Sintra e Cascais na rota dos ataques vikings (séculos IX-XI)

Vikings
Simulação de um ataque viquingue à Catoira (Galiza).                 Fotografia: oglobo.globo.com

Os ataques vikings entraram no registo cronístico da Europa Ocidental em 788, altura em que, confundido com comerciantes, um grupo de nórdicos atacou o Sul de Inglaterra e matou um representante régio local[1]. Poucos anos depois, em 793, saquearam o mosteiro inglês de Lindisfarne. O acontecimento chocou clérigos como Alcuíno de Iorque, que, numa carta escrita a partir da corte de Carlos Magno, interpretou o acontecimento sucedido como um castigo divino pelo desleixo moral do rei da Northumbria e do seu povo[2].

Estas incursões, partidas inicialmente dos territórios que viriam a ser conhecidos por Dinamarca, Noruega e Suécia, haveriam de atingir, algumas décadas depois, o Ocidente ibérico, com Lisboa a ganhar destaque como alvo das primeiras investidas. Assim, a primeira informação da presença viking[3] no actual território que corresponde a Portugal remete-nos para 844. Por volta do dia 20 de Agosto deste ano[4], 54 navios nórdicos e 54 cáravos[5] atacaram Lisboa numa investida que se prolongou por treze dias e que resultou em três batalhas com os muçulmanos locais[6]. Foi Ibn Hayyan (987-1076), citando al-Razi (888-955), que abordou a chegada dos Majus (ou Magus)[7] por essa altura. O emir Abd al-Rahman II, avisado da chegada dos guerreiros nórdicos pelo governador de Lisboa (Whab Allah Ibn Hazm), pôs em alerta as cidades costeiras a Sul. No entanto, o relato de Ibn al-Qutiya (m. 977), em conjugação com o al-Muqtabis de Ibn Hayyan, permite pensar que este ataque possa não ter sido somente à cidade de Lisboa mas também a outras localidades situadas no distrito[8]. Deste modo, Sintra[9] – que na altura tinha um rio navegável – e Cascais, na rota das navegações para Lisboa, poderão ser locais implícitos nos relatos muçulmanos[10]. É possível, igualmente, que as investidas de 844 tenham tido extensão a outras áreas já dentro do Tejo, até mesmo a Santarém[11].

Já para Sul, as investidas deste ano haveriam de se estender a Sevilha, Sidónia e a Cádis. No regresso ao Norte, depois de terem sofrido várias baixas e de terem perdido 34 navios nas costas da Andaluzia, Ibn Idhari (séculos XIII-XIV) refere que houve nova passagem dos guerreiros nórdicos por Lisboa embora não se saiba exactamente o que aconteceu[12]. Porém, al-Qurashi, citado por Ibn Hayyan, refere que os viquingues sofreram uma derrota no distrito de Lisboa, sendo “triturados por la guerra”[13].

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Guerreiros nórdicos num ataque a Angers (911). Representação presente num manuscrito francês de 1100 (Vida de S. Aubin).
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Escavação de um navio nórdico (1904).                        Fotografia: Viking Ship Museum (Oslo).

Nas suas demoradas e longínquas expedições os viquingues tiveram de usar pontos de apoio temporário ao longo da faixa costeira atlântica e mediterrânica, sendo que alguns poderão mesmo ter mantido o nome que era dado a esses guerreiros depois da sua partida[14]. Por outro lado, é possível que uma ocupação nórdica de certas áreas também possa ter derivado da doação cristã de terras em zona de fronteira[15]. Estas são situações que, para o caso do actual território português, têm sido pensadas para três locais: Lorvão[16] e Lordemão[17], no actual distrito de Coimbra, e Salvaterra de Magos[18], no de Santarém. Naturalmente que estes guerreiros nórdicos, levando a cabo expedições que se prolongavam no tempo – até mesmo devido às condicionantes atmosféricas e oceânicas que enfrentavam –, precisavam de locais para aportar, descansar, arranjar alimentos e poder consertar os navios, isto quando não era mesmo para invernar. Assim, para além dos locais referidos, decerto que terão existido outros sítios no actual território português usados temporariamente pelos nórdicos, até mesmo no Noroeste, área onde estes guerreiros chegaram a raptar algumas pessoas e a pedir resgates. Em 1015, durante nove meses, um grande número de nórdicos saqueou e fez prisioneiros entre o rio Douro e o rio Ave. Essas investidas apanharam três filhas de um homem chamado Amarelo Mestaliz, o qual conseguiu pagar o respectivo resgate a muito custo[19]. Já mais para Sul, as proximidades de Lisboa[20], quer nas margens do rio Tejo[21], quer já fora do estuário, inclusive a extensa e abrigada enseada de Cascais, também são hipóteses a ter em conta enquanto possíveis locais usados pelos nórdicos para a apoio à sua navegação[22].

