A Enseada de Assentiz: ancoradouro natural usado por piratas e corsários

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Fig. 1 – Cabo da Roca com vista parcial para a enseada de Assentiz e imediações.            Fotografia: Marco Oliveira Borges.

Ladeada do Cabo da Roca, a Sul e voltada a Oeste, a Enseada de Assentiz[1] apresenta um recorte geomorfológico que leva a crer que possa ter sido aproveitada como pequeno ancoradouro de abrigo[2] desde a Antiguidade[3]. A própria situação em que se encontra face aos ventos dominantes daquela área, ou seja, abrigada da vertente Nor-Nordeste devido à presença física do Cabo da Roca, é um elemento fundamental quando pensamos na utilização naval desta enseada[4]. Acresce que a área abrigada aonde se encontra situada acaba por se estender um pouco mais para Sul, sensivelmente até ao local fronteiro ao Alto das Entradas, proporcionando um espaço mais alargado para a ancoragem de navios. Assim, estando desde sempre na rota do movimento marítimo entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo, e vice-versa, faz todo o sentido que esta área junto ao Cabo da Roca tenha tido alguma importância ocasional para abrigo de navios em trânsito.

Em todo o caso, o possível uso desta enseada e imediações deverá ter sido mais activo pelos navegadores da região, certamente com melhores conhecimentos dos locais de abrigo e dos particularismos da geografia local. É preciso salientar que esta é uma costa marcadamente rochosa e que, para navegadores inexperientes ou que desconhecessem a geografia da região, poderia ser fatal. Na verdade, a área do Cabo da Roca é conhecida pelos diversos naufrágios que proporcionou ao longo dos tempos, inclusive o célebre naufrágio da nau da carreira da Índia Santa Catarina [de Ribamar] (1636).

Situada cerca de 900 m a Noroeste daquele cabo encontra-se a Pedra da Arca ou Baixa do Broeiro, a qual estando submersa mas à flor da água representa um perigo escondido para a navegação, uma verdadeira armadilha. Junto desta pedra está um navio afundado e oito canhões submersos[5]. As Mesas, por sua vez, pedras emersas mas a pouca profundidade, situadas 200 m a Sul-Sudoeste do focinho do cabo, constituem perigo aos navios que navegam muito perto da costa, sobretudo durante a noite[6]. Para além dos perigos referidos, entre a Baixa do Broeiro e as Mesas existem várias pedras “tanto mais perigosas porque são frequentes os nevoeiros junto à costa nos meses de Verão”, perigosidade que aumenta ainda com os ventos e o mar agitado típico daquela área[7].

Recuando até à Idade Média, e até mesmo à Antiguidade Pré-Clássica e Clássica (púnico-fenícia e romana), é possível que esta área junto ao Cabo da Roca possa vir a permitir novos achados subaquáticos que venham a enriquecer o património cultural, visto que para épocas mais recentes já foram identificados e recolhidos alguns materiais, nomeadamente peças de artilharia e moedas de ouro[8].

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Fig. 2 – Pormenor da enseada de Assentiz. Fotografia: Ricardo Silva.
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Fig. 3 – Outro pormenor enseada de Assentiz. Fotografia: Ricardo Silva.

À semelhança do que poderá ter acontecido nas pequenas enseadas da Biscaia – nomeadamente nas imediações do porto do Touro –, é muito provável que aquela área costeira entre a Enseada de Assentiz e o local fronteiro ao Alto das Entradas tenha sido usada numa larga diacronia e sido estratégica para piratas e corsários que esperavam a passagem de navios, sobretudo os que vinham de Norte. Ainda que a existência de rochedos nas imediações constitua enorme perigo para a navegação, algumas fontes históricas indicam que durante os séculos XVI-XVII a área do Cabo da Roca era frequentada por piratas e corsários que esperavam, sobretudo, a passagem das naus da carreira da Índia. Na verdade, à semelhança das Berlengas, o Cabo da Roca era a grande referência na aproximação à costa portuguesa para os navios que vinham dos Açores, pelo que é normal que a documentação mostre a presença destes salteadores de mares nestas imediações à espera de emboscar as naus que vinham ricamente carregadas. De facto, do ponto de vista geo-estratégico, a Enseada de Assentiz e as suas imediações teriam constituído um local ideal para uma emboscada, mormente em períodos de preia-mar.

