Um amolador em Cascais, profissão rara nos nossos dias

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Fig. 1 – Joaquim Castro, amolador de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Quase ao final da manhã, misturado com o ruído das obras públicas que decorrem no centro de Cascais, um som característico acaba por se distinguir e chamar a atenção dos moradores mais atentos. É o raro som de uma gaita, usada apenas pelos amoladores que, cada vez em menor número, percorrem as ruas a pé empurrando a sua bicicleta ou mota, com o objectivo de assinalarem a sua presença e de colocarem os seus serviços à disposição do freguês que necessitar. Habituado a este som desde criança, há muito tempo que não o oiço com tanta frequência, sendo cada vez mais uma raridade.

Mas o que é um amolador? O amolador é um comerciante ambulante especializado em amolar (afiar) facas, tesouras e outros utensílios cortantes, mas também em reparar chapéus-de-chuva. Joaquim Castro é o amolador que, todas as quintas-feiras, vem ao centro de Cascais na sua bicicleta, uma pasteleira que diz ser de 1915. Devidamente equipada com diversos utensílios fundamentais ao seu trabalho, é de destacar a pedra de amolar, tendo esta uma forma circular. Estando nesta profissão por tradição familiar, Joaquim Castro diz que percorre as ruas do concelho de Cascais há 50 anos, tendo chegado a prestar os seus serviços igualmente em Oeiras e Lisboa.

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Fig. 2 – Amolador antigo.
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Fig. 3 – Amolador representado nos azulejos decorativos do exterior do Mercado da Vila de Cascais. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Tendo eu um chapéu-de-chuva a precisar de ser arranjado, decidi ir ao encontro do amolador. Contudo, face ao barulho provocado pelas máquinas que procedem às ditas obras, conjugado ainda com o ruído dos veículos que circulam pelas ruas, apenas ao fim de cerca de 300 m percorridos foi possível encontrar o amolador que, espaçadamente, ia assinalando a sua presença ao som da gaita. Assim, caminhei por um trajecto que me levou da Igreja dos Navegantes, pela rua com o mesmo nome, passando pela Rua Marques Leal Pancada, até à Rua Manoel Vieira de Araújo Viana, a qual integra um espaço outrora no interior da muralha medieval de Cascais.

Ao solicitar o arranjo do chapéu-de-chuva, e vendo o moleiro que, com a pressa que sai de casa à sua procura, esqueci-me de o trazer, disponibilizou-se gentilmente para voltar atrás no seu trajecto e tratar do reparo, o seu segundo do dia. Já de novo junto à Igreja dos Navegantes, Joaquim Castro diz: “É um chapéu automático. Tem aqui um bom chapéu. Tem apenas uma vareta partida”. Feito o reparo, o amolador seguiu o seu caminho de rua em rua, não sem antes aceder ao pedido que lhe fiz para tirar mais umas fotografias, colocando prontamente a gaita na boca e soltando aquela sonoridade típica, imagem de marca desta profissão.

Em pequeno, lembro-me de um outro amolador que morava aqui no centro de Cascais e que, em vez de bicicleta ou mota, empurrava apenas uma roda. Penso que o seu nome, ou alcunha, era “Ferrer”. Cada vez mais rara nos dias que correm, eis uma profissão em vias de extinção.

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Fig. 4 – O amolador serve-se do martelo. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 5 – Colocação de nova vareta no chapéu-de-chuva. Fotografia: Marco Oliveira Borges.
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Fig. 6 – O amolador pronto para voltar ao seu percurso de rua em rua. Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Marco Oliveira Borges | 2016

Cascais elevada a vila (7 de Junho de 1364)

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Fig. 1 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 97v.

Corria o longínquo ano de 1364 quando, solicitando ao rei D. Pedro I que os libertasse da sujeição a Sintra, os homens-bons de Cascais viram este lugar ser elevado à categoria de vila. Outorgada a 7 de Junho desse ano, em Santarém, a carta de vila de Cascais veio a estabelecer os primórdios da organização municipal cascalense, onde a capacidade de eleger juízes, oficiais e o direito de jurisdição cível e crime se tornavam comuns ao que acontecia nos outros concelhos do Reino[1]. Tal mercê não foi concedida sem as habituais obrigações para com a Coroa, sendo que, neste caso concreto, acarretavam o pagamento de um elevado imposto anual de 200 libras, suportado pelos seus habitantes, para além dos direitos de que a população lhe era tributária.

A carta original não chegou até aos nossos dias, restando apenas uma cópia documental de meados do século XV presente no único dos dez livros de chancelaria de D. Pedro I que perdurou. Eis os pontos fundamentais que o documento determina e que foram destacados pelo historiador cascalense A. H. de Oliveira Marques:

1 – Que daí em diante Cascais ficasse isenta de qualquer sujeição a Sintra e fosse considerada vila.

2 – Que tivesse jurisdição cível e crime própria, tal como acontecia nas outras vilas do Reino.

3 – Que elegesse juízes e oficiais segundo as normas dos outros municípios.

4 – Que pagasse 200 libras anuais ao rei, além de todos os demais direitos reais a cobrar no território do novo concelho.

No entanto, como observou Oliveira Marques, este documento não definia nenhum território que ficasse como termo da nova vila, pelo que, aparentemente, apenas o povoado próximo do porto se considerava doravante autónomo em relação a Sintra[2]. Foi por carta régia de 8 de Abril de 1370[3], outorgada por D. Fernando I, que se veio a corrigir essa lacuna territorial. Nesse dia foi fundado o senhorio de Cascais e entregue, juntamente com o castelo da vila, a Gomes Lourenço do Avelar, heróico defensor de Ciudad Rodrigo que havia suportado um intenso cerco de dois meses feito pelas tropas de Henrique II, rei de Castela.

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Fig. 2 – Cópia da carta de vila de Cascais. Fonte: ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, liv. I, fl. 98.
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Fig. 3 – Transcrição da carta de vila de Cascais. Fonte: A. H. de Oliveira Marques.
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Fig. 4 – Cascais de meados do século XV numa gravura do século XVIII.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Carta de Vila de Cascais de 1364. Estudo e transcrição de A. H. de Oliveira MARQUES, Cascais, Câmara Municipal de Cascais, 1989, p. 5. O documento outorgado tem a data de 1402, mas é necessário subtrair 38 anos, ficando assim em 1364, pois Portugal só adoptou a Era de Cristo em 1422. Até aí utilizava-se a Era Hispânica (ou Era de César), tendo esta um adiantamento de 38 anos em relação à Era de Cristo.

[2] Ibidem, pp. 11-12.

[3] ANTT, Chancelaria de D. Fernando, liv. I, fl. 56, 1.ª col.