Marégrafo de Cascais

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Marégrafo de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges (2011).

Adquirido a 23 de Março de 1877, pela Direcção-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, pela quantia de 2.519 francos franceses a uma oficina de Paris, credenciada pela qualidade tecnológica dos seus relógios horizontais ou de edifício, o Marégrafo de Cascais (ou de Borrel) havia de ser instalado somente dois anos depois, no passeio D. Maria Pia, junto ao forte da Cidadela[1]. Após a sua instalação seguiu-se uma fase de montagem, construção da casa abrigo, para além da realização de variados testes, pelo que só veio a iniciar o seu funcionamento regular em 1882. Por esta altura, apenas três locais detinham semelhante equipamento: Brest (França), Aberdeen (Escócia) e Hoek Van Holland (Holanda).

A necessidade de aquisição deste marégrafo – da autoria do francês Amédée-Philippe Borrel (1818-1887) – obedece à lógica da conjuntura internacional da época, onde o desenvolvimento do conhecimento científico era uma constante. No caso português, surgiu da urgência de registar as alturas do nível do mar fora da barra de Lisboa e de definir o zero altimétrico para Portugal continental, necessário para a navegação e para os trabalhos de cartografia e hidrografia que se pretendiam realizar sobre portos e rios portugueses, sendo que a localização privilegiada da enseada de Cascais ditou o local escolhido para a sua colocação. Note-se que, até então, o nível do mar era medido através de marémetros ou réguas de maré, feitos de madeira ou de metal, mas que uma vez baseados na observação directa não permitiam um registo contínuo de dados. Todavia, face a problemas de funcionalidade verificados com o assoreamento no poço que fazia parte da estrutura inicial, e que não permitia a obtenção de dados fiáveis, o Marégrafo de Cascais veio a ser deslocado mais para Sul, a 50 metros de distância da primitiva instalação, onde se construiu uma nova casa abrigo e onde se encontra na actualidade (na área adjacente ao Clube Naval de Cascais, junto à Marina local), vindo apenas a iniciar actividade a 28 de Maio de 1895.

Fazendo o registo diário da evolução das marés e das correntes, este é o primeiro marégrafo analógico a surgir em Portugal – o de Lagos só iniciaria actividade em 1908 – e o único que ainda se encontra em actividade. Este mecanismo funciona com uma boía colocada num poço, em contacto directo com o mar, e cujo movimento é transmitido por um sistema de cabos e roldanas ligados a uma caneta que faz o registo das variações do nível da água numa folha de papel quadriculada, envolvida num tambor rotativo. Com efeito, essa caneta regista a amplitude consoante o movimento da maré, construindo assim um gráfico designado por maregrama. O marégrafo tem uma autonomia de quatro dias e a cada 24 horas o tambor dá uma volta completa, registando assim duas preia-mares e duas baixa-mares.

Há mais de 120 anos que os seus registos são enviados regularmente para o serviço internacional Permanent Service for Mean Sea Level (Reino Unido), organismo que disponibiliza, numa base de dados à escala mundial, estes e outros registos similares, utilizados em diversos programas científicos. De acordo com os dados obtidos entre 1882 e 2000, a tendência foi para uma subida do nível médio das águas do mar nesta região na ordem dos 1.3 mm/ano, cerca de 15 cm no total. Para além disso, é de salientar que o Marégrafo de Cascais veio a definir a referência do Datum Altimétrico, Zero Cartográfico, para o território continental através do cálculo da média dos níveis médios do mar realizado entre 1882 e 1938, tendo por denominação “Cascais, Helmert 1938”.

A 31 de Dezembro de 1997, foi classificado imovél de interesse público. Na actualidade, encontra-se sob tutela do Instituto Geográfico Português, entidade responsável pela recolha de informação dos valores do nível médio do mar e pela determinação do Datum Altimétrico Nacional. Embora exista, desde 2003, um marégrafo acústico e digital instalado na Marina de Cascais, mais preciso e sofisticado, o antigo marégrafo continua activo, sendo que em finais de 2005 o Instituto Geográfico Português celebrou um protocolo com a Câmara Municipal de Cascais visando a sua conservação e divulgação. Assim, o Marégrafo de Cascais passou a integrar o roteiro histórico desta vila associado à obra cientifica do rei D. Carlos, estando aberto ao público mediante marcação de visita.

