Uma possível descrição da Boca do Inferno nas fontes árabes medievais ou do Fojo da costa de Sintra

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Mar agitado na zona da Boca do Inferno (postal antigo).

Possível antiga gruta que foi sofrendo uma forte erosão através da violenta acção do mar ao longo do tempo, a Boca do Inferno é uma das grandes atracções turísticas do concelho de Cascais. Foi em 2011, no âmbito das investigações que estávamos a desenvolver sobre a militarização na área costeira ocidental do distrito (kura) de Lisboa durante o Período Islâmico, que tivemos conhecimento do tema que agora trazemos ao leitor.

Baseado em al‐Udhri (1002‐1085), al‐Qazwini (1203‐1283), historiador e geógrafo nascido na Pérsia, referiu “una gran cueva en la que penetran las olas del mar, su entrada está en un monte muy alto. Así, pues, cuando afluyen las olas del mar a dicha cueva, ves el monte moverse al mismo tempo que ellas. Quien lo observa, lo ve alternativamente subir y bajar”[1].

Dada a descrição ser alusiva a um local nas imediações de Lisboa, Adel Sidarus e António Rei colocaram a hipótese de os autores se quererem reportar à Boca do Inferno[2]. Mais recentemente, António Rei referiu que essa visão teria sido “certamente obtida a bordo de um barco. Eventualmente observado na zona das actuais Cascais e Boca do Inferno, e em que o monte muito alto em que se inseriria a gruta, poderia ser a Serra de Sintra, que lhe fica sobranceira”[3].

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Outro aspecto do mar agitado na zona da Boca do Inferno (postal antigo).
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Interior da Boca do Inferno.

Muito embora as indicações daqueles autores medievais e as consequentes interpretações historiográficas levantem dúvidas e sejam discutíveis quanto ao enquadramento geográfico da Boca do Inferno, é preciso ter em conta que era bastante frequente que as informações de obras antigas (crónicas, descrições, relatos de viagem, etc.) fossem sendo copiadas ao longo dos séculos, mas alterando-se e acrescentando-se alguns pormenores, por vezes sem se visitarem os locais abordados. Consequentemente, isso dava origem a frequentes imprecisões descritivas relativamente a esses mesmos locais, uma vez que não era tida em conta a verdadeira geografia dos sítios, pelo menos na sua plenitude, situação que chegou a acontecer relativamente a Sintra[4].

Entretanto, depois da publicação inicial deste pequeno artigo, Rui Oliveira, Guilherme Cardoso e Maurício Barra alertaram para a possibilidade de os autores medievais se quererem reportar ao Fojo, na costa de Sintra, mais concretamente a Sul da praia da Adraga, e não à Boca do Inferno. Embora al‐Qazwini, seguindo al‐Udhri, não coloque em Sintra a “gran cueva en la que penetran las olas del mar”, mas sim algures nas proximidades de Lisboa, pelos argumentos indicados no parágrafo anterior é possível que o local em causa fosse mesmo na costa sintrense, portanto, o Fojo. Seja como for, fica a dúvida entre os dois locais referidos.

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Indicação do Fojo, na costa de Sintra, junto à Pedra de Alvidrar.
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Fojo da costa de Sintra. Adaptado de: http://umgrandehotel.blogspot.com
Fig. 7
Mapa do al-Ândalus e parte do Norte de África, c. 868 (simplificado).

Marco Oliveira Borges | 2019

[1] Fátima Roldán Castro, El Occidente de AlAndalus en el Atar alBilad de alQazwīnī, Sevilla, Ediciones Alfar, 1990, p. 91.

[2] Adel Sidarus e António Rei, “Lisboa e seu termo segundo os geógrafos árabes”, in Arqueologia Medieval, 7 (2001), pp. 45‐46 e 55‐56.

[3] António Rei, O Gharb alAndalus alAqsâ na Geografia Árabe (séculos III h. / IX d.C. – XI h. / XVII d.C.), Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, 2012, p. 123, n. 3.

[4] Cf. Marco Oliveira Borges, “A defesa costeira do litoral de Sintra‐Cascais durante o Garb al‐Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, in História. Revista da FLUP, IV: 2 (2012), p. 122, n. 70. Para uma visão aprofundada do sistema defensivo da área ocidental do distrito (kura) de Lisboa durante o Período Islâmico, cf. Marco Oliveira Borges, “A defesa costeira no distrito de Lisboa durante o período islâmico. I – A área a ocidente da cidade de Lisboa”, in João Luís Inglês Fontes et al. (coords.), Lisboa Medieval: Gentes, Espaços e Poderes. Textos seleccionados do III Colóquio Internacional “A Nova Lisboa Medieval” (Lisboa, FCSH/UNL, 20-22 de Novembro de 2013), Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, pp. 67-104; idem, “A importância estratégica do conhecimento do território na formação de um sistema defensivo: o caso de Sintra (Portugal) durante o Período Islâmico”, in Anuario de Historia Regional y de las Fronteras, 22: 2 (2017), pp. 17-48; idem, “Aspectos de militarização e defesa costeira no Garb al-Ândalus: o caso de Cascais”, in Revista Universitaria de Historia Militar, 6:11 (2017), pp. 172-196. Os artigos podem ser descarregados integralmente acedendo a este endereço: https://lisboa.academia.edu/MarcoOliveiraBorges

3 comentários sobre “Uma possível descrição da Boca do Inferno nas fontes árabes medievais ou do Fojo da costa de Sintra

  1. ( em 20 JUlho 2019 )
    Especulando, também poderia ser uma descrição do Fojo, um enorme buraco “ num monte muy alto” ao lado esquerdo da Adraga, e muito próximo da Pedra de Alvidrar, sobre a qual existem referências anteriores, no período romano.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Bom dia; Parabéns pelo interessante artigo. Sendo dinamizador de uma página de facebook acerca de Cascais denominada “Cascais e mais” (sem fins lucrativos), venho solicitar a sua permissão para republicar os artigos do seu blogue, devidamente identificados. Security Check Required

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    Muito grato pela atenção envio-lhe os meus melhores votos de continuação de bom trabalho, Carlos Silva

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