A primeira equipa campeã nacional de hóquei de Sala pelo Cascais (2001)

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Equipa de Juniores do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais que foi campeã nacional de hóquei de sala em 2001. Fotografia tirada no antigo pavilhão de Cascais. Em cima: Sr. Alfredo (delegado), Pedro Feijó (capitão), Tiago Ferreira, Bernardo Fernandes e João Miguel Freitas (treinador). Em baixo: Marco Borges, Rui Guerra, Fernando Medina, Luís Cunha, Igor Santos e André Quintino. Fotografia: André Cardoso.

Corria o dia 11 de Fevereiro de 2001 quando, pela primeira vez na sua História, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais foi campeão nacional na modalidade de hóquei de sala, tendo o feito ocorrido no Complexo Desportivo de Alcabideche. O titulo foi conseguido pela equipa de Juniores, na altura formada por 9 jogadores: Fernando Medina, Marco Borges, Tiago Ferreira, Pedro Feijó, Rui Guerra, Luís Cunha, Bernardo Fernandes, Igor Santos e André Quintino. No entanto, 6 destes jogadores, apesar de também jogarem pelo Juniores, na altura ainda eram Juvenis. Em comum, todos os 9 jogadores tinham uma grande amizade e o facto de serem oriundos da mesma escola preparatória: 2º e 3º ciclo Professor António Pereira Coutinho.

digitalizar0002Liderados pelo então jovem treinador João Miguel Freitas e representados pelo delegado Sr. Alfredo, esta equipa conseguiu um feito inédito para o clube. Se havia quem agourasse que o Cascais nunca seria campeão nacional nesta modalidade, até mesmo gente do próprio clube, tal ideia dissipou-se com uma vitória de 4 – 2 perante o Núcleo Sportinguista de Alfândega da Fé. Nos jogos anteriores, o Cascais havia empatado 2 – 2 com o Casa Pia Atlético Clube e vencido, por 1 – 0, a Associação Desportiva de Lousada. Recorde-se que os campeonatos nacionais de hóquei em Sala, por esta altura, disputavam-se em dois dias seguidos, onde, no total, cada equipa realizava três jogos. Mas antes disso, importa salientar, tinha lugar um campeonato regional, onde somente as melhores equipas de cada região envolvida eram apuradas para disputar o campeonato nacional.

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Equipa de Juniores logo após receber a taça de campeã nacional.

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Nesse mesmo ano de 2001, a equipa de Juvenis de hóquei de sala do Cascais também se sagrou campeã nacional, em Mirandela, feito igualmente alcançado pela equipa Feminina. Três títulos nacionais em apenas um ano, tónico bastante motivante para o futuro. Infelizmente, no ano posterior os dirigentes da própria equipa de hóquei do Cascais decidiram pôr fim à equipa de Juniores, onde o elemento mais antigo, Fernando Medina, já vinha a exercer actividade desde 1992, altura em que o treinador era José Maria Maximino. Isto fez com que alguns jogadores abandonassem a modalidade, não voltando a praticá-la. Outros ainda chegaram a jogar pelos Seniores, mas, por diferentes motivos, foram deixando o hóquei. Foi um fim precoce para uma equipa de Juniores que ainda tinha muito para dar à modalidade. É verdade que um ou dois anos depois o Cascais voltou a ter equipa de Juniores, mas alguns atletas já não tinham idade para disputar esse escalão.

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Pedro Feijó, capitão da equipa de Juniores. Um grande defesa direito, um dos jogadores mais disciplinados de sempre.