É possível que a emboscada à naveta Nossa Senhora da Conceição (feita por quatro navios argelinos a 17 de Dezembro de 1637) tenha ocorrido na Enseada de Assentiz (ou nas suas proximidades), uma vez que os inimigos aguardavam junto à parte de terra, no Cabo da Roca[9]. Este era o local mais adequado naquela área que permitia aos inimigos fazer uma espera aos navios vindos de Norte sem serem vistos – uma vez que a Roca tapa a visão a quem vem desse quadrante – e lançar um ataque surpresa. Portanto, os navios que se tivessem a deslocar para Sul só saberiam da presença inimiga muito em cima dos acontecimentos.

Foi nas proximidades da Enseada de Assentiz, no Alto das Entradas ou Calhau das Entradas (sítio caracterizado por uma área de penhascos e de altura considerável em relação ao mar), que após a Restauração foi edificado o Forte de Nossa Senhora da Roca (ou Forte do Espinhaço)[10], do qual já só subsistem escassos vestígios das suas ruínas (fig. 5). De acordo com as investigações de Carlos Callixto, um inspector anónimo havia visitado o local em Abril de 1751, altura em que o forte já se encontrava bastante arruinado, ficando estimado que a sua reconstrução total orçaria pelos 1.300$00 réis.

À primeira vista, a possível importância para abrigar os navios que por ali passavam, bem como a própria presença de corsários naquelas imediações e a necessidade de evitar que pairassem por ali, seriam argumentos mais que válidos para se erguer um forte naquela área. De acordo com o dito inspector que visitou o local em 1751, o Forte de Nossa Senhora da Roca estava “num dos sítios mais importantes daquela marinha pelo muito que ampara dos inimigos as embarcações pequenas que fazem viagem para o Norte”[11]. Não se sabe por quantas peças de artilharia estava dotado na altura, porém, anos mais tarde, entre 1763 e 1764, sabe-se que estava artilhado com 4 peças de ferro: 2 de calibre 9 e 2 de calibre 6[12]. Todavia, os relatórios levados a cabo nas décadas seguintes viriam a tirar a importância estratégica e a utilidade defensiva deste forte. Em 1777, um oficial alegou que o “Forte não he de nenhuma utilidade, e assim só lhe bastão duas peças para servir de vigia. O paiol da pólvora está em bom estado. Para guarnecer esta fortaleza em tempo de guerra, no cazo que seja acommetida por alguma frota inimiga, bastar-lhe-ha ao menos um Cabo e oito artilheiros; presentemente se acha guarnecida por hum Cabo e trez Soldados infantes”[13]. Em 1796, num novo relatório, a importância da fortificação foi considerada “quaze inútil pois não defende porto algum e os seus tiros são tão mergulhantes que não poderão fazer efeito, por estar levantado sobre o plano do mar alguns 300 palmos; e além disto todos os navios se apartão deste Cabo [da Roca] por não darem a Costa”[14]. Por fim, num relatório de 1831 foi referido que não era “possível com o fogo feito da bateria deste Forte incomodar o inimigo, devido à sua grande altura sobre o mar”[15].

Em todo o caso, apesar da curta duração que teve e de se ter verificado a sua inutilidade para a defesa marítima dessa área, a verdade é que a intenção inicial que esteve por detrás da construção do forte estaria mesmo na necessidade de protecção dos navios que se abrigavam de corsários naquelas enseadas e imediações. Talvez o poder de fogo que o forte dispunha acabou por ter um efeito mais dissuasor para os navios inimigos que se aventuravam por aquelas paragens do que propriamente operativo.

Forte da Roca. Carlos Ribeiro, Atlas da costa de Portugal entre o estuário da Ribeira da Maceira e a Pedra do Frade a Oest
Fig. 4 – Forte da Roca numa gravura da segunda metade do século XIX.
Forte
Fig. 5 – Ruínas do forte de Nossa Senhora da Roca. Fotografia: André Manique.

