Apontamentos sobre a villa romana de Santo André de Almoçageme (Colares)

Ruínas da villa
Fig. 1 – Aspecto parcial das ruínas da villa romana de Santo André de Almoçageme. “Terreno B”, zona de peristilo.

Situada aproximadamente a 2 km da foz da ribeira de Colares, a villa romana de Santo André de Almoçageme é aquela que, até ao momento, foi identificada como estando na posição mais ocidental do mundo romano[1]. As primeiras recolhas conhecidas de materiais neste local remontam a 1905, altura em que se procedeu a trabalhos de exploração e levantamento parcial de um mosaico policromo que havia sido descoberto aquando das obras da Estrada do Rodízio[2], a qual permite o acesso às imediações da Praia Grande, Praia Pequena e Praia das Maçãs. Sabe-se que, em Dezembro desse ano, alguns materiais ali recuperados deram entrada no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia. É de referir, por exemplo, 6 moedas romanas em bronze, diversos fragmentos de cerâmicas de construção, de armazenamento e de transporte, incluindo fragmentos de ânforas, 2 pondera de barro, 2 cossoiros, entre outros diversos materiais[3]. Entre 1977 e 1982 deram entrada no Museu Regional de Sintra três pondera e alguns fragmentos de dolia obtidos na villa romana de Santo André, isto em recolhas feitas à superfície[4].

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Fig. 2 – Estrada do Rodízio.

No entanto, somente na Primavera de 1985 tiveram início escavações arqueológicas de forma metódica, motivadas pela descoberta ocasional de estruturas in situ no terreno de exploração agrícola voltado a Sul (“Terreno A”)[5] e que abrange uma área aproximada de 1.200 m2. Após três campanhas de escavação arqueológica (1985, 1986 e 1987), concluiu-se estar perante um sector exterior ao espaço residencial da villa, sendo classificável como olaria de cerâmica de construção e que, em determinado momento, terá funcionado como lixeira, acabando assim por reunir materiais dos vários sectores desse habitat[6]. Entre todo o espólio recolhido nas três campanhas, destaca-se o elevado número de fragmentos cerâmicos (c. 87% do total das peças obtidas), sendo significativa a presença de cerâmica fina de importação[7]. Neste enquadramento, foram detectados materiais provenientes de quatro grandes centros exportadores no “Terreno A”:

1) Norte de África. O conjunto das cerâmicas terra sigillata africana (clara A, A/C, C e D) obtidas corresponde a um total de > 95% dos materiais recolhidos (1.378 fragmentos), constituindo esmagadoramente o centro exportador mais representado e quase que detendo a exclusividade da terra sigillata detectada neste sector da villa.

2) Hispânia. Representa apenas < 3% (= 36 fragmentos), percentagem que é dividida entre a terra sigillata hispânica (> 1% = 20 fragmentos) e a terra sigillata hispânica tardia (1% = 16 fragmentos)[8]. Esta última, detectada em poucas estações portuguesas, pelo menos até 1992, era cerâmica fina de importação produzida na região central do Norte da Península Ibérica, tendo “um circuito comercial essencialmente interior e fluvial”[9].

3) Sul da Gallia. Detém somente perto de > 1% (= 19 fragmentos)[10].

4) Mediterrâneo Oriental. Com a presença de Late Roman C Ware, detém < 1% (= 9 fragmentos) de toda a cerâmica fina registada no “Terreno A”[11].

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Fig. 3 – Planta geral da villa romana de Santo André de Almoçageme. A – “Terreno A”, olaria; B – “Terreno B”, zona do peristilo; C – “Terreno C”, designado popularmente por Quintal dos Tijolos.  Fonte: Sousa 1992a: 86.
Julia Domna
Fig. 4 – Cabeça de uma pequena estatueta encontrada em 1987. Datável de início do século III d. C., será uma representação da imperatriz Júlia Domna, mulher do imperador Septímio Severo. Fonte: https://www.facebook.com/museuarqueologicodesaomigueldeodrinhas/

Com base na presença de terra sigillata sud-gálica, Élvio Melim de Sousa remontou a construção e ocupação desta villa ao século II d.C., possivelmente à segunda metade. Contudo, foi ao longo do século III que os índices de ocupação aumentaram consideravelmente, registando o seu apogeu já na segunda metade dessa centúria e mantendo-se constantemente elevados por todo o século IV, conforme deixam perceber as altíssimas percentagens de terra sigillata clara C e D[12]. O conjunto de terra sigillata africana detectada (clara A, A/C, C e D) revela “uma forte e intensa relação entre Olisipo e o Norte de África na segunda metade do séc. III d.C. e durante o séc. IV, à qual não estarão alheios, certamente, a grandeza e a poderosa rede de difusão comercial das fábricas norte-africanas, bem como o relevante papel do porto de Olisipo na recepção dos respectivos produtos e posterior difusão dos mesmos pelo ocidente da Lusitânia, e desde logo pelos seus Agri[13].