Marco Oliveira Borges | 2020

Bibliografia: Marégrafo de Cascais, 1882, [s.l.], Instituto Geográfico Português, Março de 2007; Marégrafo de Cascais. Um Instrumento Centenário de Amédée-Philippe Borrel – 1877, [s.l.], Instituto Geográfico Português, 2009.

[1] Texto adaptado de Marco Oliveira Borges, “Marégrafo de Cascais”, in Dicionário de História Marítima, 2011 (em trânsito para uma nova plataforma online).

Videoclipe o “Mar de Cascais”

 

Aproveitei algum do meu tempo de quarentena para fazer este videoclipe instrumental sobre o “Mar de Cascais”. Para tal, usei imagens de arquivo que fui captando sobretudo ao longo dos últimos dois anos. Nada foi planeado, o cenário de quarentena é que levou a isto, pelo que fiquei limitado ao uso dessas imagens. Gostaria de ter enriquecido o videoclipe com mais imagens em movimento, assim como com outras imagens de actividades desenvolvidas nesta costa, pois há muito mais no mar de Cascais para ver, mas, perante a crise actual, terá de ficar para outras oportunidades.

Nestes tempos difíceis, em que todos devemos ficar em casa para evitar ainda mais a disseminação do vírus Covid-19, aqui fica um cheirinho do mar de Cascais. No videoclipe podemos ver várias perspectivas do mar, as cetárias romanas, pescadores, os apetrechos de pesca, Cascais medieval, os barcos, os acidentes marítimos, Cascais actual, a procissão a Nossa Senhora dos Navegantes, o lixo marítimo, etc.

Em breve, talvez também surja algo no mesmo contexto para a costa de Sintra. Até lá, vejam o vídeo (encurtador.com.br/eipL7), subscrevam o canal no Youtube e activem as notificações para ficarem a par das novidades.

Marco Oliveira Borges | 2020

Cascais, antes de mais, é terra de pescadores!

Pescadores
Fig. 1 – Pescadores e varinas na praia da Ribeira em meados do século XX.

O documento histórico mais antigo que se reporta a Cascais remonta a 1282, resultando dos foros e privilégios concedidos pelo rei D. Dinis ao alcaide do mar e homens do mar de Tavira, conforme os que decorriam em Lisboa[1]. No que respeita ao caso cascalense, alude a Martim Anes que fora alcaide do mar em Lisboa e que, durante o desempenho do seu ofício, punha alcaides do mar em Cascais e Sesimbra. Estes alcaides eram como que capitães de porto nomeados pelo almirante, existentes nas principais cidades e vilas marítimas portuguesas, desempenhando funções de justiça e de organização[2]. No referido documento, é indicado que os alcaides do mar tinham a obrigação de prender os pescadores quando estes estavam em terra, quando se feriam ou faziam alguma coisa “sem guisa”[3].

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Fig. 2 – Documento de 1282 que alude a “Cascays” e aos pescadores locais.
Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fl. 46v.

Embora a actividade piscatória cascalense venha atestada na documentação histórica desde essa altura – ainda que de forma indirecta –, a pesca já era exercida neste território desde tempos ancestrais, sendo que no Período Romano chegou a existir uma fábrica de preparados piscícolas na área da actual Rua Marques Leal Pancada[4], junto àquele que hoje é o bar “Spicy”. Descoberta em 1992 e alvo de trabalhos arqueológicos nos anos seguintes, em breve uma das cetárias dessa fábrica ficará permanentemente visível ao público.

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Fig. 3 – Uma das cetárias romanas da área portuária de Cascais. Fotografia cedida por Guilherme Cardoso.