Lordemão
Placa toponímica alusiva a Lordemão (Coimbra), étimo possivelmente associado a uma presença nórdica. Fotografia: https://cidadaosporcoimbra.pt

Note-se que outros ataques a Lisboa ocorreram em 858 e, possivelmente, em 859. Nesta última investida, levada a cabo por 62 navios, Ibn Idhari refere que dois dos que se haviam adiantado à restante frota (e que vinham carregados com ouro, prata, escravos[23] e provisões) acabaram mesmo por ser capturados por navios muçulmanos na costa de Beja[24], ou seja, algures na área costeira atlântica a que o distrito presidia[25], ou até mesmo já no Guadiana[26].

Decorreria muito tempo até que os viquingues voltassem novamente a atacar Lisboa, se bem que estes guerreiros possam ter levado a cabo ataques pela costa ocidental da Península Ibérica dos quais não subsistiu registo[27]. Assim, em 966, estes guerreiros nórdicos voltaram a atacar aquela cidade, vindo a enfrentar as forças muçulmanas locais numa batalha com vários mortos entre ambas as partes e de desfecho desconhecido[28]. Desta vez, Ibn Idhari faz menção a 28 navios nórdicos, sendo que ainda houve um combate no rio Arade (Silves) que opôs as forças nórdicas à frota muçulmana saída de Sevilha.

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Representação de embarcações nórdicas, uma delas levando 8 cavalos.
Carranca
Figura de proa de um navio nórdico.
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Capacete nórdico. Contrariamente ao que por vezes é dito e representado, os capacetes dos vikings não tinham chifres.
Mapa
Locais de alguns acontecimentos da Idade Viquingue, c. 790 até c. 1100. Mapa: Hélio Pires, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], p. 301.

Marco Oliveira Borges | 2016

[1] Este pequeno artigo de divulgação histórica, embora aqui surja com algumas modificações e acrescentos, foi adaptado de um trabalho mais alargado: Marco Oliveira BORGES, “A defesa costeira do litoral de Sintra-Cascais durante a Época Islâmica. II – Em torno do porto de Cascais”, in Ana CUNHA, Olímpia PINTO e Raquel de Oliveira MARTINS (coord.), Paisagens e Poderes no Medievo Ibérico. Actas do I Encontro Ibérico de Jovens Investigadores em História Medieval. Arqueologia, História e Património, Braga, Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória», Universidade do Minho, 2014, pp. 413-414 e 424-425. Disponível para consulta e descarregamento gratuito em https://www.academia.edu/10196133/A_defesa_costeira_do_litoral_de_Sintra-Cascais_durante_a_%C3%A9poca_isl%C3%A2mica._II_-_Em_torno_do_porto_de_Cascais_2014.

[2] Hélio PIRES, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico (844-1147): Fontes, História e Vestígios. Tese de Doutoramento em História Medieval, Universidade Nova de Lisboa, 2012, pp. 7-8.

[3] O termo “viking”, na Escandinávia, não designava um povo, como por vezes vemos referido nos dicionários e enciclopédias de língua portuguesa, mas sim uma actividade ou grupos dos que a ela se dedicavam, sendo que a prática que mais lhe ficou associada nas fontes anglo-saxónicas e islandesas foi a pirataria (cf. idem, ibidem, pp. 1-4).

[4] Idem, ibidem, p. 104, n. 20.

[5] Ainda que pudessem não ser exactamente 54 navios de cada tipo, certamente que os cáravos com que os nórdicos chegaram a Lisboa teriam sido tomados ao longo da costa, na investida para Sul. Neste sentido, Lisboa não teria sido o primeiro alvo nórdico (idem, ibidem, p. 109).

[6] Ibn HAYYAN, Crónica de los emires Alhakam I y Abdarrahman II entre los años 796 y 847 [Almuqtabis II-1]. Trad., notas e índices de Mahmud Ali MAKKI y Federico CORRIENTE, Zaragoza, Instituto de Estudios Islámicos y del Oriente Próximo, 2001, p. 312; António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 3.ª ed. rev., Lisboa, Editorial Caminho, 2008, p. 169.

[7] Foi aos zoroastristas, cujo culto original teve base na Pérsia, sendo os seus actos tradicionalmente acompanhados por um fogo sagrado, que os muçulmanos inicialmente chamaram al-magus. Porém, a partir do século IX, o termo surge nas fontes do al-Ândalus referindo-se, não aos zoroastristas, mas sim aos piratas nórdicos que os muçulmanos “identificaram como um outro em cujas práticas religiosas não se reconheciam”. Nesse sentido, “identificando-os como pagãos, recorreram à expressão clássica que, em cânones árabes, denominava os não-crentes – os magos”. Portanto, esta também não é uma forma de identificar um povo específico, mas sim uma referência vaga ao “outro”, àquele que não é muçulmano, judeu ou cristão (Hélio PIRES, op. cit., pp. 92-93).