De qualquer forma, tal como nos deixam perceber vários tipos de fontes, não há qualquer dúvida de que se estava perante uma área movimentada e que era paragem frequente para piratas e corsários que aproveitavam as características geográficas desta costa para levar a cabo os seus ataques, embora algumas características deste trecho costeiro pudessem ser mais benéficas para os navios de menor porte que procuravam refúgio. De acordo com Manoel Pimentel, por exemplo, “na ponta desta Roca distante de terra o tiro de hum mosquete está huma baixa em que arrebenta o mar. Por entre a baixa, e a Roca tem ja passado navios pequenos fugindo dos Mouros, encostando-se mais à baixa que à Roca”[16]. Esta é uma referência à Baixa do Broeiro, ficando o contínuo testemunho quanto à presença de piratas e de corsários nas imediações, bem como de esta área servir de refúgio a navios de menor porte que, liderados por mareantes conhecedores da geografia local, poderiam usar a presença dos rochedos à flor da água como armadilha para se defenderam da agressão de navios maiores. O embate contra os rochedos seria um naufrágio quase certo naquele local.

Cabo da Roca 1
Fig. 6 – Vista aérea do cabo da Roca.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Este pequeno artigo de divulgação histórica, ainda que tendo sido sujeito a pequenas modificações e acrescentos, foi adaptado de um trabalho mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “Portos e ancoradouros do litoral de Sintra-Cascais. Da Antiguidade à Idade Moderna (I)”, in Jornadas do Mar 2014. Mar: uma onda de progresso, Almada, Escola Naval, pp. 162-163. Disponível em https://www.academia.edu/22073421/Portos_e_ancoradouros_do_litoral_de_Sintra-Cascais._Da_Antiguidade_%C3%A0_Idade_Moderna_I_2015_.

[2] Idem, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I – Em torno do porto de Colares”, in História. Revista da FLUP, IV: 2 (2012), p. 112, n. 18. Disponível para consulta e descarregamento em https://www.academia.edu/3264885/A_defesa_costeira_do_litoral_de_Sintra-Cascais_durante_o_Garb_al-%C3%82ndalus._I_Em_torno_do_porto_de_Colares_2012.

[3] Jorge FREIRE, À Vista da Costa: a Paisagem Cultural Marítima de Cascais. Dissertação de Mestrado em Arqueologia, Universidade Nova de Lisboa, 2012, p. 65.

[4] Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante o Garb al-Ândalus. I […]”, p. 112, n. 18.

[5] Cf. Paulo Alexandre MONTEIRO, “Canhões na Roca. Análise preliminar de um conjunto submerso de peças de artilharia”, in Al-Madan, II: 15 (2007), pp. 158-160.

[6] Idem, ibidem, p. 158.

[7] Idem, ibidem, pp. 158-160.

[8] Existe mesmo uma lenda, a lenda da velha Ricarda ou Ricardina, uma suposta habitante da aldeia da Azóia que, em tempo incerto, após as marés vivas e dias de tempestade recolheria imensas moedas de ouro numa praia do Cabo da Roca (cf. idem, ibidem, p. 158). Esta lenda foi dada a conhecer por João Pedro Cardoso, recentemente falecido.

[9] José António Rodrigues PEREIRA, Grandes Batalhas Navais Portuguesas. Os Combates que marcaram a História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009, pp. 193-195; idem, Grandes Naufrágios Portugueses 1194-1991. Acidentes Marítimos que marcaram a História de Portugal, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2013, pp. 204-205.

[10] Carlos CALLIXTO, Fortificações da Praça de Cascais a Ocidente da Vila, sep. da Revista Militar, Lisboa, 1980, pp. 4-5.

[11] Joaquim BOIÇA e Maria Rombouts de BARROS, “As fortificações marítimas a Ocidente de Cascais”, in As Fortificações Marítimas da Costa de Cascais, Cascais, Quetzal, 2001, p. 212.

[12] Carlos CALLIXTO, op. cit., pp. 5-6.

[13] Joaquim BOIÇA e Maria Rombouts de BARROS, op. cit., p. 212.

[14] Idem, ibidem, p. 213.

[15] Carlos CALLIXTO, op. cit., p. 8.

[16] Manoel PIMENTEL, Arte de Navegar, em que se ensinam as regras praticas, e os modos de cartear, e de graduar a balestilha por via de Numeros e muitos problemas úteis à navegação, Lisboa, Officina de Francisco da Silva, 1762, p. 526.

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