Durante os últimos séculos da Idade Média o peixe de Cascais era carregado para abastecer vários locais do Reino e, muito possivelmente, do exterior, embora neste último caso apenas se confirme uma cidade: Ceuta. As provisões eram constituídas por sardinhas – a espécie que ganha maior relevância na documentação preservada –, pescadas, congros e polvos. Posteriormente, o foral de Cascais (1514) também refere a existência de santolas, lagostas e outros tipos de marisco, atestando a riqueza deste mar. A fama do peixe de Cascais era tal que o mesmo chegou a ser elogiado pelo autor da História do Reino do Congo:

“Tem os rios, e crião em si grande quantidade de peixe do de Portugal: barbos, picões, bordalos, pardelhas, saramugas, esquilhões, peixe que se dá aos doentes, angolas, e outros muitos mui estranhos dos de cá; no mar corvinas, sardinhas, pescadas, mas não tão boas como as de Cascaes”[5].

No plano religioso, a memória medieval cascalense também se liga às actividades piscatórias, havendo uma referência ao aparecimento de uma imagem de Nossa Senhora (com o menino Jesus nos braços) nas redes dos pescadores locais. O acontecimento terá ocorrido em 1362, ou até mesmo antes, muito possivelmente resultante de uma figura de proa decorativa de um navio naufragado. Das várias versões existentes desta memória, seguem-se dois trechos distintos:

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Fig. 4 – Pescadores ao largo da Guia.

“E foy que tendo na visinhança da villa de Cascaes lançado suas redes alguns pescadores no anno de 1362, quando as recolheram acharam nellas a melhor pesca que podiam desejar, que era huma pequena imagem da Virgem Sanctissima Senhora Nossa com o minino Jesu nos braços, lavrada em madeyra de cipreste, de rara belleza e fermosura. Alegres os pescadores com tam precioso achado, e desejando que fosse venerada com o culto e reverencia que lhe era devida, resolverem de a collocar na igreja de Sancto Agostinho”[6].

“O ano de 1362 […] ou alguns anos antes deste, segundo se colige de alguns autores, lançaram certos pescadores da Vila de Cascaes […] suas redes ao mar, em a Vigília da Assumpção de Nossa Senhora, com o animo de lhe oferecer tudo o que recolhessem naquele lanço: e como em outros que haviam feito antes, tiveram grande quantidade de pescado, pareceu-lhes seria aquele lanço mais copioso, pela devoção, e piedade com que o haviam oferecido à Virgem Nossa Senhora. Foram também afortunados em o lanço, que ao levantar das redes as acharam não só cheias de toda a variedade de peixes; mas presa pela parte de fora em uma malha, uma formosa Imagem d’aquela Senhora a quem haviam oferecido misteriosamente o lanço”[7].

A imagem haveria de ser crismada de Nossa Senhora da Graça e, curiosamente, em vez de ficar em Cascais ou até mesmo em Sintra – que na altura tinha jurisdição sobre Cascais –, foi transportada para o mosteiro dos Eremitas de Santo Agostinho de Lisboa sob solene procissão. Para A. H. de Oliveira Marques, esta situação deveu-se à não existência de uma igreja em Cascais suficientemente importante, nem sequer ermida que a pudesse receber[8].

Caracterizada durante largos séculos por ser, sobretudo, uma terra de pescadores, de camponeses e de pequenos e médios comerciantes, assim como por estar ligada às actividades de apoio à navegação com destino a Lisboa e à defesa costeira[9], sendo regida a nível local por condes e marqueses, somente em finais do século XIX é que Cascais começou a ser estancia dos monarcas portugueses, trazendo atrás de si os diversos fidalgos que integravam a Corte e que começaram a edificar grandes habitações na zona costeira, marcando ainda hoje a paisagem cultural marítima.

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Fig. 5 – Porto e vila de Cascais numa gravura publicada por Georg Braun 
e Frans Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, vol. I, 1572 (ICGC).