A villa romana de Santo André de Almoçageme acabaria progressivamente por entrar em decadência, mas terá sido abandonada apenas em meados do século V d.C., ou até mesmo um pouco depois, a julgar pela detecção de cerâmica do tipo Late Roman C Ware e de terra sigillata hispânica tardia, sendo estes os materiais cerâmicos de cronologia mais recente que se encontraram até então[14]. Élvio Melim de Sousa acrescentou ainda que os resultados que se viessem a obter noutros sectores da villa, e através da análise de outros materiais, não modificariam substancialmente as conclusões que atrás foram avançadas. Os trabalhos mais recentes parecem confirmar isso mesmo.

A partir de 2007, uma equipa do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas iniciou um programa de recuperação e de valorização desta villa, prevendo-se colocar a descoberto, nos anos seguintes, todos os vestígios arqueológicos e fazer a sua musealização. Porém, as actividades viriam a cessar poucos anos depois, sem estarem concluídas.

Mosaícos
Fig. 5 – Aspecto de mosaico, triclinium. Fonte: http://museuarqueologicodeodrinhas.cm-sintra.pt/
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Fig. 6 – Placa toponímica alusiva à villa romana local.

Marco Oliveira Borges | 2020

Estudos

Borges, M. O. (2015), “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, Actas das Jornadas do Mar 2014. Mar: Uma onda de Progresso. Almada, Escola Naval: 152-164.

Borges, M. O. (2018), “Navegação comercial fluvio-marítima e povoamento no Ocidente do Municipium Olisiponense: em torno dos rios Lizandro (Mafra) e Colares (Sintra)”, in C. Soares, J. L. Brandão, P. C. Carvalho (coords.), História Antiga: relações interdisciplinares, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra: 219-255.

Caetano, M. T. (2011), “Mosaicos da finisterra ocidental: uilla de Santo André de Almoçageme”, in Actas do X Colóquio Internacional de Mosaico Greco-Romano, Coimbra, Museu Monográfico de Conímbriga, pp. 873–887.

Campos, M. J. (1906), “Acquisições do Museu Ethnologico Português”, O Archeologo Português, XI: 284-295.

Cortez, F. R. (1947), “Mosaicos romanos da Estremadura”, Estremadura. Boletim da Junta da Província, II, 14: 57-71.

Sousa, É. M. (1992a), “Ruínas Romanas de St.º André de Almoçageme”, Actas do Seminário O Espaço Rural na Lusitânia. Tomar e o seu Território, 17 a 19 de Março 1989. Tomar, Centro de Estudos de Arte e Arqueologia da Escola Superior de Tecnologia de Tomar: 85-91.

Sousa, É. M. (1992b), “Terra Sigillata Hispânica Tardia da Villa de Santo André de Almoçageme (Colares, Sintra)”, sep. de Artefactos, I: 16-21.

[1] Este artigo de divulgação histórica, ainda que sofrendo algumas modificações, foi adaptado de estudos mais alargados (Borges 2015: 153-154; Borges 2018: 219-255), no quais tínhamos feito uma síntese do sítio arqueológico com base em alguns estudos a que tivemos acesso. Sobre o programa de recuperação e de valorização desta villa, cf. http://ensina.rtp.pt/artigo/villa-romana-santo-andre-almocageme/.

[2] Campos 1906: 288; Sousa 1992a: 85; Caetano, 2011: 874.

[3] Campos 1906: 288-289; Cortez 1947: 62. Por compreender ficou a tipologia dos fragmentos de ânforas recolhidos, algo que também parece não ter sido referido pelos investigadores posteriores.

[4] Sousa 1992a: 85.

[5] Sousa 1992a: 85-86.

[6] Sousa 1992a: 85-86.

[7] Sousa 1992a: 86.

[8] Sousa 1992a: 90.

[9] Sousa 1992b: 16.

[10] Sousa 1992a: 90.

[11] Sousa 1992a: 90.

[12] Sousa 1992a: 90.

[13] Sousa 1992a: 90.

[14] Sousa 1992a: 90; Sousa 1992b: 17.

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