho de 2015).

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Também conhecida por praia dos Pescadores ou do Peixe.

[2] Sobre esta barca e o temporal de Outubro de 2015, veja os seguintes links: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1674582416115061/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675015149405121/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1675023499404286.1073741833.1652023238370979/1675024332737536/?type=3&theater; https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/photos/a.1652234711683165.1073741829.1652023238370979/1675936112646358/?type=3&theater.

Uma noite de pesca ao polvo na embarcação “Horizonte Aberto” (Cascais)

Fig. 2
Fig. 1 – “Horizonte Aberto” na amarração.

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Fig. 2 – “Horizonte Aberto” visto de Sul.

Já passa da meia-noite. A companha do “Horizonte Aberto”, embarcação do estilo traineira construída em 1998 (Figueira da Foz), reúne-se no pontão mais recente de apoio aos pescadores de Cascais para a sua jornada de trabalho. O mestre, Miguel Diogo, também está a chegar. Finalmente embarcados no bote que faz o transporte do pessoal e do material até à embarcação de pesca, presa à amarração, um dos elementos da companha expressa a sua surpresa por nessa noite serem acompanhados por um historiador. Ausente das lides da pesca embarcada já há alguns anos, tive a oportunidade de voltar ao mar durante essa noite, desta vez apenas enquanto observador, pronto a recolher os elementos que permitissem fazer um resumo escrito da apanha do polvo-comum (Octopus vulgaris).

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Fig. 3 – Elemento da companha, oriundo da Ericeira, a tirar um polvo do alcatruz.

O mar estava relativamente calmo. O local em que decorreram as actividades foi a área costeira de Cascais e ao largo da barra do Tejo, entre 4 a 6 milhas de distância de terra, onde as teias de alcatruzes e de covos presentes no fundo do mar (20 a 50 braças de profundidade) vão permitindo a entrada e abrigo aos polvos. Se os alcatruzes não necessitam de isca para atrair aquela espécie carnívora de cefalópodes, os covos, pelo contrário, estavam a ser iscados com caranguejo proveniente de Setúbal, se bem que esta seja uma arte de pesca em que, frequentemente, também se usa a sardinha ou a cavala.

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Fig. 4 – Alcatruzes prontos para largar ao mar depois de terem fornecido dois polvos.
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Fig. 5 – Vira-se uma teia de covos.
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Fig. 6 – Retira-se um polvo do covo.
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Fig. 7 – Caranguejo de Setúbal usado como isca nos covos.

Investigações recentes mostraram que o polvo-comum capturado na costa de Cascais e ali desembarcado é de grande frescura e de elevada qualidade[1], sendo este mais um atractivo para quem quiser visitar esta vila e saboreá-lo nos diversos restaurantes e tascas. No caso do “Horizonte Aberto”, e para se conseguir uma elevada frescura dos exemplares capturados, uma mangueira ligada a uma bomba que puxa água do mar vai mantendo o polvo-comum fresco até se chegar a terra. De uma forma geral, esta é uma espécie que assume enorme importância no que respeita às capturas locais, representando uma grande fatia do pescado descarregado em Cascais[2].

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Fig. 8 – Mestre Miguel Diogo no comando das operações.

No entanto, a experiência a bordo do “Horizonte Aberto” não foi marcada apenas pelos aspectos especificamente ligados à pesca do polvo. A embarcação está dotada de um sistema tecnológico avançado, com radares que permitem compreender toda a movimentação marítima na área envolvente, o enquadramento geográfico em relação a terra, etc., fornecendo assim enorme segurança a quem exerce a actividade. Durante os trabalhos o mestre teve oportunidade de explicar diversos pormenores das movimentações marítimas e particularidades oceânicas desta área geográfica, como foi o caso dos enfiamentos da barra do Tejo por onde entram e saem os navios, algo bastante familiar face aos estudos histórico-arqueológicos para épocas mais recuadas que têm vindo a ser desenvolvidos.

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Fig. 9 – Pormenor da costa de Cascais e barra do Tejo.
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Fig. 10 – Pormenor da costa de Cascais.
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Fig. 11 – Radar Koden em funcionamento.

Por fim, depois de uma jornada produtiva, retornámos ao porto de Cascais já pelas 10:00 da manhã sob denso nevoeiro. Pouco depois procedeu-se à passagem das caixas de polvo para o bote de apoio e à consequente descarga no pontão antigo, contando-se com o auxílio de uma grua. Deste sítio o polvo foi levado de carrinha para ser vendido em Sesimbra.

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Fig. 12 – Limpeza de covos a bordo.
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Fig. 13 – Ao regressarmos a terra passámos perto do navio Elka Eleftheria (Monrovia). 
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Fig. 14 – Pormenor da entrada da Marina de Cascais.
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Fig. 15 – Registo recente do diário de bordo.
Mestre e companha
Fig. 16 – Mestre e companha do “Horizonte Aberto” (Agosto de 2016).
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Fig. 17 – Resultado final.
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Fig. 18 – Descarga do polvo.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Cf. Ana LEONARDO, Estudo da qualidade do polvo-comum (O. vulgaris) capturado na baía de Cascais. Dissertação de Mestrado Integrado em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Técnica de Lisboa, 2010, pp. III e 42.

[2] Idem, ibidem, pp. 3-4.