O centro da vida portuária de Cascais sempre foi a praia da Ribeira, também conhecida por praia dos Pescadores e praia do Peixe, tendo assistido, ao longo da História, a diversos ataques de corsários e de piratas, assim como a invasões de inimigos que pretendiam conquistar Portugal. “Os conflitos de 1383-1385 que envolveram Portugal e Castela, bem como a invasão liderada pelo duque de Alba, em 1580, e os diversos actos de corso e pirataria documentados a partir do século XV, são exemplares no que respeita à importância estratégica de Cascais enquanto porta de entrada de forças inimigas vindas por mar”[10]. Daí que a costa cascalense tenha sido fortemente fortificada ao longo dos séculos.

Era, e ainda é, na praia da Ribeira que os pescadores desembarcavam quando vinham da faina, mas muitos, ao longo dos séculos, não lograram voltar a terra, sendo vítimas de acidentes no mar. Um desses acidentes ocorreu com o barco a motor “Ana Paula”, em Julho de 1962, ao largo do cabo Raso. Dos sete tripulantes que tinham saído durante a noite para pescar apenas um sobreviveu, tendo nadado para terra, acabando por ser recolhido por uma chata que transmitiu a informação em Cascais.

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Fig. 6 – Notícia presente in A Nossa Terra, Julho de 1962.

No que diz respeito à tradição local, nos últimos trinta anos certos costumes/elementos foram desaparecendo de forma acelerada, enquanto que outros foram sendo esquecidos ou postos de lado. Quem cresceu na baía entre as décadas de 1980 e 1990, por exemplo, habituou-se à chegada, pela tarde, dos arrastões carregados de peixe para ser vendido na lota local. Entre eles, refira-se o “Brutimar”, o “Carlos Tiago”, o “Cruz de Malta” (fig. 7), o “Felizardo”, o “Marina Dulce”, o “Pedrito”, o “Pedro Manuel”, o “Raio de Luz”, o “Verita”, etc. Para a descarga, já na década de 1990, contava-se com o auxílio das chatas do Trinta e da chata do Manel, o Careca, fazendo a ligação entre os arrastões e o pontão de desembarque. Com o abate ou a venda dos arrastões locais terminou a pesca de arrasto com base no porto de Cascais, algo que durante várias décadas foi imagem de marca a nível local.

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Fig. 7 – “Cruz de Malta” ancorado em Cascais (2004).
Década de 1980
Fig. 8 – Chatas na praia da Ribeira.

O mesmo se pode dizer das chatas, embarcações típicas de Cascais. No entanto, será que alguém se preocupa com o seu desaparecimento? No Verão de 2016, quando tive oportunidade de escrever um texto sobre o bairro dos Pescadores, contei apenas 3 chatas em frente à praia da Ribeira e de pequenas dimensões, isto quando em meados da década de 1990 chegavam a estar perto de 20 nas amarrações e na praia[11]. Quantas se podem ver hoje em dia? Ontem, ao final da tarde, apenas era visível uma, mas, curiosamente, até estava varada na praia, depois de ter sido feita a limpeza do casco (fig. 10). Longe vão os tempos em que inúmeras chatas, agitadas nas amarrações pelo vento de Norte, integravam a paisagem marítima cascalense, servindo para a pesca ou de embarcações de apoio às actividades piscatórias e de transbordo.

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Fig. 9 – Vara-se uma chata do Trinta para limpeza do fundo (2004). Na fotografia: Tó Simão (?), Armando e “Fininho”.
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Fig. 10 – Chata varada na praia para limpeza do casco (26/04/2019).

Quando era miúdo, lembro-me que chegava a haver um evento anual em que era simulada a chegada de Nicolau Coelho ao porto de Cascais, isto a propósito do regresso da primeira expedição marítima portuguesa à Índia (1497-1499). Várias escolas do concelho e de fora eram convidadas, havendo diversas actividades na praia da Ribeira associadas às profissões da época dos Descobrimentos, acabando o evento com comes e bebes, não faltando sardinhas e pão. Sendo Cascais uma vila cheia de História, seria importante retomar este tipo de iniciativas ligadas ao seu passado marítimo e de Portugal.