Mas voltando a Fevereiro de 2001, há que destacar a vitória contra o Lousada. O resultado desse jogo (1 – 0) foi atípico, pois estamos perante uma modalidade onde normalmente existem muitos mais golos. Em todo o caso, o escasso resultado não significou falta de qualidade e de espectáculo de ambos os lados. Pelo contrário, o jogo teve uma entrega e intensidade tremenda por parte dos jogadores, grandes lances e ocasiões, mas com os guarda-redes e os defesas a responderem muito bem às investidas contrárias. Já próximo do final do jogo, quando alguns pensavam que o resultado iria ser 0 – 0, o avançado esquerdo Tiago Ferreira, pela esquerda, rematou fortíssimo para a baliza contrária, inaugurando o marcador. Explosão tremenda! Estava feito o primeiro, o único do jogo. No total, Tiago Ferreira marcou 6 golos no campeonato nacional, tendo sido provavelmente o melhor marcador da prova.

Anos mais tarde, o Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, já no seu novo pavilhão, viria a banir as modalidades de hóquei de Sala e hóquei em campo (esta última existente no clube desde 1975), as quais deram, nos diferentes escalões, desde a década de 1970, vários títulos regionais e nacionais ao clube. É de referir igualmente que, ao longo da existência destas modalidades, vários atletas do Cascais representaram a Seleção de Lisboa e a Seleção Nacional em campeonatos disputados em Portugal e no estrangeiro. Talvez um dia as consciências mudem, esperando-se que no futuro o hóquei de sala e o hóquei em campo possam voltar a ser praticados no Grupo Dramático e Sportivo de Cascais.

Marco Oliveira Borges | 2020

Apontamentos sobre Sintra e Cascais durante a Idade Média

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Fig. 1 – Moinho de vento com a serra de Sintra como pano de fundo (Alcabideche).           Fotografia: Alexandra Morais

As relações entre Sintra e Cascais durante a Idade Média, territórios intimamente ligados entre si desde tempos recuados, foram sendo parcialmente apontadas por alguns investigadores que se dedicaram ao estudo da História de Cascais durante o século XX. Essas relações acabariam por ganhar maior importância já em finais da década de 1980, isto com as investigações desenvolvidas por A. H. de Oliveira Marques. O historiador cascalense, no seguimento das investigações que estava a realizar sobre o seu concelho natal, chegou mesmo a proferir uma conferência intitulada “Sintra e Cascais na Idade Média” (Palácio Nacional de Sintra, 3/7/1987), tendo o texto de apoio sido publicado no ano posterior[1].

Não crendo na teoria de que o topónimo Sintra pudesse ter surgido durante o Período Romano, Oliveira Marques referiu que tinha indiscutivelmente uma origem árabe, se bem que não se soubesse o étimo (árabe ou berbere) que lhe deu lugar. O historiador destacou que Sintra já era uma importante cidade nos séculos X e XI, se não antes, vindo referida entre os autores muçulmanos como um dos grandes povoados que existia no Ocidente da Península Ibérica (Garb al-Ândalus). Em relação ao território de Cascais, e à semelhança de Sintra, a toponímia de raiz árabe atestava uma colonização abundante e com estabelecimentos novos durante os quase quatro séculos e meio de ocupação muçulmana. Destaque para o topónimo Alcabideche, pequeno povoado na dependência de Sintra, decerto a ela ligado por estrada[2]. De Alcabideche era natural Abu Zaid Ibn Muqana al-Qabdaqi al-Ushbuni, famoso poeta que deu a conhecer a existência de moinhos de vento nessa área.