[8] ABENALCOTÍA, Historia de la conquista de España de Abenalcotía el Cordobés. Seguida de fragmentos históricos de Abencotaiba, etc. Trad. de Don Julián RIBERA, Madrid, Tipografía de la Revista de Archivos, 1926, p. 50; Hélio PIRES, op. cit., p. 104; Fernando Branco CORREIA, “A acção do poder político nas actividades portuárias e na navegação no ocidente islâmico. Alguns tópicos”, in Jesús Angel SOLÓRZANO TELECHEA e Mário VIANA (eds.), Economia e Instituições na Idade Média. Novas Abordagens, Ponta Delgada, Centro de Estudos Gaspar Frutuoso, 2013, pp. 13-14.

[9] Hélio PIRES, op. cit., p. 105.

[10] Marco Oliveira BORGES, op. cit., pp. 414 e 424-425.

[11] Pedro Gomes BARBOSA, Reconquista Cristã. Séculos IX-XII, Lisboa, Ésquilo, 2008, pp. 131-132.

[12] António Borges COELHO, op. cit., pp. 170-171.

[13] Ibn HAYYAN, op. cit., pp. 316-317; Hélio PIRES, op. cit., p. 111.

[14] Tal como Ibn Idhari refere para o caso de uma cidade mediterrânica (cf. António Borges COELHO, op. cit., p. 174).

[15] Vide infra, n. 17.

[16] A hipótese é colocada por Joseph M. Piel, por se ter “lembrado do etnónimo Lordemanos/Lordemãos, […] a forma medieval corrente que se substituiu à historicamente mais conforme de Nordemanos, literalmente “homens do Norte”, ou seja os Normandos, aliás Viquingos” (cf. Joseph M. PIEL, Sobre a origem do nome do mosteiro de Lorvão, sep. de Biblos, LVII, 1981, p. 169).

[17] À semelhança do topónimo Lordemanos, existente na província de Leão, e no seguimento da hipótese levantada por Joseph M. Piel (cf. Vicente ALMAZÁN, Gallaecia Scandinavica. Introducción ó estúdio das relacións galaico-escandinavas durante a Idade Media, Vigo, Galáxia, 1986, pp. 119-120; Hélio PIRES, op. cit., pp. 260-261).

[18] Povoação inicialmente designada por “Paul de Magos”. A presente “hipótese baseia-se no facto de os muçulmanos designarem por «maghus» aqueles que a documentação cristã chama «lordomani»” (Pedro Gomes BARBOSA, op. cit., pp. 131-132; Fernando Branco CORREIA, “Fortificações de iniciativa omíada no Gharb al-Andalus nos séculos IX e X – hipóteses em torno da chegada dos Majus (entre Tejo e Mondego)”, in Isabel Cristina F. FERNANDES (coord.), Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (séculos VI a XVI), vol. I, Lisboa, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola, 2013, p. 85, n. 50.

[19] Hélio PIRES, “Money for freedom: ransom paying to Vikings in Western Iberia”, in Viking and Medieval Scandinavia, 7 (2011), pp. 125-130; idem, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], pp. 91 e 171-190.

[20] Idem, Incursões Nórdicas no Ocidente Ibérico […], p. 115.

[21] Fernando Branco CORREIA, op. cit., p. 85, n. 50.

[22] Isabel Cristina Ferreira FERNANDES, “Aspectos da litoralidade do Gharb al-Andalus: os portos do Baixo Tejo e do Baixo Sado”, in Arqueologia Medieval, 9 (2005), p. 53; Marco Oliveira BORGES, op. cit., 424-425.

[23] Pouco depois de 860, os viquingues venderam alguns negros na Irlanda anteriormente capturados em Marrocos (cf. Claudio SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Normandos en España durante el siglo VIII?, sep. de Cuadernos de Historia de España, Buenos Aires, 1957, p. 314).

[24] António Borges COELHO, op. cit., p. 173.

[25] Hélio PIRES, op. cit., pp. 114-115.

[26] Helena CATARINO, “Breve sinopse sobre topónimos Arrábida na costa portuguesa”, in Francisco FRANCO SÁNCHEZ (ed.), La Rábita en el Islam. Estudios Interdisciplinares. Congressos Internacionals de Sant Carles de la Ràpita (1989, 1997), Sant Carles de la Ràpita/Alacant, Ajuntament de Sant Carles de la Ràpita/Universitat d’Alacant, 2004, p. 264.

[27] Hélio PIRES, op. cit., p. 129.

[28] Neste caso, o califa foi avisado da investida nórdica por intermédio de Alcácer do Sal (António Borges COELHO, op. cit., p. 174; Hélio PIRES, op. cit., pp. 129-130).

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