Outra memória recente, esta ainda mais fresca, diz respeito à época da construção da Marina de Cascais, que veio a tapar parte da praia de Santa Marta e a tapar por completo a pequena praia dos Tropas, também conhecida por praia dos Namorados. Mas antes disso, a discussão sobre a construção da Marina de Cascais prolongou-se bastante no tempo, chegando a existir um projecto que propunha a sua construção na Costa da Guia.

Em pleno Inverno de 1997, com a aproximação de um temporal de Sudoeste, três amigos (Bernardo, Fernando e Marco), antes do seu treino habitual de Hóquei de Sala, foram fotografados a passear no pontão de Cascais (fig. 11), altura em que ainda não existia a Marina, se bem já tivessem sido descarregadas toneladas de pedra para a construção do molhe.

Inverno de 2007
Fig. 11 – Cascais durante a aproximação de um temporal de Sudoeste.

Nesse tempo, após as marés-vivas e tempestades oceânicas, era costume ver alguns pescadores da praia da Ribeira, à borda-d’água e durante a baixa-mar, a apanhar diversos objectos, sobretudo moedas provenientes de naufrágios ou perdidas na areia ao longo dos anos, ficando ali soterradas. Não usavam detectores de metais, apenas as mãos para escavar entre a areia e as pequenas pedras postas a descoberto pela baixa-mar. Entre as moedas que apanhei naquela praia, quase sempre de 100 escudos ou outras igualmente de décadas recentes, também encontrei uma mais antiga, de 1808, altura em que a Corte, devido às invasões francesas, rumou ao Brasil. Foi a moeda mais antiga que achei, e até cheguei a mostrá-la a uma professora de História que tive na escola preparatória, mas sabe-se de pescadores que, ao longo das décadas, encontraram exemplares muito mais antigos, até mesmo do Período Romano. A moeda mais antiga que se sabe ter sido apanhada naquela praia é do século I d.C.[12]. Depois da construção da Marina este costume pouco conhecido – mas comum nas comunidades piscatórias – perdeu-se, sobretudo porque o mar deixou de entrar na praia da Ribeira com a força de outrora, deixando de trazer aqueles e outros objectos.

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Fig. 12 – Praia da Ribeira durante um temporal (meados do século XX).

E as festas do mar? Outra tradição que foi perdendo identidade é a realização, precisamente, das festas do mar, antigamente viradas verdadeiramente para o mar, para a praia e para os pescadores, com diversos eventos na areia e na água: corridas de cocos e de chatas, corridas na areia, competição de cordas, garraiada, etc. Contudo, desde há vários anos que se tornaram, como alguns referem, exclusivamente num género de festival de música de Verão.

Festas do Mar
Fig. 13 – Cartaz das Festas do Mar de 1997. Atente-se nas diversas actividades que estavam presentes.

O tempo não volta atrás, mas é sempre possível recuperar, preservar memórias e as tradições e passá-las às gerações vindouras. Cascais não pode viver sem isso, tal como não pode fugir ao progresso e à inovação. O que não se quer é que seja somente uma atracção baseada em programas virados para a vida turística, para quem vem de fora. É sempre possível conciliar os vários aspectos, mas há que privilegiar as raízes piscatórias e a cultura local.  Quem quiser conhecer ou relembrar um pouco do passado recente e as gentes locais, este vídeo de 1996 é um bom ponto de partida: Cascais: o Fim da Linha (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/cascais-o-fim-da-linha/). Muito fica por dizer e conhecer, sendo que nunca é demais relembrar que, historicamente falando, Cascais, antes de mais, é terra de pescadores!

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Fig. 14 – José Marques, mais conhecido por Zé Rabuça, antigo pescador local.

Marco Oliveira Borges | 2019

[1] ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fl. 46v.

[2] A. H. de Oliveira MARQUES, “A arte da guerra”, in Nova História de Portugal, vol. IV – Portugal na Crise dos séculos XIV e XV, Lisboa, Editorial Presença, 1986, p. 362.