O interesse pelas relações entre Sintra e Cascais durante a Idade Média ainda hoje é visível entre os investigadores, sendo que os trabalhos recentes têm trazido diversas novidades, seja para o Período Islâmico como para os séculos XIV-XV. Para o primeiro caso, tem-se fortalecido a ideia de que durante aquele período histórico começara a ganhar forma um sistema de defesa costeira a partir de Sintra que teria necessária continuação pelo actual litoral cascalense[3], embora Cascais não tenha sido alvo da atenção dos autores muçulmanos, os quais, aliás, não tiveram em conta a realidade portuária entre a costa de Sintra e o porto de Cascais, se bem que exista uma possível descrição da Boca do Inferno[4]. De forma comprovada, existem somente as descrições relativas a Alcabideche, nomeadamente por intermédio de Ibn Muqana (século XI)[5]. Nem mesmo o foral de Sintra de 1154 (o qual chegou até aos nossos dias através de dois traslados feitos no século XV) alude a Cascais como parte integrante do termo sintrense, ainda que durante o século X devesse existir um iqlim em Sintra que englobaria Cascais e Mafra nos limites do seu termo[6]. É verdade que existem referências à passagem dos cruzados que auxiliaram na “Reconquista” de Lisboa (1147) pelo porto de Cascais, com expressa alusão a este topónimo, mas essas informações, se bem que alegadamente baseadas numa memória documental do século XII, aparecem muito tardiamente[7]. É num documento de 1282 que, pela primeira vez, o topónimo “Cascays” vem atestado (fig. 2). Em todo o caso, nos últimos tempos tem ganho forma a forte possibilidade de que o topónimo Cascais possa mesmo ter uma origem árabe, estando associado ao contexto de defesa costeira do al-Ândalus[8].

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Fig. 2 – Alusão documental mais antiga que se conhece ao topónimo “Cascays”. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Dinis, liv. I, fls. 46v-47.

Um aspecto bastante sintomático das relações entre Sintra e Cascais, e que se destaca na documentação dos séculos XIV-XV, são os conflitos jurisdicionais que opuseram os poderes locais e os habitantes destes dois territórios. A aldeia de Cascais foi elevada a vila em 1364, ficando isenta da sujeição a Sintra[9], mas só em 1370 conseguiu a criação do seu termo, desmembrando-se assim do território sintrense[10], que se regia pelo foral outorgado por D. Afonso Henriques em 1154. No entanto, mesmo depois da criação do termo e senhorio cascalense surgiram diversas dúvidas e cobiças territoriais, até porque doravante algumas pessoas passaram a ter propriedades nas zonas de fronteira entre ambos os territórios, por vezes não se sabendo exactamente em que local começava a fronteira ou fazendo-se vista grossa. Na verdade, os sintrenses não viram com bons olhos a desanexação do território de Cascais. Em 1387, num dos muitos problemas que surgiram, a rainha D. Filipa de Lencastre, que havia entrado na posse de Sintra, tentou apossar-se de Cascais. A situação levou a um conflito com os funcionários do doutor João das Regras, na altura senhor de Cascais, vindo este a conseguir de D. João I uma carta de confirmação dos seus direitos sobre este senhorio[11].

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Fig. 3 – Termo de Cascais nos séculos XIV-XV. Fonte: A. H. de Oliveira Marques.

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Fig. 4 – D. Filipa de Lencastre. Fonte: Manuela Santos Silva, A rainha inglesa de Portugal. D. Filipa de Lencastre, Círculo de Leitores, 2012.

Um outro elemento fundamental nas relações entre Sintra e Cascais foi o porto cascalense. Embora o esteiro de Colares tenha funcionado como porto de Sintra ainda durante o Período Islâmico, escoando-se por ali mercadorias para Lisboa, actividade que remontaria pelo menos ao Período Romano[12], terá deixado de ser navegável durante os séculos XII-XIII[13]. Assim, não admira que anteriormente a 1377 o escoamento da produção vinda do hinterland[14] sintrense e que era destinada a Lisboa, Sevilha e a outros locais, incluindo ao Mediterrâneo[15], já fosse feito através de Cascais, que funcionava como porto de Sintra[16].

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] A. H. de Oliveira MARQUES, “Sintra e Cascais na Idade Média”, in Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1988, pp. 144-153.

[2] Idem, ibidem, pp. 145-146.

[3] Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, in História. Revista da FLUP, IV: 2 (2012), pp. 109-128; idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, pp. 409-441. Recentemente, no âmbito do programa televisivo “Caminhos” (RTP2), tivemos a oportunidade de participar num episódio sobre “A defesa costeira no litoral de Sintra-Cascais durante o Período Islâmico”. O episódio pode ser visto através da seguinte ligação: https://www.youtube.com/watch?v=xVvG-KbkVvw&feature=em-upload_owner (consultado em 10-05-2015).