[3] ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fl. 46v.

[4] João CABRAL e Guilherme CARDOSO, “Escavações arqueológicas junto à torre-porta do Castelo de Cascais”, in Arquivo Cultural de Cascais. Boletim Cultural do Município, 12 (1996), pp. 127-145; Guilherme CARDOSO, “As cetárias da área urbana de Cascais”, Setúbal Arqueológica, 13 (2006), pp. 145-150.

[5] História do Reino do Congo (Ms. 8080 da Biblioteca Nacional de Lisboa). Pref. e notas de António Brásio, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1969, p. 31.

[6] História dos Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa […], t. I, Lisboa, Nas Oficinas da Gráfica Santelmo, 1950, cap. IV, pp. 113 e 123.

[7] Fr. Agostinho de STA. MARIA, Santuário Mariano, 2.ª ed., 1.º liv., Lisboa, Miscelânea, 1933, pp. 93-94.

[8] A. H. de Oliveira MARQUES, “Sintra e Cascais na Idade Média”, in Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1988, p. 150.

[9] Marco Oliveira BORGES, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012.

[10] Idem, “Povoamento, estruturas e navegação na costa de Cascais entre a Idade do Ferro e o Período Islâmico” (no prelo).

[11] Idem, “Uma visita ao bairro dos Pescadores (Cascais): em busca de vestígios de actividade piscatória recente”, 2016 (https://sintraecascais.wordpress.com/2016/08/29/uma-visita-ao-bairro-dos-pescadores-cascais-em-busca-de-vestigios-de-actividade-piscatoria-recente/).

[12] Guilherme CARDOSO, Carta arqueológica do concelho de Cascais, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1991, p. 57.

O petroleiro “Tokyo Spirit” encalhado em Cascais (2015)

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Fig. 1 – Momentos iniciais do encalhe em Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No final da manhã de 17 de Outubro de 2015, durante um forte temporal, o petroleiro Tokyo Spirit encalhou na costa de Cascais. As informações que circularam sobre a presença deste navio no litoral cascalense são contraditórias. Por um lado, foi avançado que o Tokyo Spirit estava fundeado nesta costa alegadamente à espera de entrar na barra do Tejo, onde iria ser alvo de reparações. Por outro, também foi referido que o seu destino era o estaleiro da Lisnave, em Setúbal, o que veio a acontecer posteriormente. Mais contradições surgiram, desta vez relacionadas com o real motivo que levou à perda de controlo do navio, à consequente aproximação da costa de Cascais e encalhe, sendo este um assunto que não ficou bem esclarecido. Numa das versões é referido que, enquanto aguardava ordens do armador para rumar a um estaleiro, este petroleiro com a bandeira das Bahamas acabou por perder a amarra de estibordo e ser empurrado para terra pela força do mar, encalhando assim em frente ao farol da praia de Santa Marta.

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Fig. 2 – “Tokyo Spirit” encalhado em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 3 – Vista a partir da marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

4O Tokyo Spirit é um navio de 78 mil toneladas e 274 metros de comprimento, tendo sido construído no Japão em 2006. Face à presença ameaçadora deste gigante transportador de petróleo na sua costa, os habitantes locais temeram prontamente um desastre ambiental. Se as autoridades cascalenses, que acompanharam o acontecimento desde o pedido de socorro (12:01), sabiam que o navio tinha os tanques vazios, por outro lado, essa informação ainda não era conhecida das pessoas que inicialmente assistiam surpreendidas ou daquelas que iam visualizando algumas imagens e vídeos que rapidamente começaram a circular nas redes sociais[1]. Só um pouco depois é que começou a ser divulgado que este navio de casco duplo vinha sem carga, tendo descarregado os materiais dias antes em Gotemburgo, ainda sob o nome Princimar Loyalty (registado na Libéria). No entanto, o perigo de possível derrame de hidrocarbonetos não esteve totalmente afastado, sendo de referir os resíduos de crude existentes a bordo e uma certa quantidade de combustível que o Tokyo Spirit tinha para seu próprio funcionamento.

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Fig. 5 – Perspectiva ampliada do “Tokyo Spirit”. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O navio encalho inicialmente em frente à praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 7 – Vista a partir da Marina de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 8 – Perspectiva a partir da praia de Santa Marta. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

A notícia deste encalhe espalhou-se rapidamente pela Internet e teve, durante algum tempo, cobertura em directo por várias estações de televisão, facto que atraiu milhares de pessoas que ao longo da tarde de Sábado e já no dia seguinte se deslocaram a Cascais. Durante a tarde de Sábado, com a força do mar, o Tokyo Spirit desencalhou do local onde inicialmente havia encalhado, vindo a encalhar mais a nascente, junto à entrada da marina de Cascais.

9As operações iniciais para desencalhar este petroleiro foram efectuadas durante a preia-mar (18:30), contando-se com o auxílio de quatro rebocadores vindos de Lisboa. A bordo do Tokyo Spirit permaneceram as 22 pessoas que compunham a tripulação, visto que o comandante do navio recusou que fossem resgatadas pelo helicóptero da Força Aérea Portuguesa destacado para o local, alegando que não corriam perigo e que estas iriam auxiliar durante os trabalhos. Gorada a primeira operação de tentativa de desencalhe, tiveram de ser deslocados meios mais potentes e sofisticados para auxiliarem nos trabalhos: dois rebocadores vindos de Sines e um de Setúbal.

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Fig. 10 – Perspectiva durante a tarde de Sábado. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 11 – Os quatro rebocadores na operação de Sábado à tarde. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Por fim, durante a tarde do dia seguinte e já depois da deslastragem do navio, sete rebocadores a trabalhar em conjunto conseguiram desencalhar o petroleiro, sendo de enaltecer o empenho e eficiência das entidades envolvidas na operação. De seguida, o Tokyo Spirit foi rebocado para uma zona de fundeadouro da costa de Cascais e, posteriormente, levado para Setúbal.

A população local respirou de alívio! No entanto, não foi a primeira vez que tal tipo de acontecimento teve lugar na costa de Cascais e certamente que não será o último. Aliás, a história de Cascais é rica neste tipo de acidentes e naufrágios[1], sendo que os testemunhos históricos mais antigos remetem-nos para 1147, altura em que alguns navios das forças cruzadas que vieram auxiliar D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa aos mouros naufragaram entre Sintra e Cascais[2].

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Fig. 12 – Graças ao molhe de protecção da marina o petroleiro não se deslocou mais para terra. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 13 – “Tokyo Spirit” já ao largo depois do desencalhe. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

No fundo do mar de Cascais ficou uma amarra e um ferro que o Tokyo Spirit havia perdido durante o temporal. Somente em Maio de 2016 é que se procedeu à remoção destes materiais, sendo recolhidos mais de 300 metros de amarra, num total de cerca de 70 toneladas, enquanto que o ferro tinha perto de 11 toneladas[3].

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Fig. 14 – Amarra recuperada. Fotografia: Autoridade Marítima Nacional.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Algumas filmagens deste encalhe podem ser visualizadas na seguinte página: https://www.facebook.com/antiguidadesecuriosidadesdecascays/.

[1] Cf. Manuel Eugénio da SILVA e Guilherme CARDOSO, Naufrágios e acidentes marítimos no litoral cascalense, Cascais, Junta de Freguesia de Cascais, 2005; Cascais na rota dos naufrágios. Museu do Mar – Rei D. Carlos. Exposição. Catálogo, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 2006.

[2] Sobre estes naufrágios pouco falados, cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 126-127. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf. Sobre este assunto, cf. igualmente https://sintraecascais.wordpress.com/2016/05/14/naufragios-no-litoral-de-sintra-cascais-em-1147/. 

[3] http://www.amn.pt/Media/Paginas/DetalheNoticia.aspx?nid=578 (consultada em 24/05/2016).