[4] Cf. Fátima ROLDÁN CASTRO, El Occidente de Al-Andalus en el Atar al-Bilad de al-Qazwīnī, Sevilla, Ediciones Alfar, 1990, p. 91; Adel SIDARUS e António REI, “Lisboa e seu termo segundo os geógrafos árabes”, in Arqueologia Medieval, 7 (2001), pp. 45-46 e 55-56; António REI, O Gharb al-Andalus al-Aqsâ na Geografia Árabe (séculos III h. / IX d.C. – XI h. / XVII d.C.), Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, 2012, p. 123, n. 3.

[5] O poeta nasceu em Alcabideche, em inícios do século XI ou finais do anterior. É provável que não tenha vivido muito para além de 1068 (cf. António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 3.ª ed. rev., Lisboa, Editorial Caminho, 2008, pp. 524-525 e 552, n. 44).

[6] Alguns indícios levam a crer “que a figura do Iqlim em torno das grandes cidades poderá corresponder à área sobre a qual o aglomerado exerce um controlo económico e espacial” (Catarina COELHO, “A ocupação islâmica do Castelo dos Mouros (Sintra): interpretação comparada”, in Revista Portuguesa de Arqueologia, 3: 1 (2000), p. 208).

[7] Cf. Marco Oliveira BORGES, “Em torno da preparação do cerco de Lisboa (1147) e de uma possível estratégia marítima pensada por D. Afonso Henriques”, in História. Revista da FLUP, IV: 3 (2013), pp. 127-129. Disponível em https://www.academia.edu/5666143/Em_torno_da_prepara%C3%A7%C3%A3o_do_cerco_de_Lisboa_1147_e_de_uma_poss%C3%ADvel_estrat%C3%A9gia_mar%C3%ADtima_pensada_por_D._Afonso_Henriques_2013_http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/11716.pdf.

[8] Cf. Marco Oliveira BORGES e Helena Condeço de CASTRO, “O navegador muçulmano Khashkhash e a possível ligação com o topónimo Cascais: problemas e possibilidades”, in Arquivo de Cascais. História, Memória, Património, 14 (2015), pp. 6-29.

[9] Cf. A. H. de Oliveira MARQUES, Carta de Vila de Cascais de 1364. Estudo e transcrição de […], Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1989, pp. 5-18.

[10] ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. 1, fl. 56.

[11] Cf. Chancelarias Portuguesas. D. João I, vol. II, t. I, Lisboa, Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2005, pp. 151-152, doc. 261; A. H. de Oliveira MARQUES, “Sintra e Cascais na Idade Média”, p. 152.

[12] Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I […]”, pp. 118-119; idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Jornadas do Mar 2014. Mar: uma onda de progresso, Almada, Escola Naval, pp. 152-164. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/22073421/Portos_e_ancoradouros_do_litoral_de_Sintra-Cascais._Da_Antiguidade_%C3%A0_Idade_Moderna_I_2015.

[13] Mais provavelmente durante o século XII, devendo ainda ter servido de acesso ao interior do território quando Sigurd atacou Sintra em 1109 (cf. Maria Teresa CAETANO, Colares, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, 2000, p. 41; Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I […]”, pp. 124-125; idem, O porto de Cascais durante a Expansão Quatrocentista. Apoio à navegação e defesa costeira. Dissertação de Mestrado em História Marítima, Universidade de Lisboa, 2012, pp. 167-168; idem, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, p. 160).

[14] Sobre este conceito, cf. Marco Oliveira BORGES, “Hinterland”, in José Vicente SERRÃO, Márcia MOTTA e Susana Münch MIRANDA (dir.), E-Dicionário da Terra e do Território no Império Português, Lisboa, CEHC-IUL, 2016. Disponível em https://edittip.net/category/hinterland/.

[15] Sobre este assunto e teias comerciais envolvidas, cf. idem, O porto de Cascais […], pp. 94-102.

[16] A. H. de Oliveira MARQUES, op. cit., p. 151.